Ferramentas de pedra indicam que os nossos antepassados chegaram mais cedo ao Norte de África

Uma investigação na Argélia ao longo dos últimos 20 anos mostra que, afinal, os hominíneos se expandiram para o Norte de África quase meio milhão de anos antes do que se pensava.

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Bloco de pedra (fracturado para obter lascas) encontrado no sítio arqueológico de Ain Boucherit na região de Ain Hanech, na Argélia Mohamed Sahnouni
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osso de bovídeo com marcas de corte encontrado no sítio arqueológico de Ain Boucherit na região de Ain Hanech, na Argélia Isabel Cáceres

Se antes se pensava que a África Oriental seria um dos berços da humanidade, artefactos com 2,4 milhões de anos encontrados recentemente na Argélia vieram mostrar que, na verdade, todo o continente africano o poderá ter sido.

É já sabido que os hominíneos – nossos antepassados depois da separação do ramo dos chimpanzés, há cerca de oito milhões de anos – usavam ferramentas de pedra para retirar a carne dos animais dos quais se alimentavam. Em 2015, foram descobertas as primeiras ferramentas pré-humanas com 3,3 milhões de anos no Quénia (400 mil anos antes do aparecimento dos primeiros membros do género Homo). Até esse momento, o recorde de antiguidade de ferramentas de pedra pertencia a descobertas em Gona, na Etiópia, com cerca de 2,6 milhões de anos.

São ferramentas do tipo olduvaiense, cujo nome remonta à descoberta, na década de 1930, de instrumentos líticos no desfiladeiro de Olduvai, na Tanzânia, pelo paleoantropólogo Louis Leakey. Estas ferramentas rudimentares, com arestas afiadas, eram usadas para esquartejar as carcaças de animais. Tais instrumentos implicam a fractura de um bloco de pedra (o núcleo) com outra pedra (o percutor), donde saíam as lascas que eram também usadas como ferramentas.

Agora, uma nova descoberta de mais de 230 ferramentas de pedra da tecnologia olduvaiense, com aproximadamente 1,9 e 2,4 milhões de anos, na Argélia vem levantar um pouco mais o véu sobre a expansão dos hominíneos em África e as técnicas que eles usavam.

Ao longo das últimas duas décadas, uma equipa internacional de cientistas levou a cabo uma investigação nos depósitos arqueológicos de Ain Boucherit (nas proximidades de Ain Hanech), na Argélia. Lá encontraram núcleos de pedra, assim como lascas (entre 30 e 58 milímetros) e alguns instrumentos esferóides – cuja função ainda não se sabe ao certo – que terão sido usados pelos hominíneos.

Estas ferramentas são maioritariamente feitas de pedra calcária e sílex (uma rocha também conhecida como pederneira), materiais encontrados junto aos leitos dos rios mais próximos. Porém, os conjuntos de ferramentas de pedra que já tinham sido encontrados na África Oriental (Etiópia, Quénia e Tanzânia) e os recentemente descobertos no Norte de África apresentam algumas diferenças, o que sugere algumas diferenças relacionadas com o tipo e a qualidade das matérias-primas usadas.

Estas escavações ao longo dos últimos 20 anos levaram à descoberta de uma grande quantidade de instrumentos líticos e fósseis de animais em Ain Boucherit. O que permitiu, de acordo com os paleoantropólogos, inferir sobre “como os hominíneos matavam, mutilavam e esquartejavam as carcaças de animais”.

A mesma equipa de cientistas tinha já descoberto, há cerca de uma década, artefactos semelhantes em Ain Hanech com cerca de 1,8 milhões de anos. Mas através da análise dos sedimentos e de uma comparação com fósseis de mamíferos, como porcos, elefantes e cavalos, também encontrados naquela região, chegaram à conclusão de que os mais antigos instrumentos agora descobertos têm cerca de 2,4 milhões de anos. O que sugere que os hominíneos se expandiram para o Norte de África quase meio milhão de anos mais cedo do que se pensava.

