Marcelo pede “mais credibilidade e transparência às instituições políticas”

Na mensagem de Ano Novo, o Presidente da República pediu “ambição” social e económica, mas também quer que se dê “credibilidade, transparência, verdade às instituições políticas”.

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Mensagem de Ano Novo 2019 LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Para o ano eleitoral de 2019, o Presidente da República não pediu estabilidade política, como fez nas duas mensagens de Ano Novo anteriores. Pediu ambição para uma economia mais forte e uma sociedade mais justa, mas também respeito pelos outros nas greves e manifestações. Aos políticos, pediu “credibilidade, transparência e verdade”. O que parece “simples”, mas “é exigente” num mundo em mudança acelerada.

“Votem. Não se demitam de um direito que é vosso, dando mais poder a outros do que aquele que devem ter”, pediu Marcelo Rebelo de Sousa, recomendando que nas escolhas que se façam nos três actos eleitorais deste ano – europeias, regionais da Madeira e legislativas - não se olhe “só para hoje”, mas também para “amanhã e depois de amanhã”, pensando nos filhos e nos netos. “Debatam tudo, com liberdade, mas não criem feridas desnecessárias e complicadas de sarar”, acrescentou, num apelo contra as rupturas sociais e políticas.

Marcelo não sugeriu que num ano com três eleições deve haver mais paz social do que em qualquer outro, mas pediu “bom senso” e respeito por terceiros, fazendo pensar nas greves mais críticas, como as da saúde. “Chamem a atenção dos que querem ver eleitos para os vossos direitos e as vossas escolhas políticas, pela opinião, pela manifestação, pela greve, mas respeitem sempre os outros, os que de vós discordam e os que podem sofrer as consequências dos vossos meios de luta”, disse.

E a todos os que quiserem ser candidatos nos próximos actos eleitorais, deixou um pedido de rigor e exigência: “Analisem, com cuidado, o vosso percurso passado e assumam o compromisso de não desiludir os vossos eleitores.” Foi a primeira de várias recomendações éticas à classe política. A segunda, bem explícita, surge no capítulo da ambição: é preciso dar “credibilidade, transparência, verdade às instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar.”

O risco de não o fazer, sugeriu Marcelo, é o descamar da própria democracia. “Pensem como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la, com arrogâncias intoleráveis, promessas impossíveis, apelos sem realismo, radicalismos temerários, riscos indesejáveis”. Numa mensagem gravada horas antes de partir para o Brasil, onde assistiu à tomada de posse do Presidente Jair Bolsonaro, Marcelo Rebelo de Sousa falou, e muito, de democracia.

“Não há ditadura, mesmo a mais sedutora, que substitua a democracia, mesmo a mais imperfeita”, sublinhou, considerando como ingredientes democráticos a justiça social, o combate à pobreza e a correcção das desigualdades, pois “não há democracia que dure onde alguns poucos concentrem tanto quanto todos os demais”.

Os tempos estão difíceis, sublinhou o Presidente da República, ilustrando-o nestes termos: “Num mundo em que falta em Direito, paz, diálogo, justiça, certeza o que sobra em razão da força, conflito, desigualdades, incerteza. Numa Europa que fica mais pobre com a partida do Reino Unido, desacelera na economia, vê crescerem promessas sem democracia e sem pleno respeito da dignidade das pessoas. Num Portugal, que saiu da crise, reganhou esperança, mas que precisa de olhar para mais longe e mais fundo”. A resposta, defendeu, tem de partir dos valores mas ter ambição e bom senso.

Ambição, precisa-se

A começar pela economia. Marcelo entende que o Governo tem de assegurar que a economia portuguesa “se prepare para enfrentar qualquer crise que nos chegue”, mas ao mesmo tempo “queira aproximar-se das mais dinâmicas da Europa, prosseguindo um caminho de convergência agora retomado”. E que nesse trilho exista ao mesmo tempo a ambição de “ultrapassar a condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e a fatalidade de termos Portugais a ritmos diferentes, com horizontes muito desiguais”.

Em suma, Marcelo sonha com um Portugal que seja “ponto de encontro entre povos, economia mais forte, sociedade mais justa, política e políticos mais confiáveis” e afirma que não é pedir muito. “Quem venceu crises e delas saiu, com coragem e visão, é, certamente, capaz de converter esse esforço de uma década num caminho mobilizador e consistente de futuro”, defendeu, com o seu optimismo “realista”.

Pela sua parte, prometeu continuar a ser um Presidente presente todos os dias, para que “nenhum contributo seja desperdiçado, nenhuma voz ignorada, nenhum gesto perdido”. E continuar a alimentar a ambição de Portugal se impor como “uma plataforma que une povos, culturas e civilizações” – uma das linhas mestras da sua Presidência desde o discurso de tomada de posse e em todas as mensagens de fundo destes quase três anos de mandato.