Opinião

Os obstáculos das trotinetes

A boa regulação é certamente um caminho, mas também o é a auto-regulação. A começar pelas empresas, que devem ter em conta os factores de potenciais confrontos e de segurança.

A mobilidade está a mudar a alta velocidade, algo que no caso de Portugal é mais visível em Lisboa. Não é ainda uma revolução, mas é certamente uma transformação, cuja última evidência são as trotinetes eléctricas (o facto de lhes chamarem scooters, para parecer mais adulto, não apaga o facto de serem trotinetes).

Do zero passou-se a pelo menos três empresas a operar na capital, com a norte-americana Lime a tomar a dianteira, seguindo-se a Voi (sueca) e a Hive (alemã, ligada à Mytaxi). E outras mais virão, à procura da sua fatia de mercado.

Agora, esbarra-se, literalmente, em trotinetes. No meu caso, dei inadvertidamente um pontapé numa que estava mal estacionada na plataforma da estação de comboios de Alcântara. Visualmente, o estacionamento por todo o lado não é nada estético, mas mais do que isso pode ser perigoso para os peões (uma trotinete atravessada no passeio é meio caminho para dar asneira ou levar com uma cacetada do “chega para lá”). E é um problema que tem de ser melhorado, para manter aquela que é uma das grandes vantagens destas trotinetes e de outras empresas: o facto de não se estar muito limitado no estacionamento.

Aqui, o problema é essencialmente comportamental, com a necessidade de um impulso das empresas para premiar as boas atitudes (como bónus) e penalizar as más, além da necessária vigilância de quem licencia e de quem regula. A questão é que tudo isto é ainda muito novo e, numa lógica de conquista de mercado e rentabilização, com uma concorrência global e veloz, é tudo feito em grande escala.

Numa cidade onde os automóveis têm a primazia e vão continuar a ter, Lisboa ganhou nos últimos anos uma rede de ciclovias que seria impensável até há pouco tempo. Esses espaços marcam também a disputa entre este tipo de novos veículos, além das bicicletas convencionais (o transporte com menos impactos), e os peões.

Mais uma vez, há ainda falta de hábitos e de civismo, o que leva a que pessoas circulem a pé nas ciclovias ou as atravessem sem olhar uma vez ou pensar duas, ao mesmo tempo que se vêm bicicletas e trotinetes eléctricas nos passeios, colocando em risco os peões. Pelo meio, até já vi uma pequena mota eléctrica numa ciclovia.

Isto, quando além do reforço esperado do número de trotinetes e de empresas, se antecipa o mesmo em relação às bicicletas eléctricas.

No caso das trotinetes, vê-se pessoas a usá-las por lazer mas também por alternativa a outros meios de transporte. E a tendência é para haver maior uso deste meio de transporte na chamada “última milha” (do conceito anglo-saxónico “last mile”), referindo-se à distância a percorrer entre, por exemplo, a estação de metro e local do emprego/residência.

Sendo uma realidade recente, tanto a nível internacional como em Portugal, este tipo de transporte chegou em força e dificilmente se irá embora, mesmo se o uso não é barato.

Depois de uma corrida de investidores a estas empresas, há agora um ligeiro arrefecimento no mercado. Mas, note-se, isso apenas quer dizer que a Lime fica avaliada em entre dois e três mil milhões de dólares, em vez de quatro mil milhões. E estamos a falar de uma empresa com cerca de um ano de vida (a Uber é um dos seus investidores).

Entre as questões ligadas ao arrefecimento do mercado está o vandalismo e imposições regulatórias. Há locais onde as trotinetes estão a provocar reacções adversas, com pessoas a atirarem-nas a rios ou a lagos (não percebi se também fazem o mesmo aos carros mal estacionados), e há cidades a impor limites ao número de trotinetes disponíveis.

A boa regulação é certamente um caminho, mas também o é a auto-regulação. A começar pelas empresas, que devem ter em conta os factores de potenciais confrontos, e de segurança. Além do problema do estacionamento –​ que tem de ser melhorado –, veja-se o caso dos capacetes, com diferentes visões sobre se é preciso ou não usar nas bicicletas eléctricas e também nas novas trotinetes.

O bom senso, diria eu, está do lado do “sim”, mesmo se a lei é dada a interpretações (a norma tem sido a não utilização). Cair a 25 km/hora não só é doloroso como pode ser mortal ao embater com a cabeça, e nas experiências que tive percebi que não é nada difícil cair de uma trotinete destas.

Esta discussão, que mexe com o modelo de negócio, confirma que há ainda um caminho a percorrer, ao qual devemos prestar a devida atenção para que não haja um recuo na actual dinâmica, que é essencialmente positiva. Por isso mesmo, este é o momento certo para actuar.

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