Ajudas do Estado aos media? Não, obrigado

Há jornais e grupos que podem desaparecer? Há, claro. Mas o jornalismo, como sempre, viverá. De preferência com a cabeça erguida, sem favores e sem esmolas.

Costuma dizer-se por aí que o jornalismo está em crise. O jornalismo não está em crise coisíssima nenhuma. Nunca, na História da humanidade, se leram tantas notícias, e nunca, desde que o mundo é mundo, nós fomos cidadãos tão informados. Aquilo que está em crise é o modelo de negócio da comunicação social, o que é uma coisa completamente diferente. Embora muitos jornalistas gostem de confundir a crise no seu bolso com a crise na actividade que praticam, não faz sentido misturar as duas coisas. O advento da música digital virou a indústria discográfica do avesso, mas a música não entrou em crise — pelo contrário, a sua diversidade e a facilidade de acesso à edição aumentaram exponencialmente. E, com o tempo, foram nascendo novos negócios altamente rentáveis, cujo caso mais óbvio é o Spotify, mas onde também podemos incluir a explosão de festivais, que são formas alternativas ao disco de rentabilizar o mesmo produto.

O jornalismo não é diferente. Quer dizer: é evidente que o jornalismo tem um papel distinto da música na nossa sociedade, mas, tal como a música, o jornalismo responde a uma necessidade básica do ser humano — estar informado. Ele só estará em crise quando as pessoas não quiserem saber de notícias, e eu não conheço ninguém que prefira ignorar totalmente o que se passa à sua volta. Dir-se-á: mas como é que pode haver jornalismo se os meios que o produzem não conseguem rentabilizar a sua produção? Aí há duas soluções. Uma é ir bater à porta do Estado a chorar muito e a pedinchar subsídios (uma especialidade portuguesa). A outra é encontrar novos modos de produzir jornalismo e procurar modelos de negócios mais versáteis e imaginativos do que os actuais. A indústria discográfica não morreu. Adaptou-se. A indústria do jornalismo tem de fazer o mesmo.

Claro que para isso não bastam os jornalistas. Um dos grandes equívocos da crise na comunicação social é achar-se que compete aos jornalistas resolver todos os problemas dos meios onde trabalham. Na verdade, a primeira responsabilidade é dos gestores desses meios — porque o problema não está no jornalismo, mas no seu modelo de negócio. Infelizmente, como a comunicação social dá pouco dinheiro, os melhores gestores não costumam andar por lá, ou, mesmo que andem, não lhe dedicam o tempo necessário. Daí que o problema da comunicação social seja, em boa parte, um problema de atenção e de criatividade, para que se encontrem formas alternativas de rentabilizar um produto que as pessoas consomem avidamente.

Mas se são precisas mais e melhores ideias, aquilo que definitivamente não é preciso é a esmola estatal, com o contra-poder a pedir ao poder que o ajude a sustentar-se. Mal comparado, é como se o cão de guarda fosse diariamente alimentado pelo ladrão que é suposto vigiar. Não costuma resultar com cães, e também não irá resultar com jornalistas. Portanto, fico muito sensibilizado que o presidente da República se preocupe com a comunicação social, mas não há nenhum “problema democrático”, e muito menos se deseja um “acordo de regime” para salvar os jornais por parte de quem deve ser escrutinado por eles.

Nos últimos anos surgiu o Observador, surgiu o Eco, e ainda recentemente surgiu o projecto de fact-checking Polígrafo, pelos vistos com êxito assinalável. Para um meio que deveria estar morto, é um cadáver bastante mexido. Há jornais e grupos que podem desaparecer? Há, claro. Mas o jornalismo, como sempre, viverá. De preferência com a cabeça erguida, sem favores e sem esmolas.