Nuno Ferreira Monteiro

António Arroio à espera que as obras não morram na praia

A escola está sem uma biblioteca, um bar ou um refeitório há quase oito anos. Enquanto as obras não avançam, os alunos comem no chão por falta de espaço ou a comida fria porque as filas para os microondas são demasiado longas. Está aberto um concurso para a conclusão das obras. Resta saber se há interessados.

O dia soalheiro ajuda a que à entrada da Escola Artística António Arroio se juntem uns quantos alunos, ora a conversar, ora com um bloco de papel cavalinho no colo a desenhar. Mal se entra nas instalações da escola, há uma venda de Natal com peças em cerâmica feitas pelos alunos. Esta é hoje uma das maiores escolas secundárias do país, com cerca de 1270 alunos, 220 professores, e das únicas com um currículo voltado às artes. Mas não é preciso percorrer muitos metros da escola para perceber que nem tudo está bem para aqueles alunos que respiram arte: não têm um bar nem um refeitório onde possam almoçar ou lanchar, por isso, de tupperware na mão acabam por fazê-lo nos bancos exteriores ou nas mesas que estão — improvisadamente — colocadas no interior, mas que se esgotam rapidamente. 

Sorte de Iara Carlos, Cláudia Venceslau e Joana Marques — são elas quem o dizem — que arranjaram mesa. “Hoje conseguimos arranjar mesa porque saímos às 13h30. Mas às vezes temos de almoçar no chão e não aqueço o meu almoço porque são filas imensas e não estou para estar à espera. Nós comemos no chão muitas vezes e isso é uma enorme falta de higiene”, diz Joana.

Esta escola de Lisboa foi uma das intervencionadas no programa Parque Escolar, responsável pela reabilitação de escolas secundárias públicas. A empreitada começou em Junho de 2009, com um projecto de modernização orçado em 20 milhões de euros. Mas nem tudo ficou pronto.

“Acaba por ser chato não termos refeitório e as obras estarem inacabadas porque não podemos usufruir dos espaços. Há pessoas que andaram aqui e que nunca viram a escola acabar. Há pessoas que virão e não vão ver a escola acabada nem usufruir do refeitório que é uma coisa essencial numa escola”, lamenta Iara, que, tal como as colegas, é aluna do 11º ano do curso de Ourivesaria.

A biblioteca também é muito pequena. “Para nós fazermos alguns trabalhos precisamos do computador e depois os computadores não dão para todas as pessoas. Os livros que estão disponíveis são muito poucos. Alguns, diz Joana, ainda estão encaixotados por não haver espaço onde os meter. 

Falta pouco, muito pouco para que as obras, paradas há seis anos, terminem. “É como morrer na praia”, diz o director da escola, Rui Madeira. O edifício concluído em 2011 está totalmente dedicado à função lectiva. É onde ficam as salas, as oficinas onde decorrem as aulas. Só que ainda faltam equipamentos e materiais. E a climatização não funciona, o que agora, em pleno Inverno, faz com que as salas pareçam frigoríficos. 

Neste complexo, que depois de pronto terá cerca de 23 mil metros quadrados com projecto do arquitecto Aires Mateus — que ali foi aluno — há ainda outro edifício. Que hoje é apenas um esqueleto rodeado de entulho que o empreiteiro deixou para trás quando parou a obra, há seis anos. E que precisa agora de quase quatro milhões para a sua conclusão. Esse edifício será, de resto, a maior marca de Aires Mateus naquela escola, diz Rui Madeira, enquanto faz uma visita guiada por este estaleiro onde sobram vidros, ferros, calhas eléctricas, lajes de ardósia partida, sacos de cimento e estuque e onde alerta para o risco de se espetar algum prego no pé. 

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É ali que deverá nascer a biblioteca da escola que hoje ocupa uma sala de geometria onde cabem não mais de 20 alunos. O bar e o refeitório também ficarão ali, assim como o auditório e galerias de arte, museu e zonas de lazer.

Depois dos anos em que os alunos tiveram aulas em contentores, esta escola ainda parece andar a duas velocidades. As salas de aulas repletas de Macintosh — há cerca de 600, diz o director — contrastam com o abandono e a degradação do lado de fora. 

Enquanto se esperam pelas obras, o bar e o refeitório estão num pequeno contentor, instalado naquele que seria um pátio da escola, onde se servem quase 1300 alunos. Quando o PÚBLICO lá esteve, parte do monobloco estava vedado porque chove lá dentro. 

“Incomoda-nos imenso porque ano após ano, após ano, os alunos aquecem a comida no microondas e muitas vezes estão a comer lá fora”, reconhece Rui Madeira, que dirige a escola desde Junho de 2013.

Comida fria

Na hora de almoço, pouco depois do meio-dia, formam-se longas filas para os microondas. Há sete para mais de um milhar de alunos, se bem que nem todos saem para almoçar ao mesmo tempo. “Já pensamos em pôr mais microondas mas rebenta com a luz”, diz o director. 

No provisório — quase já definitivo — bar instalado num contentor, as refeições chegam de outras escolas e são servidas em cuvetes. As exposições improvisam-se no foyer da escola.

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“Nós vamos utilizando o edifício, pese embora alguns equipamentos não tenham chegado e sido instalados, como o sistema de detecção de incêndio e também está comprometida alguma parte de segurança”, nota Rui Madeira, que também foi ali estudante de Cerâmica na década de 80. As oficinas de carpintaria, por exemplo, onde se faz o corte e preparação de madeiras precisa de um sistema de aspiração que remova as poeiras. E isso ainda não está a funcionar, alerta. 

