CNN revela carta sobre construção na Rússia assinada por Donald Trump

O Presidente norte-americano garantiu durante a campanha que não tinha negócios na Rússia, e no domingo o seu advogado disse que ninguém assinou nenhum acordo preliminar.

Donald Trump
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Donald Trump Reuters/JIM YOUNG

O canal norte-americano CNN divulgou esta quarta-feira um acordo preliminar para a construção de um projecto imobiliário no centro de Moscovo, assinado por Donald Trump em Outubro de 2015. Durante a campanha eleitoral de 2016, o actual Presidente norte-americano disse que não tinha quaisquer interesses comerciais na Rússia e, mais recentemente, negou que tenha assinado qualquer carta de compromisso.

O documento foi mostrado pelo jornalista Chris Cuomo no seu programa na CNN e está disponível, na íntegra, no site da estação norte-americana.

A carta apresentada pela CNN tem as assinaturas de Donald Trump e do dono da empresa russa que iria desenvolver o projecto, Andrei Rozov. Nela estão detalhadas as condições para a aquisição, pela empresa russa, de um empreendimento que seria conhecido como "Trump Moscow".

Durante a campanha para as presidenciais de 2016, e já depois de ter chegado à Casa Branca, em 2017, Donald Trump disse sempre que não tinha quaisquer negócios com a Rússia.

"Eu não tenho negócios na Rússia, não tenho nenhum negócio com a Rússia, não tenho nenhum negócio que poderia vir a acontecer na Rússia, porque nos mantivemos afastados. E não tenho empréstimos na Rússia", disse Donald Trump a 11 de Janeiro de 2017, dias antes de tomar posse como Presidente dos EUA, numa conferência de imprensa na Trump Tower, em Manhattan.

Com a abertura de várias investigações sobre as suspeitas de interferência russa nas eleições de 2016 nos EUA – a principal das quais é liderada pelo procurador especial Robert Mueller –, o interesse de Trump em desenvolver um projecto imobiliário na Rússia foi sendo revelado.

Em Setembro de 2017, o então advogado pessoal de Trump, Michael Cohen, disse ao Congresso norte-americano que, de facto, houve um interesse na construção de uma Trump Tower em Moscovo, mas garantiu que a abordagem foi feita por ele e que o negócio foi descartado em Janeiro de 2016 – antes do arranque das eleições primárias no Partido Republicano, que viriam a ser ganhas por Donald Trump.

Segundo o depoimento de Michael Cohen em Setembro de 2016, nem Donald Trump nem os seus filhos foram mantidos ao corrente da abordagem feita entre Outubro de 2015 e Janeiro de 2016.

Já este ano, em Abril, Cohen começou a colaborar com os investigadores do Departamento de Justiça e com outros procuradores que o acusaram de fraude fiscal e bancária e de pagar a duas mulheres para se manterem em silêncio sobre relações passadas com Donald Trump – segundo esses procuradores, os pagamentos violaram as leis federais de campanha porque os valores ultrapassaram, em muito, o máximo permitido a um indivíduo e serviram para poupar o candidato Donald Trump a possíveis consequências negativas perante os eleitores.

As admissões de Cohen

Apesar de os media norte-americanos terem noticiado o possível negócio em Moscovo em 2017, foi só a partir de Abril de 2018 – com um raide do FBI ao escritório de Michael Cohen – que se começou a saber a dimensão do envolvimento de Donald Trump.

No mês passado, Michael Cohen admitiu em tribunal que mentiu na declaração que enviou ao Congresso em Setembro de 2017 – e disse que as conversações com vista à construção de uma Trump Tower em Moscovo foram acompanhadas de perto por Donald Trump e prolongaram-se, pelo menos, até ao Verão de 2016, quando já se sabia que Trump seria o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.

No dia em que Cohen disse ter mentido ao Congresso, o Presidente Trump acusou-o de apenas querer escapar com uma sentença leve, e voltou a sugerir que não assinou qualquer carta de intenções para um projecto na Rússia.

"Em Janeiro, a Fox noticiou uma carta que ele [Michael Cohen] assinou, e que fala especificamente sobre esse negócio. Eu nem sequer me lembro disso", disse Trump numa conversa com jornalistas antes de partir para a cimeira do G20, em Buenos Aires.

As negociações para a construção de um projecto imobiliário em Moscovo são um dos vários temas em foco nas investigações do procurador especial Robert Mueller.

O objectivo é perceber se Trump estaria a prometer uma aproximação à Rússia, através de declarações públicas favoráveis ao Presidente Vladimir Putin e outras acções, para garantir a entrada das suas empresas em Moscovo.

O facto de um candidato à presidência dos EUA ter projectos de negócios na Rússia não é um crime em si, mas os investigadores estão a tentar perceber o que levou Donald Trump e o seu advogado, entre muitas outras pessoas, a desmentirem a existência desses contactos durante tanto tempo.

Ainda no domingo, o actual advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani, disse que o actual Presidente não assinou nenhum documento sobre o negócio. "Era um projecto imobiliário. Havia um acordo preliminar na calha, mas ninguém o assinou", disse Giuliani à CNN.