Margarida Basto
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Margarida Basto

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Ciclismo urbano: obstáculos de uma opção sem marcha-atrás

Abriu de mansinho a época da caça ao ciclista, à boleia da inundação de trotinetes eléctricas, que se traduz num súbito excesso de zelo das autoridades em “sensibilizá-lo” para as regras de trânsito. Tem de haver bom senso.

As preocupações com as alterações climáticas e consequente sustentabilidade do planeta, tal como o planeamento urbano das grandes cidades, têm levado a uma tentativa de substituição dos meios de transporte movidos a combustíveis fósseis pela bicicleta.

De há dois anos para cá tem-se assistido em Lisboa a um investimento para a adopção deste veículo para as viagens quotidianas, de forma a ter uma cidade mais sustentável. É notório que o número de bicicletas a circular pela cidade aumentou consideravelmente.

Mas ultimamente é impossível ignorar uma espécie de retrocesso na sustentabilidade a longo prazo do uso da bicicleta. Este meio de transporte, na verdade, tem vindo a fazer parte do plano de mobilidade devido à boa vontade das pessoas e contra todas as limitações da cidade a vários níveis — das colinas ao mau humor de alguns automobilistas.

Quero abordar três pontos que considero fulcrais na estratégia de fomento da utilização de alternativas sustentáveis de transporte: a informação, o planeamento urbano e a regulamentação.

Quanto à informação, acho manifestamente pouco que a única iniciativa propagandeada pela Câmara de Lisboa para aferir a disseminação do uso da bicicleta seja um timelapse de um pedaço de ciclovia. Faltam dados estatísticos concretos sobre o uso dos transportes e, uma vez que se pretende investir cada vez mais nesta área, é importante perceber o perfil dos utilizadores. Por exemplo, gostaria de perceber qual o impacto da utilização da bicicleta na redução de carros porque me parece que a maior parte dos ciclistas que se vê por aí são antigos utilizadores de transportes públicos que se cansaram da degradação sucessiva dos mesmos. Assim como perceber quais os factores que os levam a preferir usar este transporte e se a construção massiva de ciclovias ou o aparecimento das bicicletas partilhadas foram factores determinantes na adopção desse meio. É com dados fiáveis é que se pode continuar a tomar medidas estruturadas, ponderadas e transparentes que garantam uma simpatia geral com as políticas de incentivo à bicicleta.

No que toca ao planeamento urbano, a questão é complexa e a minha opinião emaranha-se, em parte, com a regulamentação. Foram construídas uma série de ciclovias em avenidas com passeios enormes. Acontece é que, por força do piso desagradável em que são feitos os passeios, pelas infames esplanadas espalhadas por todo lado, ou até, quiçá, por uma atracção subconsciente, os peões acabam sempre por ocupar as ciclovias, fazendo com que um ciclista acabe por circular numa ciclovia com a mesma preocupação que tem num passeio (e bem!).

Proponho que se aposte mais em ciclovias em avenidas sem passeio decente, como a Gago Coutinho, ou em estradas que levem a sítios mais isolados, como o Beato — o caminho até lá é mais perigoso e uma simples delimitação na estrada a tinta faria os ciclistas sentirem-se muito mais seguros. E também acredito que os ciclistas podem partilhar os passeios com os peões — ocupa mais espaço levar a bicicleta pela mão, mas há que ter em conta que a prioridade é sempre do peão, de forma a não causar acidentes. Faz lá algum sentido que numa rua de sentido proibido um ciclista tenha de dar a volta a um quarteirão inteiro apenas por alguns metros? Noutros locais, como em Inglaterra, existem vilas onde não há passeios nem passadeiras e os acidentes diminuíram acentuadamente a partir do momento em que se começou a responsabilizar mais todos os intervenientes do espaço público e a colocar o peão em primeiro lugar.

Por fim, em relação à regulamentação, a questão da obrigatoriedade do capacete tem vindo a aparecer na agenda mediática de vez em quando, normalmente através de pessoas que relatam histórias avulsas sempre com uma pitada de horror e tragédia. É uma forma de condicionar as pessoas através do choque, ignorando, por vezes, a quantidade de evidência científica que aponta para uma maior segurança do ciclista urbano quando não usa capacete.

Entretanto, abriu de mansinho a época da caça ao ciclista, à boleia da inundação de trotinetes eléctricas, que se traduz num súbito excesso de zelo das autoridades em “sensibilizá-lo” para as regras de trânsito. O que toda a gente aplaudiu, pois como se sabe Portugal é um país onde a lei é sagrada.

Obviamente que há ciclistas que têm comportamentos perigosos que devem ser corrigidos até pelo meio de coimas, mas não podemos negar que ainda é o comportamento negligente de alguns automobilistas que tem o maior potencial de colocar em risco a integridade física de outrem. Mesmo assim, não se tem assistido com o mesmo zelo à sensibilização dos que continuam a conduzir enquanto mexem no telemóvel ou/e passam passadeiras e vermelhos sem ter atenção aos peões. Tanto que um ciclista que se preze não anda aí a desrespeitar regras de trânsito à louco — quanto muito trata um sinal vermelho como um Idaho Stop, pois sabe que o menor erro que cometer ao não adoptar uma condução defensiva recairá sempre sobre ele o maior dano.

Dir-me-ão que o comportamento errado de uma parte não justifica o comportamento errado de outra, mas as leis só são verdadeiramente fortes quando são fiscalizadas e feitas cumprir. Quando essas mesmas leis se tornam anacrónicas e/ou ineficientes acabam por se esvaziar sem qualquer mal maior, sendo usadas apenas pontualmente para dirimir conflitos. É com esse raciocínio em vista que peço que haja um foco das autoridades no que realmente possa causar dano, ao invés de um ciclista que, para evitar contornar uma rotunda enorme, usa o passeio onde está mais seguro e se cansa menos; ou de um que passa um vermelho numa recta sem cruzamento. Também não me parece que se vá começar a multar peões por passarem fora da passadeira ou quando o semáforo está vermelho. Tem de haver bom senso para que enquanto as cidades e mentalidades não se adaptam a esta nova dinâmica na mobilidade urbana, se consiga facilitar a vida a todas as partes.