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Os jovens são as sementes das organizações

Os jovens devem ser vistos como sementes que devem ser injectadas no solo organizacional. As empresas precisam dessas sementes para criar renovação a partir de novos conceitos como no caso das tecnologias de informação.

Nos últimos anos muitas foram as vozes que se ergueram da penumbra para dizer que a crise e as políticas de austeridade foram os processos castradores do progresso económico saudável das empresas nacionais. A verdade é que só nos apercebemos de um apêndice quando somos confrontados com a dor de uma apendicite. Ou seja, é fácil direccionarmos as culpas para as políticas de intervenção e esquecemo-nos sempre do papel das políticas de prevenção e da gestão antecipada dos acontecimentos.

Sei que a crise parece agora a bruma de uma realidade distante, mas a verdade é que foi protagonista na educação de muitos jovens, que escolheram ser activos perante a adversidade. Tal como o velho ditado diz, “em tempo de crise, uns choram enquanto outros vendem lenços”. No entanto, esta actividade parece impotente perante o actual quadro sombrio da empregabilidade para os jovens a nível nacional.

Podemos dissertar imensos fenómenos que potenciaram o desenvolvimento deste problema. Assim, ainda é manifesto o sabor agreste dos efeitos do downsizing, como resposta imediata das empresas nacionais face à crise. Por outro lado, temos recentemente o efeito das empresas híbridas, que abandonam a produção no nosso país, mantendo apenas a administração em órbita nacional, movendo os sectores produtivos para países como a República Checa e a Roménia, devido aos preços apelativos da mão-de-obra. Por aqui já dá para perceber que o nosso solo ainda não é propriamente fértil para a empregabilidade juvenil.

Pior do que um terreno pouco fértil, é um terreno totalmente estéril, sendo essa a maior ameaça que corremos no nosso estado social e na actual cultura organizacional. Além destes factores, a ausência de aposta na juventude é uma realidade e a desistência geral da juventude no plano nacional é uma inevitável consequência.

Os jovens devem ser vistos como sementes que devem ser injectadas no solo organizacional. O solo organizacional precisa dessas sementes para criar renovação a partir de novos conceitos como no caso das tecnologias de informação. Contudo, essas sementes parecem subaproveitadas em esfera nacional e adubadas noutros solos internacionais.

A aposta na juventude não visa desfavorecer profissionalmente as outras gerações, mais velhas e mais sábias. De outro modo, a ideia é gerar uma díade de comunicação e transmissão de conhecimento entre as duas gerações. Uma organização, para servir e sobreviver, necessita de um clima homeostático entre as saídas e entradas de novos colaboradores. De forma a que esse procedimento seja efectuado, é necessário que quem entra (jovens) aprenda com quem está (os sábios), sendo este ciclo vital para a cultura e sucesso organizacional. Esse procedimento, não só rejuvenesce, como ressuscita também a empresa, porque com o sangue fresco vêm os novos nutrientes (ou seja, o know how sobre novos recursos que podem ser explorados). A verdade é que se este ciclo não é aproveitado, a própria empresa entra em crise e a sua sobrevivência torna-se débil.

Hoje em dia este ciclo é posto em causa, visto que os jovens não estabilizam mais do que um par de anos num trabalho. Adicionalmente, segundo dados do INE, os jovens recebem menos e a taxa de desemprego está para 1 em cada 5. Nos dados não entram por vezes os contratos precários e os acertos por baixo da mesa. Não existem políticas pragmáticas e incentivo à afirmação do jovem. O arrendamento habitacional dedica-se cada vez mais ao turismo, os bolseiros não podem ganhar calo profissional com vista a perder a bolsa estatal (que já por si só é escassa). Num Portugal atrasado, que sonha com a indústria 4.0, não se divulgam estratégias de aprendizagem profissional como o job shadowing e o CEO mentoring. Contudo, o pior está na estabilização de prioridades do Estado. Por cá, o actual Governo decide transverter a situação e criar uma aposta que visa aliciar talentos estrangeiros através do programa Startup Visa, em vez de criar planos para a prata da casa.

Resumindo, antes de enfrentarmos os desafios da indústria 4.0, convém enfrentarmos os problemas que realmente nos assombram.