Opinião

Muros nunca deram bom resultado

Não sei se Trump começou aqui a perder a reeleição em 2020. Mas sei que o Muro não será solução para a imigração e que, certamente, não fará a “America Great Again”.

Em campanha eleitoral prometeu um Muro ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México. “Um Muro grande, alto, forte e bonito”. Tudo seria fácil e os mexicanos haveriam de o pagar. Dois anos depois, pelo contrário, está a ser difícil. Os mexicanos não pagaram e os Democratas no Congresso também não o querem pagar. O Muro não é uma ideia original de Donald Trump. Muitos, antes dele, tiveram semelhante ideia e a História está cheia de muros.

São grandes barreiras físicas que delimitam territórios e dividem populações. Mecanismos de defesa e de controlo da terra e da gente. Mas os muros são muito mais do que isso, formas de tornar concreta a ideia abstracta da fronteira. Símbolos de exclusão do outro, marcas da divisão entre o nós e o eles. Foi assim com a Grande Muralha da China construída para defender o Império do Meio das tribos mongóis e foi assim com o Muro de Adriano para defender o Império Romano das tribos bárbaras. Mas não foi diferente com os muros modernos, que não tinham o objectivo de defesa militar, mas antes de controlo político. O Muro de Berlim foi o exemplo mais acabado: construído pela RDA, foi concebido como um “Muro de Protecção Anti-Fascista”. Ao que diziam, para proteger o Estado socialista das conspirações capitalistas. E, sem que o dissessem, para impedir a fuga dos alemães de leste para o ocidente. Numa palavra, para manter os “fascistas” fora e os “comunistas” dentro.

Desde o 11 de Setembro para cá os muros proliferaram, dizem que são mais de cinquenta em todo o mundo e todos contra os imigrantes e os refugiados. Neste novo mundo de muros muitos estão na Europa. E mesmo nos Estados Unidos, partes do muro tinham já sido construídas por Bush, depois suspensas por Obama, mas substituídas por tecnologias de vigilância mais sofisticada. A verdade é que os muros nunca deram bom resultado. Nem a Grande Muralha da China impediu os ataques dos mongóis, nem o Muro de Adriano evitou as invasões bárbaras. Assim como os 28 anos que durou o Muro de Berlim não impediram o colapso do comunismo e a reunificação da Alemanha.

Os muros podem aliviar a tensão e conter a violência em momentos de crise. Podem até comprar tempo para a negociação diplomática. Mas não resolvem o problema político. O que fazem, verdadeiramente, é adiá-lo. Por vezes, com o tempo e sem resolução, acabam por agravá-lo. Mas nunca são a solução. E é por isso que caem, como o Muro de Berlim. E quando não caem, transformam-se em atração turística, como a Muralha da China. Ora, se não resolveram os problemas no passado, porque hão de resolver, no presente, um problema tão sério, tão difícil e tão complexo como é o da imigração? Um muro não regula a imigração legal. Pode limitar, mas não trava a imigração ilegal. Sobretudo se a guerra ou a pobreza continuarem na origem e o mercado de trabalho oferecer uma vida melhor no destino. E, finalmente, não só não resolve como agrava as relações de cooperação necessárias entre o país de origem e de acolhimento. Trump sabe tudo isso e muito mais. Sabe, porque as estatísticas oficiais o dizem, que o fluxo migratório para os Estados Unidos caiu constantemente na última década e atingiu em 2018 o seu nível mais baixo. Sabe, porque os serviços de imigração o explicam, que a maioria dos imigrantes ilegais não entra a salto no país. Entra de forma legal com visto turístico e permanece de forma ilegal com o visto expirado. E também sabe, porque o Departamento de Estado recentemente o confirmou, que não há “evidencia credível” da passagem de terroristas na fronteira do México. Porquê, então, a obsessão do Muro? Porque o Muro se tornou na metáfora do seu governo. E não é o Muro em si. É a polémica do Muro. É a polémica que serve a sua estratégia ideológica e política. A ideia do Muro serve, primeiro, para tornar visível a separação entre o nós e o eles e alimentar a sua ideologia nativista e protecionista. E serve, depois, para polarizar a sociedade americana, porque é da polarização que vive a sua estratégia populista.

Como é obvio, o Muro não tem a colaboração do México, tem a oposição do Congresso e, dizem as sondagens, a desaprovação crescente da opinião pública. Não sei se Trump começou aqui a perder a reeleição em 2020. Mas sei que o Muro não será solução para a imigração e que, certamente, não fará a “America Great Again”.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico