Exodus Aveiro Fest: andamos todos atrás do que tem significado na vida

Yann Arthus-Bertrand foi aplaudido de pé no fim do festival Exodus. Mas não foi o único. Timothy Allen resumiu numa frase o espírito do encontro: na viagem que fazem pela vida, os homens não procuram a felicidade, apenas. Procuram ter um significado. “Meaningful” foi a palavra que ficou a martelar na cabeça de todos. O Exodus veio para ficar em Aveiro. Para o ano há mais.

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O documentário que Céline Cousteau fez com a comunidade javari estreia-se em 2019 Céline Cousteau

Yann Arthus-Bertrand anda há vários anos a tentar chamar a atenção do mundo. Ficou conhecido no início dos anos 1990, quando se especializou em fotografia aérea, a mostrar o mundo visto de cima, muito lá de cima, exactamente daquela altitude em que a imagem que contemplamos é tão gráfica quanto surpreendente, quanto bonita. Mostrava, já aí, o que o planeta estava a mudar. Não se falava, ainda, de alterações climáticas. Mas falava-se, já, de crescimento sustentável. E o mundo apaixonou-se pelo coração desenhado a manguezais captado no meio do Oceano Pacífico, numa lha da Nova Caledónia. É preciso amar o planeta, pois.

Arthus-Bertrand sabe que o mundo já o ouviu chamar, sabe que tudo o que ele, enquanto fotógrafo, realizador e activista (e outros, muitos outros, antes, depois e ao mesmo tempo que ele) andam a tentar dizer ao mundo já foi lido, ouvido, visionado pela parte do mundo que precisa de mudar de atitude e mudar de discurso. Mas não tem adiantado. Hoje as alterações climáticas entram pelas casas dentro (e não apenas pelas fotografias nas páginas de uma revista ou de um programa de televisão) e não tem havido suficientes agentes de mudança. Os recursos estão cada vez mais escassos, os desequilíbrios ainda mais acentuados.

“Quando eu nasci éramos dois mil milhões de seres humanos. Hoje somos 7,5 mil milhões”, recorda. Não adianta saber que há problema, ter ouvido falar. O que adianta é tentar mudar alguma coisa. “Temos de acreditar naquilo que conhecemos”, diz . Arthus-Bertrand tem 72 anos e ainda não baixou os braços. Continua a acreditar que é possível mudar o mundo - já não apenas com fotografias bonitas, mas sempre com o amor pelo planeta e pela diversidade. Depois de Home e Humanos, o próximo documentário, chama-se Woman e estreia-se em 2019. “O amor vai mudar o mundo. O amor e as mulheres”, termina o jornalista francês.

Yann Arthus-Bertrand foi aplaudido de pé no final da apresentação que fez na cerimónia de entrega do prémio Personalidade Exodus 2018, entregue pelas mãos de Pedro Neto, director da Aministia Internacional Portugal. Não foi o único a ser aplaudido de pé - já outros oradores antes dele o tinham sido num muito intenso fim-de-semana que lotou o Centro de Congressos de Aveiro para a segunda edição do National Geographic Exodus Aveiro Fest. Sinal do impacto que causaram numa plateia onde não pontuavam apenas fotógrafos e videógrafos - havia muitos “candidatos a”, que no final das apresentações perguntavam como é que se conseguia vender trabalhos, ou se era importante tirar um curso na área - mas onde todos e todas se podem considerar viajantes. 

Afinal, explicava Timothy Allen, autor da premiada série Human Planet, da BBC, que documentou como o ser humano se conseguiu adaptar aos elementos mais hostis da natureza, e vive, e sobrevive, em lugares remotos, “todos somos viajantes, está no gene humano, todos queremos ir mais além, espreitar atrás da esquina. Por isso, as migrações humanas chegaram a sítios tão inóspitos”. Não poderão ser todos viajantes e aventureiros como Jody MacDonald, que passou dez anos da sua vida a bordo de um catamarã em grandes travessias pelo oceano - e a enjoar todos os dias. Nem como Mike Libecki, explorador compulsivo, ou Keith Ladzinski, que o acompanhou em expedições para a National Geographic aos picos da Antárctida, por exemplo, mas também documentou o impacto das alterações climáticas nos Parques Naturais norte-americanos. [Notícia: em 30% da área do Parque Nacional Joshua Tree já não nascem destes novos cactos gigantes há 30 anos]. 

Mas, afinal, todos se podem inspirar pela perseverança de fotógrafos como o português Eduardo Leal, que documentou a revolução bolivariana na Venezuela e a travessia no poder de Maduro para jornais de todo o mundo, evidenciou a forma como as mulheres indígenas da Bolívia estão a combater a discriminação que até então sofriam, e mostrou como no Altiplano boliviano os sacos de plástico voadores já ficam agarrados aos arbustos alterando definitivamente a paisagem. E todos se podem enternecer e admirar a tenacidade de Matthieu Paley, um fotógrafo especialmente comprometido com as questões do ambiente e da diminuição de culturas, e que em 2017 recebeu um dos prémios do World Press Photo. Paley, francês, acaba de se instalar em Portugal com a família, depois de sete anos na Turquia, ponto de partida para várias expedições à Ásia Central. E quem o ouviu não poderá esquecer como foi uma espécie de pombo-correio entre famílias separadas por montanhas e desertos, fazendo por elas as travessias mais inóspitas.

PÚBLICO -
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Eduardo Leal

Também ninguém ficou indiferente a Céline Cousteau e com a luta que elegeu travar. Ou que foi compelida a fazê-lo, quando recebeu, em 2010, um email de representantes da população javari, na selva amazónica brasileira, a pedir-lhes para ela se tornar a voz deles - o filme, Tribes on the Edge, também se estreia para o ano. 

Céline, que podia viver dos louros do avô (afinal, toda a gente acha que ela passa a vida enfiada no mar, ou com um barrete vermelho na cabeça), escolheu lutar por essa causa amazónica. Levou ao Exodus uma reflexão sobre os conflitos emocionais que enfrenta, os desafios diários que abraça, o esforço que (não) faz para nunca se esquecer que em cada cinco vezes que respira, uma das vezes fá-lo graças à floresta amazónica que é responsável por 20% do ar puro do planeta. E que está a ser, cada vez mais, ameaçada. 

No final do encontro, Timothy Allen fez o resumo que faltava. Na viagem que fazem pela vida, os homens não procuram a felicidade, apenas. Procuram ter um significado. “Meaningful” foi a palavra que ficou a martelar na cabeça de todos. E todos podem procurar ter significado, em pequenas e grandes acções individuais. Todos os dias.