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O arqueólogo Mohamed Sahnouni a escavar no sítio arqueológico de Ain Boucherit na região de Ain Hanech, na Argélia M. Sahnouni

Além dos instrumentos, a equipa liderada pelo especialista em tecnologia pré-histórica Mohamed Sahnouni, do Centro Nacional de Investigação sobre a Evolução Humana (Espanha), encontrou também fósseis de animais com marcas de corte, muitas delas estreitas e em forma de “v”, e alguns com provas de terem sido percutidos com martelo. Estes ossos correspondem essencialmente a membros superiores e inferiores, ossos axiais (nomeadamente costelas) e do crânio de bovídeos e equídeos de tamanho pequeno ou médio.

Os resultados do estudo, publicado esta sexta-feira na revista Science, sugerem que os antepassados da nossa espécie (Homo sapiens) já recorriam a práticas como o esfolamento, a evisceração e a descarnação para extrair a carne e medula óssea de animais.

“O uso efectivo de ferramentas de pedra para corte, afiadas como facas, sugere que os nossos antepassados não se limitavam a apanhar carcaças de animais. Não está claro se, nesta altura, eles caçavam ou não, mas as provas mostram claramente que competiam com sucesso com outros carnívoros por carne e gostavam de ser os primeiros a ter acesso às carcaças de animais”, sublinha em comunicado a tafonomista Isabel Cáceres, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (Espanha), que participou na investigação.

Os paleoantropólogos explicam que durante muito tempo a África Oriental foi considerada o local de origem dos primeiros hominíneos e dos instrumentos líticos, com as descobertas de ferramentas de pedra em Olduvai por Louis Leakey. Houve ainda Lucy, o famoso esqueleto de uma fêmea de australopiteco com 3,2 milhões de anos, encontrado na Etiópia em 1974, e outras descobertas arqueológicas na África do Sul. O que deixou, segundo os autores do artigo na Science, o Norte de África à margem no que diz respeito ao que se sabia sobre a evolução e expansão dos hominíneos, até agora.

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Escavação na região de Ain Hanech, na Argélia M. Sahnouni

A principal conclusão é que os hominíneos no Norte de África produziam ferramentas de pedra quase contemporâneas daquelas produzidas há 2,6 milhões de anos na África Oriental. Dizem ainda os autores que esta investigação, levada a cabo por uma equipa internacional e multidisciplinar (com especialistas de Espanha, Argélia, EUA, Austrália, França e Itália), resultou numa das maiores amostras de ferramentas de pedra de sempre provenientes de escavações num único local, o que dá força aos resultados.

Mohamed Sahnouni, principal autor do estudo, explica em comunicado que “a arqueologia de Ain Boucherit, que é tecnologicamente semelhante à de Gona e Olduvai, mostra que os nossos antepassados se aventuraram por todos os cantos de África, não apenas na África Oriental”, acrescentando: “As provas [provenientes] da Argélia mudaram a visão que se tinha antes sobre a África Oriental ser o berço da humanidade. Na verdade, toda a África foi o berço da humanidade”.

Segue-se um enigma

Ainda não foram, porém, descobertos fósseis de hominíneos naquela região que coincidam com a idade das ferramentas de pedra lá encontradas. Sileshi Semaw, co-autor do estudo, avança com uma teoria: “Os hominíneos que são contemporâneos de Lucy estavam provavelmente a percorrer o [deserto do] Sara, e os seus descendentes podem ter sido responsáveis por deixar as assinaturas arqueológicas agora descobertas na Argélia, datadas de cerca de 2,4 milhões de anos, que são próximas das da África Oriental”. Porém, a natureza inóspita do deserto do Sara dificulta os estudos naquele local.

Apesar de uma “considerável distância geográfica da África Oriental”, as hipóteses passam ainda por uma rápida dispersão desta técnica de fabrico de ferramentas de pedra para outras regiões do continente ou, em alternativa, por um cenário de origem múltipla da técnica e seu uso tanto no Leste como no Norte de África.

No futuro, a investigação passa por procurar instrumentos líticos semelhantes noutras regiões do continente africano. E passa ainda por encontrar fósseis de hominíneos do Mioceno (até há cinco milhões de anos), do Plioceno (entre cinco e dois milhões de anos) e do Pleistoceno (entre 2,5 milhões e 11,7 mil anos) em busca dos fabricantes destas ferramentas ou até mais antigas.

Resta agora para os especialistas uma grande questão: afinal, quem construiu estas ferramentas?

Texto editado por Teresa Firmino