Uma morna portuguesa

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"Void" é o regresso de Clara Andermatt a Cabo Verde, dez anos depois. O retrato da viagem autobiográfica de dois africanos que, através dela, vivem em Portugal há dez anos.

Foram muitos anos a trabalhar Cabo Verde, mas, entretanto, passaram-se também já muitos anos, muitos mais do que à partida parece, desde a última vez que a bailarina e coreógrafa Clara Andermatt tocou no tema. Na verdade, passou-se toda uma década.

Quando em 1994 entrou de mergulho no projecto Dançar Cabo Verde, com o também bailarino e coreógrafo Paulo Ribeiro, Andermatt tinha criado a sua própria companhia de dança havia apenas três anos. Uma aventura a que se seguiram projectos de continuação e desenvolvimento de projecto como "Anomalias Magnéticas" (1995), "Uma História da Dúvida" (1997) e o concerto encenado "Dan Dau" (1999), com a sua inesperada digressão norte-americana. Entretanto houve trabalhos de outro tipo: "neatnet" (2000) e "O Canto do Cisne" (2004) para o agora extinto Ballet Gulbenkian, "Natural" (2005), criado com intérpretes de mais de 60 anos para a Sadler's Wells Company of Elders, e "Levanta os Braços como Antes mas para o Céu" (2005), um projecto de dança inclusiva para o Grupo Dançando com a Diferença, "O Grito do Peixe" (2005), com crianças, e "Meu Céu" (2008), um espectáculo de rua. "Void", a peça com que Andermatt participa agora na Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, surge, assim, como uma espécie de regresso ao futuro.

É uma peça mais intimista do que as anteriores, em grande parte baseada nas experiências autobiográficas dos seus dois intérpretes e co-autores.

De repente, poderão fazer lembrar Didi e Gogo, a dupla de "À Espera de Godot", com as suas divagações e sentido de humor quebrado, o seu mundo nunca completamente em pé. Mas não. No início eles apresentam-se com os seus próprios nomes: Avelino Chantre e Sócrates Napoleão. Ambos fazem parte do grupo de colaboradores das primeiras peças africanas de Andermatt que acabaram por ficar a viver em Portugal. Aquilo de que tratam em "Void" é, precisamente, a experiência de uma década passada cá, com os encontros, desencontros e embates entre duas culturas. A palavra saudade, naturalmente, a pairar por perto.

Porventura mais marcada ou assumidamente teatral do que qualquer das anteriores produções de Andermatt do mesmo tipo, "Void" cruza, contudo, como é hábito, texto, música e movimento. Tem a ver também com uma cultura que a coreógrafa acabou por integrar parcelarmente como sua. "Foram muitos anos de trabalho. Metade dos intérpretes com quem trabalhei em 1994 acabaram por ficar cá. Acabámos por criar uma relação de amizade. Há coisas que adquiri, que ficaram minhas", diz Andermatt. "Void" é também constatar "que todos estamos mais crescidos".