Editorial

A revolução francesa do século XXI

O Partido Socialista Europeu reuniu-se este fim-de-semana em Lisboa, com António Costa como anfitrião e vencedor - afinal, conseguiu não só não destruir o PS como até aumentar as esperanças nas próximas legislativas, depois de em 2015 ter ficado atrás da coligação PSD/CDS. 

Em reuniões do passado, aparecia também um senhor chamado François Hollande, que ganhou a presidência de França em 2012, debaixo de um vendaval de expectativas depois de derrotar Nicolas Sarkozy - infelizmente para ele e para os socialistas europeus, elas saíram todas goradas. 

Depois da implosão do socialismo francês, apareceu Emmanuel Macron, jovem e belo e capaz de mobilizar as tropas descontentes com os "políticos do sistema". Perante a imagem politicamente envelhecida de Hollande, Macron - que fez parte do governo PSF sem ter sido salpicado pela desgraça - era a luz. A criação do movimento En Marche, quando ainda fazia parte do governo, galvanizou eleitores descontentes com o sistema. Sendo obviamente um homem do sistema, Macron era a coisa mais moderna, desembaraçada e anti-sistema para uma França onde os socialistas agonizavam e Marine Le Pen se impunha como uma líder de massas. 

Mas o dia de glória, como assinala um verso da Marselhesa, não tinha chegado com a eleição de Macron. Há um mal-estar complexo que atravessa a Europa (e as Américas) e para o qual as forças políticas tradicionais não estão a encontrar resposta. Esse mal-estar é tão difuso como os coletes amarelos, uma multidão sem rei nem direcção. A classe média está esgotada e não tem porta-vozes. Em Itália, a implosão do sistema começou mais cedo, com Berlusconni. Salvini é a continuação do mesmo filme. 

Se o anteriormente fabuloso Macron sair derrotado da revolução francesa dos coletes amarelos, abre-se a caixa de Pandora que até agora os franceses tinham conseguido travar: a ascensão de Marine Le Pen ao poder. Infelizmente, a caixa parece já razoavelmente aberta. E não há um socialista francês que possa aparecer na reunião do Partido Socialista Europeu com um programa para travar a emergência da extrema-direita no coração da Europa. E essa falência socialista é um dos problemas mais graves do continente. 

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