Crítica

O corpo do som (e outros enigmas do mundo)

Parece que o Mundo, a nova peça de Clara Andermatt, em co-criação com João Lucas, envolve-nos num maravilhamento, numa sucessão de sentidos em aberto.

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RUI GAUDÊNCIO

O título da nova peça de Clara Andermatt coloca-nos desde logo em certa disposição anímica: percepções suspensas e deambulações mentais sobre a existência são os territórios para onde Parece que o Mundo nos leva de viagem. Diante de cortinas escuras a pender em semicírculo num intenso contraluz com o luminoso fundo do palco, quatro figuras de toucas na cabeça e fatos de banho discretamente coloridos evoluem para a boca de cena, numa sucessão de poses, como banhistas retro a rastejar de bruços mirando em redor em atitudes de focas atónitas; escutamos o som amplificado dos seus corpos a roçar uma areia imaginária e, ténue, o das vagas a nascer e a morrer na praia. Do corpo de uma mulher que abraça e tange as cordas de um contrabaixo, solta-se um cântico gutural que parece sair-lhe das entranhas, quase se confundindo com o instrumento que acolhe com o ventre; quando um homem expõe o rosto de olhos semicerrados a um clarão de luz, é na nossa própria pele que experimentamos o langor cálido do sol a penetrar. Silhuetas oscilantes fazem-nos acreditar em folhas secas a rodopiar ao sabor imprevisível de uma brisa.

É sobretudo através de um mergulho sensorial nos elementos do mundo natural, na experiência física de estar vivo, e nas cogitações existenciais, poéticas ou metafísicas que tais percepções suscitam no humano, que se percebe que o último livro que Italo Calvino (1923-1985) publicou em vida, Palomar, foi o gatilho desta criação. Livro que, na verdade, se quis diluir na peça. Dele restam, talvez, a própria performatividade do texto – estrutura modular, de breves contos –, a alusão à personagem do Sr. Palomar (a discreta mas omnipresente presença em cena do homem que observa), e imagens alusivas à sua meditação ficcional.

Nesta primeira verdadeira co-criação da coreógrafa com o músico-compositor João Lucas, o principal traço de identidade está na conexão intrínseca entre movimento e som, na liberdade despudorada com que um invade o território do outro: Andermatt (n. 1963) e João Lucas (n. 1964), parceiros criativos desde os primórdios da Nova Dança, apostam, nesta sua 14.ª colaboração, num entrosamento orgânico entre quatro bailarinos, três músicos, um violino, um violoncelo e um contrabaixo (que se transformam de objectos em sujeitos performativos). Fusões sensuais entre corpos e instrumentos a dissipar funções convencionais de uns e outros são um desenvolvimento, que nos traz imagens e memórias, de experiências criativas da dupla em Uma História da Dúvida (1998), Dan Dau (1999) ou Void (2009).

Mas há em cena outro personagem: os sons electrónicos espacializados (Jonas Runa) constroem patamares discursivos subliminares, qual dança auditiva e cenografia invisível, essenciais a esta viagem. 

A cópula das tartarugas, no seu bizarro jeito lento e pesado ao som de Can’t help falling in love (Elvis Presley), traz-nos de volta o humor irónico de Andermatt. Ao distinguir figuras humanas soerguidas por entre o fumo, somos guiados, quiçá, ao flagelo incompreensível dos incêndios, qual rebelião desordenada da natureza contra a civilização.

Parece que o Mundo envolve-nos num maravilhamento, numa sucessão de sentidos em aberto. À medida que se encaminha para o final, porém, a peça parece perder algum do seu fôlego inventivo, e resquícios algo literais (como a alusão aos baixos relevos pré-colombianos) fazem certo contrapeso à prossecução do seu magnífico voo livre sobre os enigmas do mundo.