Por trabalhar no Irão, matemático vê artigo aceite e a seguir recusado para publicação

Situação indignou a comunidade matemática a nível mundial, incluindo os portugueses Jorge Buescu e José Ferreira Alves.

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Trajectória do sistema de Lorenz (conhecido pelo célebre efeito de borboleta), o assunto com que se relaciona o artigo de matemática Wikimol

Uma conceituada revista de matemática começou por aceitar publicar um artigo científico e, depois, voltou atrás invocando a existência de sanções internacionais porque um dos seus autores trabalha no Irão. O caso circulou entre os matemáticos de todo o mundo, através de entidades como a Sociedade Europeia de Matemática e a União Matemática Internacional, que o divulgaram publicamente, e o seu relato chegou-nos pela voz do matemático português Jorge Buescu. Entretanto, depois desta movimentação internacional de denúncia do caso, a revista voltou agora novamente atrás – e comunicou aos seus autores que, afinal, o artigo sempre seria publicado.

Contemos então o caso. O matemático em questão é Abbas Fakhari, da Universidade Shahid Beheshti, em Teerão. Escreveu esse artigo em conjunto com o seu conterrâneo Mohammad Soufi, que trabalha no Brasil, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

PÚBLICO -
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O matemático Abbas Fakhari

Num email difundido como carta aberta, Abbas Fakhari conta que tinha enviado o artigo de matemática para publicação na revista Dynamical Systems, em Dezembro de 2016. E que, ao fim de dois anos e de revisões do artigo, a revista aceitou em Novembro último publicá-lo – o que aconteceu online já este mês.

Mas a 7 de Dezembro, o grupo editorial que publica a revista, a Taylor & Francis, informou-o de que, afinal, não iria publicar o artigo na edição em papel devido às sanções económicas existentes contra o Irão. “No cumprimento de leis e regulamentos aplicados pelo Reino Unido, Estados Unidos, União Europeia e Nações Unidas em relação a países sujeitos a restrições comerciais, não nos é possível publicar nenhum manuscrito da autoria de investigadores que trabalhem num país sujeito a sanções (neste caso no Irão) nos casos em que as restrições se apliquem”, diz a mensagem recebida por Abbas Fakhari. “Na sequência do processo de verificação interna”, continua o email do grupo editorial, o manuscrito em questão “foi identificado como estando abrangido por essa categoria”.

Por isso, não seria publicado na edição em papel. Mas já tinha sido publicado online e o acesso continua a ser possível. “Como autor deste artigo, acho isto totalmente imoral. A politização das editoras em geral, embora incorrecta na minha opinião, sempre foi clara. Depois de dois anos? Porquê depois da aceitação final [da publicação do artigo]”, considerou Abbas Fakhari na sua carta aberta.

“Uma afronta ao processo científico”

Para Jorge Buescu, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a razão invocada pelo grupo editorial é “absurda”. “O que está a suceder é uma afronta ao processo científico. A liberdade das instituições de investigação e dos cientistas é absolutamente necessária para o progresso da ciência e, mesmo, para a construção de uma sociedade cada vez mais aberta”, sublinha Jorge Buescu. “Depois do artigo aceite, a publicação pela revista foi alegadamente recusada pelas alegadas sanções. No entanto, num gesto de suprema hipocrisia, a Taylor & Francis publicou o artigo online, contrariando as sua próprias sanções.”

Abbas Fakhari é, segundo Jorge Buescu, um matemático bem estabelecido: tem 19 publicações em revistas internacionais na sua área de especialidade, publicando com os maiores especialistas de sistemas dinâmicos, como o luso-brasileiro Marcelo Viana.

Mohammad Soufi, o outro autor do artigo, fez o doutoramento na Universidade do Porto em 2012, orientado pelo matemático José Ferreira Alves. “É uma decisão que não é de modo nenhum científica, é burocrática. Parece-me que houve algum excesso de zelo do representante do grupo editorial”, comenta ao PÚBLICO José Ferreira Alves, sublinhando que o artigo já tinha passado por todo o processo de avaliação científica (com avaliadores externos à revista), que foi favorável à publicação.

Quando recebeu no sábado o email difundido por Abbas Fakhari, que aliás o convidou para ir a uma conferência ao Irão em Janeiro do próximo ano, José Ferreira Alves manifestou a sua incredulidade junto de alguns elementos do corpo editorial científico da revista e perguntou-lhes se estavam ao corrente da situação. “Dois responderam-me a dizer que a situação era absurda e que iam averiguar com os editores-chefes”, adianta este matemático (dizendo ainda que, depois do Porto, Mohammad Soufi esteve na Universidade de Lisboa a fazer um pós-doutoramento e em seguida foi para o Brasil).

Entretanto, a denúncia internacional do caso levou a revista a rever a situação, pedindo desculpa aos autores do artigo. Por isso, o caso resume-se agora assim: o artigo foi aceite para publicação, depois foi recusado (por um dos autores trabalhar no Irão) e voltou a ser aceite (depois dos protestos da comunidade científica).

Quanto ao conteúdo do artigo envolto na controvérsia, na área de sistemas dinâmicos, Jorge Buescu explica: “O assunto é, de resto, muito interessante, tratando de problemas relacionados com o famoso atractor de Lorenz, conhecido pelo célebre ‘efeito borboleta’”.