Opinião

Resposta aos “coletes amarelos”? Um novo contrato verde

Se houver quem saiba explicar o rumo e descrever o destino, será muito mais difícil aos manipuladores e oportunistas abusarem das justas ansiedades que todos hoje sentimos.

Decidamo-nos: os “coletes amarelos” são genuínos representantes dos “perdedores da globalização” ou “deploráveis” explorados pela extrema-direita? Para grande parte do comentariado e dos políticos, nacionais e internacionais, a resposta é fácil: quando dá jeito, são uma coisa, quando não dá, são a outra. Nisso não há novidade em relação às anteriores convulsões sociais e políticas dos últimos anos.

Aqueles que aproveitaram a crise para atacar o projeto europeu, declarando-o “irreformável” e uma "máquina de criar fascistas”, decidiram com a eleição de Bolsonaro que afinal o fascismo não podia ter explicações locais, mas sim globais. Aqueles que em relação ao Brasil tudo atribuíam às culpas do PT e à corrupção, e explicavam que “assim é que nasciam os bolsonaros”, andam muito calados desde que os bolsonaros — pai, filhos, mulher e noras — têm sido descobertos a movimentar milhões de reais através de motoristas e assessores.

Há à esquerda quem tenha tecido loas aos "coletes amarelos" quando se tratava de atacar o odiado Macron mas vá avisando que não reconhecerá legitimidade a coletes amarelos contra a "geringonça". Há à direita quem apele à revolta contra “o socialismo”, esquecendo de nos dizer como caracterizam as reformas de Macron; serão elas também socialistas?

Creio que um início de conversa intelectualmente séria sobre este tema tem de começar por evitar este tipo de intermitências táticas. Quem negar que existam perdedores da globalização e razões legítimas de queixa, está a ser irresponsável. Quem negar que existam oportunistas e manipuladores, internacionais incluídos, a fomentar o ressentimento político na Europa, está a ser ingénuo (e já não é de hoje: nos tempos das nossas manifestações contra a austeridade, era costume eu receber telefonemas com pedidos de comentário do canal de Putin, a Russia Today, e a pergunta era sempre “vai haver violência em Portugal?”).

Para continuação de conversa, creio que nos poderão servir quatro princípios. Reconhecer os verdadeiros problemas; rejeitar e refutar a propaganda de falsos problemas; não prometer às pessoas aquilo que é impossível de concretizar; estar do lado das soluções. Vejamo-los um por um.

Para entender a situação em que estamos, é preciso ir lá bastante atrás, até antes da crise e mesmo dos anos 1970/80 que são em geral apontados como estando na origem da nossa era política. Nos últimos 300 anos, mais ou menos, a humanidade viveu sob a vigência de três contratos sociais e políticos. Passo a descrevê-lo a traço grosso:

O primeiro contrato era o do Absolutismo, e tinha como três vértices os súbditos, o Rei, e Deus. Quando alguma coisa corria mal, o contrato absolutista previa uma solução: era preciso obedecer mais ao Rei e temer mais a Deus. Foi esse contrato que o Grande Terramoto de Lisboa em 1755 demonstrou estar baseado em pressupostos errados e que as Revoluções — a Americana e a Francesa — acabaram por revogar.

O segundo contrato demorou a emergir, entre as Guerras Napoleónicas e a 1.ª Guerra Mundial. O seus termos já não eram o súbdito-Rei-Deus, mas antes o povo, o Estado, e a Nação (muitas vezes grafados assim com maiúsculas, como os termos anteriores). O ponto culminante desse contrato foi o, não por acaso assim chamado, New Deal de Franklin Delano Roosevelt. New Deal quer simplesmente dizer “Novo Contrato”. E era isso que o plano de Roosevelt era: quando alguma coisa corria mal — e estava a correr enormemente mal com a Grande Depressão — a solução havia de se encontrar num reforçar do contrato entre o povo, o estado e a nação, representados pelo governo. A forma como Roosevelt explica a criação da Segurança Social é quase digna de poesia: um dólar do trabalhador, um dólar do patrão, e se houver doença, morte ou desemprego ali estará a rede de segurança necessária para não se cair na pobreza. O New Deal de Roosevelt foi uma construção política brilhante e trouxe-nos quase até aos dias de hoje, mas o próprio Roosevelt, antes de morrer, admitiu implicitamente que o contrato era limitado ao descrever no seu discurso das “Quatro Liberdades” que a escala após a 2.ª Guerra seria outra: tratava-se agora de conquistar a liberdade de expressão e de consciência, e a libertação da fome e do medo, “em todos os lugares do mundo”, ou as conquistas anteriores seriam insustentáveis.

Deixemos o terceiro contrato, aquele de que precisamos agora, para o fim. Antes façamos um diagnóstico usando os princípios que descrevi há pouco.

Não negar os problemas: é evidente que a humanidade, neste início de novo milénio, está em apuros. Sabemos que o clima está a mudar e o planeta a ficar menos sustentável para nós; não sabemos qual será o futuro do trabalho; há uma imensidão de dinheiro a circular pelo mundo, mas boa parte dele escondido para fugir aos impostos e quase todo ele mal distribuído.

Segundo princípio: refutar e rejeitar os falsos problemas que nos querem impor pela propaganda. Não, a imigração não é o maior problema das nossas sociedades, não está a um nível anormalmente alto, e a grande maioria dos imigrantes são gente de valor que desempenha um papel positivo na nossa sociedade. (É tão importante aceitar os verdadeiros problemas como rejeitar os falsos: na Alemanha dos anos 30 isso significaria dizer “sim, as condições da Paz de Versalhes são punitivas e devem ser revistas, mas não, os judeus não são os culpados e estigmatizá-los é inaceitável” — e uma distinção como essa faz tanta falta hoje como ontem).

Não prometer às pessoas aquilo que é impossível de concretizar: sim, a globalização traz problemas que devem ser mitigados e corrigidos, mas não, não é possível fazer regredir grande parte dos aspectos — tecnológicos e comunicacionais, por exemplo — que estão na base da globalização. Temos de aprender o que fazer com eles em vez de prometer às pessoas que é possível voltar aos anos 50.

E, finalmente, estar do lado das soluções. Estar do lado das soluções, hoje, significa estar do lado de um novo contrato, desta vez um Novo Contrato Verde. Nesse contrato os tomadores deverão ser a humanidade, a natureza e a tecnologia. O objetivo deve ser a sustentabilidade ambiental, social, política e económica — em condições de liberdade, igualdade e dignidade democráticas. E o que é preciso fazer é preencher as linhas desse contrato com coisas concretas: por exemplo, como é que combater as alterações climáticas significa isolar bem e aquecer melhor as casas dos mais velhos que passam frio no inverno em Portugal. Um Novo Contrato Verde, em Portugal, na Europa e para lá dela, deve explicitar objetivos claros de investimento: em que infraestruturas, em que novos empregos, em que novas tecnologias, em que novas formações. E deve tocar todos os aspectos da nossa sociedade e das nossas instituições: das cidades ao campo, das universidades aos postos de trabalho, das ruas às casas.

Se houver quem saiba explicar o rumo e descrever o destino, será muito mais difícil aos manipuladores e oportunistas abusarem das justas ansiedades que todos hoje sentimos.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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