“Não basta achar que o populismo é negativo. É importante compreendê-lo”

Em ano de eleições europeias e legislativas, o sucesso dos discursos populistas coloca o tema na agenda política. Académicos e investigadores defendem que desvalorizar o fenómeno é ingénuo e urge estudar respostas eficazes.

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Nelson Ribeiro, director da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, defende que os movimentos devem ser desconstruídos com contraditório Nuno Monteiro

O populismo está a nascer ou "a sair da toca"? Devemos ignorá-lo ou desconstrui-lo? Falar de populismo é promover ou expô-lo? São estas algumas das questões para as quais, até à próxima sexta-feira, se procuram resposta na Universidade Católica de Lisboa (UCP). O encontro de Media and Populism arrancou nesta terça-feira e sentou frente a frente investigadores e académicos que se dedicam ao estudo deste fenómeno.

No rescaldo da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do Brasil e em véspera de eleições europeias e legislativas, o timing para a realização deste encontro é “curioso”, reconhece o director da Faculdade de Ciências Humanas da UCP, Nelson Ribeiro. Mas esclarece que o programa é “uma ideia já antiga” que começou a ser definida há três anos. “O populismo — ou os populismos — enquanto fenómeno político é cada vez mais visível, preponderante e fundamental para percebermos o que está a acontecer na Europa”, justifica, em conversa com o PÚBLICO. “Sendo um ano muito desafiante, em que assistimos a um crescimento de movimentos populistas tanto à direita como à esquerda, é muito necessário termos estes debates”, defende Nelson Ribeiro​.

A proximidade em relação às eleições para o Parlamento Europeu — a 26 de Maio, em Portugal — transforma os meses que se seguem num período “de grandes desafios políticos para a União Europeia”, devido ao “crescimento de movimentos anti-Europa e anti-União Europeia” que se apresentam “defensores de uma agenda nacionalista, xenófoba e anti-elitista”. E isso coloca o debate sobre o populismo na agenda do dia, considera. “É importante compreender o que são estes movimentos e porque são tão atractivos para as pessoas”, justifica o director da faculdade que organiza o encontro.

“Tivemos uma enorme adesão de investigadores norte-americanos que quiseram estar nesta 'winter school'. Acho que não preciso de explicar o porquê. Obviamente que Donald Trump é todo um caso de estudo. Mas não nos basta olhar para o que ele diz e rir das banalidades das coisas que vai dizendo. Ao representar o papel de uma pessoa que fala para o cidadão comum, Trump está a ser a ser eficaz no cumprimento dos seus objectivos”, aponta.

 A presença de investigadores estrangeiros é vista pelo director como uma vantagem. “Temos muito a ganhar em trazer para Portugal pessoas que estão a tratar a questão do populismo noutros países. Isto porque, apesar de tudo, não podemos identificar Portugal como um país onde o populismo tenha atingido uma enorme expressão”, avalia, sem deixar de reconhecer a existência de “fenómenos populistas em Portugal”.

Tal como o discurso do Presidente norte-americano, as narrativas populistas têm muitas vezes “um valor de entretenimento, e não tanto informativo”, e, por isso, “são muito apelativas, captando a atenção das pessoas”, continua. “Não podemos ter uma perspectiva de olhar de cima para baixo e achar que estes movimentos são completamente negativos e que, por isso, devem ser simplesmente atacados”. “Não basta achar o populismo negativo. É importante compreendê-lo. É essencial desconstruir e perceber este discurso”, argumenta Nelson Ribeiro. "Desvalorizar estes movimentos é um erro” por parte de quem os quer travar, garante. Não obstante, admite que gerir essa desconstrução é também um desafio.

“Excluir essas pessoas do debate é perigoso. Sou muito defensor de que censurar uma linha de pensamento não é o melhor caminho, porque isso permite que essas pessoas adoptem uma das técnicas de propaganda mais antigas, a vitimização”, alerta. Todavia, Nelson Ribeiro acrescenta que “é fundamental existir um contraditório, especialmente quando estamos perante pessoas cuja construção do discurso radica na mentira, na falsidade e na confusão entre opinião e factos”.