Montenegro espera que Rio aceite ir já a eleições no PSD

Presidente da República reuniu-se nesta sexta-feira à noite com o líder do PSD, que prometeu responder a Montenegro. Quando entender.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Foi um discurso para dentro do PSD mas também para fora. Luís Montenegro desafiou o actual líder do partido a marcar eleições já – “não tenha medo do confronto político” – para evitar que o PSD tenha uma “derrota humilhante” e para que deixe de ser um partido “satélite” do Governo de António Costa. Montenegro apresentou-se como quem vem “salvar o PSD do caminho do abismo” e justificou a sua mudança de opinião sobre o cumprimento do mandato da direcção com a alteração “brutal” das circunstâncias. Não acenou com um conselho nacional para tentar forçar a demissão da direcção de Rui Rio.

Com um PSD em crise, o Presidente da República reuniu-se na noite desta sexta-feira com Rui Rio num hotel do Porto, aproveitando uma deslocação àquela cidade. Foi Marcelo Rebelo de Sousa quem pediu a reunião, confirmou o próprio Rui Rio à saída do encontro, que durou cerca de uma hora. "Não falávamos pessoalmente há algum tempo", disse, referindo que foram abordados assuntos de "política interna e externa". Questionado sobre o desafio de Montenegro, o líder do PSD prometeu uma resposta para breve. "Eu vou responder, não vou fazer de conta que nada está a acontecer, seria uma grande hipocrisia", disse, sugerindo que não tem pressa. E recorreu a uma metáfora desportiva: "Eu era corredor de 100 metros, mas aos 20 anos. Agora sou corredor de fundo ou meio-fundo". 

Entre os apoiantes de Luís Montenegro considera-se expectável que Rui Rio venha a jogo sem que seja necessário propor uma moção de censura. Este último cenário também é considerado possível, mas mais remoto pelos mais próximos de Montenegro. Esse não parece ser, no entanto, o sinal que deu a vice-presidente do PSD, Isabel Meirelles, ao acusar, numa dura declaração, o antigo líder parlamentar de estar a tentar fazer um “golpe de estado” no partido, horas antes de este fazer a sua declaração no Centro Cultural de Belém (CCB).

Ao lado do antigo líder parlamentar começam a surgir publicamente os apoios: a ex-ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz, a antiga secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e Igualdade Teresa Morais, o presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques. Nomes que se juntam a dirigentes de distritais onde começou o movimento de apoio a Luís Montenegro para que provoque eleições no partido agora. Mas nenhuma dessas figuras ou apoiantes estava na sala do CCB, apenas se encontravam alguns militantes que chegaram por sua vontade e os amigos Hugo Soares (deputado) e Joaquim Pinto Moreira, presidente da Câmara de Espinho, terra natal do desafiador de Rio.

No discurso de perto de 20 minutos, Luís Montenegro começou por lançar um forte ataque à direcção de Rio. Porque “prometeu uma oposição firme” ao Governo e “falhou", e porque devia ter “unido o partido” e “falhou”. Aos olhos dos eleitores, António Costa “desfila” rumo à vitória nas eleições enquanto o PSD aparece “frouxo” a fazer oposição, criticou. A forma como o PSD se tornou submisso ao Governo foi, aliás, uma das tónicas do discurso: "Não há uma crítica de Rui Rio a António Costa." 

No retrato da situação actual do partido, Montenegro dramatizou – “o estado do PSD é mau, é preocupante e é irreversível com esta liderança” – e disse não se resignar a um PSD “perdedor” e “irrelevante”. Depois, o antigo líder da bancada social-democrata teve que justificar por que motivo mudou de opinião, quando há ainda não muito tempo reiterava que Rio deveria disputar as eleições legislativas. Houve uma “brutal alteração de circunstâncias”, alegou, argumentando que “há um ano ninguém admitia esta queda enorme do PSD nas sondagens” nem que o partido “estivesse a caminho de uma das derrotas mais humilhantes da sua história”.

Na hora de desafiar directamente o líder para ir a eleições, Montenegro pediu “coragem” a Rio e apelou a que a direcção não se refugiasse em “questões formais”.

Numa outra vertente do discurso, o antigo líder parlamentar assumiu quase o papel de candidato a primeiro-ministro ao prometer “galvanizar os portugueses”, para um “tempo de esperança” para “os empresários que querem arriscar novos negócios, para os trabalhadores que aspiram a melhores salários e para os mais desfavorecidos”.

Advogado, de 45 anos, Luís Montenegro nunca foi governante e liderou a bancada durante todo o consulado de Passos Coelho. Recusou candidatar-se há mais de um ano à liderança do PSD, mas preparou terreno para o futuro. O cenário ideal seria depois das legislativas deste ano, em caso de derrota de Rio. Mas há muito que os críticos da actual direcção o pressionavam para que esse momento fosse antecipado.

Para Almeida Henriques, que foi mandatário de Santana Lopes nas últimas directas, a atitude de Montenegro foi de “coragem”. O autarca considera legítimo que Luís Montenegro se afirme "como alternativa" dentro do partido. Rio “não estima o partido, os autarcas. Só tem auto-estima”, critica, em declarações ao PÚBLICO.

Paula Teixeira da Cruz assumiu que estará ao lado de Montenegro, se a disputa interna se realizar, já que o PSD actual "parece um carro a ir contra uma parede". Para Teresa Morais, o ex-líder parlamentar tem "condições" para questionar uma liderança que preferiu "dividir, desagregar e perseguir". 

Outros defendem que não é o momento de disputas internas. É o caso do líder da distrital de Bragança, Jorge Fidalgo, que acusou os opositores internos de incoerência. Já o líder da distrital de Braga, José Manuel Fernandes, assumiu ao Expresso uma posição dupla: considera “pacífico” o desafio à liderança; mas condena a apresentação de uma moção de censura.

Em tom de apelo, Álvaro Amaro, presidente da Câmara da Guarda e líder dos Autarcas Sociais-Democratas, pediu “união” no partido, mas lamentou que se crie uma “onda de choque” para impedir que o "líder legitimamente eleito vá a eleições". “Esta é uma disputa fora de tempo”, disse o autarca.

Ainda antes da declaração de Montenegro, Isabel Meirelles atacou o seu companheiro de partido, ao dizer à Lusa, que a iniciativa “é um grito de desespero para manter o poder, os lugares”. Lamentou que o antigo deputado diga uma coisa e faça outra, revelando não ter “ética nem para liderar uma junta de freguesia, quanto mais o partido”. Mais tarde, a mesma dirigente reagiu à declaração de Montenegro em tom mais suave, mas assegurando que a sua posição não vinculava Rui Rio nem a direcção do PSD.