Opinião

As queixas de Pepetela e a boa opção da Forbes

Sendo ano de eleições, 2019 é também boa oportunidade para decidir de vez o destino da aberração que é o acordo ortográfico.

Como de costume, o Pai Natal estava bem-disposto. E ocupadíssimo. “Feliz Natal!”, disse ele à criança pelo telefone. “Como te chamas?” A criança disse. E quando se preparava para pedir o presente, ouviu do outro lado da linha: “Criança, ainda acreditas em Donald Trump? É que aos sete anos já é raro acreditar nele, não achas?” A criança não achava nada, queria passar ao tema seguinte. Mas o Pai Natal, com a pressa, nem lhe falou do muro do México.

A história passou-se mais ou menos assim, em finais de 2018, embora com os protagonistas trocados. Mas o que é aqui mais relevante é a importância das crianças de 7 anos – idade da menina Collman Loyd, da Carolina do Sul, a quem Trump perguntou se ainda acreditava no Pai Natal, “raro nessa idade”, ao que a criança respondeu que sim, tanto que lhe ia deixar biscoitos e leite com chocolate para quando passasse lá por casa; o Pai Natal, não Trump.

Mas voltando às crianças de 7 anos, também por cá elas serviram de mote a uma “prenda” que caiu como pedra afiada nos nossos sapatinhos há uns anos. Não sei se se lembram, mas o texto dizia assim: “De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.” Isto foi o que se escreveu, e pode ler-se, na Nota Explicativa que acompanhava o “Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90), no seu ponto 4.2, alínea c (Diário da República, I Série-A, n.º 193, 23-8-1991). Portanto, antes de Trump, Pais Natais à parte, já o português Malaca Casteleiro tinha dedicado a sua atenção às pobres criancinhas daquela vulnerável faixa etária, salvando-as do horror das consoantes mudas e outros males da complicada grafia portuguesa. O problema é que estes anos de “salvação” redundaram em desastre. Nunca se escreveu tão mal e misturando tantos maus critérios, fingindo seguir uma norma que é em si mesma uma não-norma, pois tem tantas grafias duplas e facultatividades que o erro se tornou banal e integrado na escrita comum. Esse foi, aliás, o móbil inconfessado da lógica acordista: afastar o peso da ortografia padrão e sujeitá-la ao livre-arbítrio. Isto a coberto de uma “simplificação” que na verdade apenas complicou, porque barrou o passo ao caminho natural das variantes da língua falada e escrita: a admissão das diversidades nacionais sob uma mesma designação, a de Língua Portuguesa.

Tudo o que, entretanto, se pôs em marcha para aferir os resultados do dito AO90 continua a marcar passo. Falta o relatório da comissão parlamentar, faltam decisões de outros órgãos institucionais com o dossier entre mãos, faltam posições claras por parte das organizações partidárias. O regresso a uma ortografia estável é o mínimo que pode exigir-se, hoje, diante do incomensurável disparate desta aventura. Que raros políticos dêem a cara pelo “acordo”, com argumentos, diz bem do valor que lhe é atribuído, uma coisa que se tolera (sem se saber bem porquê) e que só se mantém pela inércia. Sendo um ano de eleições, 2019 é também boa oportunidade para decidir de vez o destino da aberração que é o acordo ortográfico.

Recentemente, o escritor angolano Pepetela afirmou ao Jornal de Angola não se sentir confortável com o facto de as suas últimas obras terem sido editadas em Portugal com o AO90, até porque, sendo membro Academia Angolana de Letras (que se manifestou contra este acordo pedindo ao governo angolano que não o aplique), será “uma incongruência”. A sua posição é, aliás, idêntica: “As línguas evoluem, mas eu não apoio essa nova versão.”

Seria útil um pequeno inquérito para saber quantos editores pressionam os autores que publicam a sujeitar-se ao AO90, mesmo contra a vontade inicial destes. Serão muitos, com certeza. Enquanto isso, há que saudar publicações como a Forbes que, surgindo agora em edição portuguesa, ignora o AO90 e é escrita em bom e claro português europeu. Que pode, e deve, subsistir a par do português brasileiro e os das variantes africanas ou orientais que estão a impor-se na fala e na escrita: é essa a riqueza da Língua Portuguesa, não outra.

Voltando ao início: se fosse no Brasil, seria Papai Noel. Lá, “Pai Natal” não existe mesmo.