João Ribeiro que ali dá aulas há 25 anos, já depois de ter sido aluno, diz que além das obras, falta ainda muito do equipamento que foi pedido. “Tudo isto foi reciclado da escola antiga. Não temos os kits de iluminação nova”, diz o professor de cinema num dos três estúdios que a escola tem. 

Aos poucos, diz o director, a escola foi assumindo alguns encargos com materiais e equipamentos que originalmente estavam no caderno de encargos da empreitada. “Eu acho que o Estado, num determinado momento, abandonou por completo a ideia de concluir a escola. E acham que aquele edifício já é muito bom”, diz. 

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Na parte que está concluída, há zonas a precisarem novamente de obras como o ginásio onde são visíveis infiltrações, além de que o espaço não tem condições para acolher quem tem mobilidade reduzida. Assim como é difícil o acesso de uma ambulância ao espaço.

Xavier Lousada, presidente da Associação de Estudantes, diz que essa parte da escola foi acabada “à pressa”. O tecto desse ginásio é o chão do parque de estacionamento da escola. Há dois anos, quando estava no primeiro ano do curso de Design de Comunicação, as infiltrações no tecto fizeram com que deixassem de ter aulas de Educação Física durante três meses, contou. 

A par dos constrangimentos em termos de materiais e do estaleiro de obras no recreio, esta é uma escola onde se sente também muito a falta de assistentes operacionais. “As escolas estão moribundas de pessoal. Eu tenho 23 assistentes operacionais, muitas já a atingir a idade da reforma. Quando isto estiver concluído, dá 1000 metros quadrados por cada uma para limpar, para vigiar”, afirma o director. 

Segundo Rui Madeira, há uma equipa de engenharia e arquitectura que costuma andar por ali a fazer levantamentos do estado da obra. O PÚBLICO pediu esclarecimentos ao Ministério da Educação, mas a tutela apenas disse que estava, neste momento, a decorrer o prazo para apresentação de propostas para a empreitada da António Arroio. E remeteu mais explicações para uma portaria publicada em Diário da República a 21 de Novembro.

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A construtora que ganhou o último concurso desistiu e foi recentemente lançado um novo para a intervenção. As obras para terminar escola deverão custar cerca de 3,8 milhões de euros (1,7 milhões em 2019 e 2,1 milhões em 2020). Estes valores podem não ser atractivos para o mercado actual e receia-se que o concurso fique deserto ou o novo empreiteiro volte a desistir. É como um “ciclo vicioso”, diz Xavier, que se prolonga há seis anos. 

Uma escola “ocupa”

Neste momento, a escola é “terra de ninguém”, atira Rui Madeira. Não paga qualquer renda à Parque Escolar porque o edifício não foi formalmente entregue. “É quase como se fossemos uns ‘ocupas’”, brinca Rui Madeira.

Apesar da degradação de parte do complexo escolar, o director diz que os alunos não correm perigo. “Eu acho que há aqui um bocado de celeuma sem necessidade. O perigo está na necessidade de fazermos uma evacuação rápida do edifício e nunca termos tentado”, diz. Falta fazer um simulacro que, depois das obras, nunca se fez. “Também é perigoso se for preciso evacuar o edifício. As portas dão para um estaleiro de obra”.

Os vizinhos também se queixam. De cada vez que há mexidas no entulho, há bichos que vão para os quintais ao lado. Como uma parte do recinto ainda está vedada com tapumes, há pessoas que costumam saltá-los e entrar no espaço da obra. 

Apesar dos pesares, esta é uma escola, sublinha o seu director, reconhecida pelo ensino de qualidade nas artes, algo que rareia no país. E que, por isso, atrai muitos alunos de fora da cidade. Exemplo disso é Cláudia, que sai todos os dias do Seixal e demora todos os dias 1h30 — “na melhor das hipóteses” — no trajecto diário. 

Muitos dos alunos, quando saem da escola, acabam por ir estudar para o estrangeiro. “No ano passado e neste, acho que nunca assinei tantas cartas de recomendação para eles se candidatarem”, nota Rui Madeira. E diz também que nunca teve um processo disciplinar. 

Ali, apesar de muitos alunos prosseguirem os estudos, há uma componente prática que também lhes permite estarem aptos para entrarem no mercado de trabalho, dizem os professores. A fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego, por exemplo, tem quase uma dezena de alunos da António Arroio a trabalhar lá. 

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Esta escola assume ainda grande importância na comunidade. São parceiros da câmara de Lisboa no BIP/ZIP, do Centro Cultural de Belém, da Companhia Nacional de Bailado.

Por tudo isto, o facto de as obras nunca mais serem concluídas impede que a escola ofereça mais à comunidade. Não consegue, por exemplo, ter aulas nocturnas ou desenvolver Cursos Técnicos Superiores Profissionais. “A escola, depois de concluída, vai ter um potencial imenso”, aponta Rui Madeira.

A 30 de Novembro, mais de 300 alunos e professores da António Arroio manifestaram-se em frente à Assembleia da República em protesto contra a degradação da escola e a paragem das obras. À semelhança do que por vezes fazem na escola, os alunos almoçaram sentados no chão, em frente à escadaria principal do Parlamento. E Xavier Lousada vai avisando que as reivindicações não vão parar por aqui: “Não vamos adormecer à sombra da bananeira”.