Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

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O meu filho tem más notas, e agora?

Está na altura de assumirmos que nem todas as crianças têm de atingir os objectivos académicos que os pais consideram nobres e válidos. Há mais na vida.

Quando os nossos educandos têm um rendimento escolar abaixo do esperado, é frequente que entremos em ansiedade. Colocamo-los num centro de explicações e esperamos que tudo se resolva, mas o problema poderá não ser escolar.

Para os pais de agora já não é desconhecido que as regras mudaram. A gramática está repleta de novas terminologias, o inglês tornou-se essencial desde cedo, mas a matemática continua a ser ensinada como algo difícil de entender.

Sou professora num centro de estudos, onde lido com crianças de todos os ciclos de ensino. Sou interessada pela educação, tanto a que vem de casa como a quem vem da escola e dos centros de estudos.

Na minha experiência como explicadora já encontrei crianças com dificuldades e muita vontade de aprender, mas também já encontrei alunos que estavam em explicações obrigados. Tudo o que queriam era jogar futebol, acham que o inglês não serve para nada. O ensino não deve ser castigo, deve ser tratado como fulcral. Aprender não é castigo, é dever e deve ser alimentado como prazer para a edificação de uma pessoa. Tento ser a explicadora de que cada criança precisa, esforçando-me para me adaptar às dificuldades e capacidades de cada aluno por quem passo. Há, no entanto, algo em falta que vem de fora das disciplinas da escola e do nosso apoio no centro de estudos. Falo das capacidades para o funcionamento independente e bem-criado e para o caminho em direcção à idade adulta.

A educação é demasiado orientada para as notas e a média. Não há grande preocupação no caminho que cada criança trilha para se tornar num adulto independente e funcional. Como pais e educadores, estamos demasiado preocupados com o “Suf” que tem de ser um “Muito Bom” ou o 10 que devia ser um 15 e a menosprezar o dever de estarmos a criar pessoas, não apenas estudantes. Onde está o ensino para a motivação, tão útil para o estudo e para a vida? O ensino para entender o valor do conhecimento? O ensino para definir objectivos e para os cumprir? Como explicadora, eu tento fazê-lo no pouco tempo que tenho com os vossos filhos.

O trabalho que faço é uma paixão. A cada nota que sobe dou os parabéns ao aluno com um brilho nos olhos e saio do trabalho de enorme sorriso e sensação de dever cumprido. Mas isto nem sempre acontece. Às vezes a nota não sobe, mas não vejo isso como um fracasso, é apenas um percalço, mais um obstáculo a contornar, e no próximo teste será melhor, depende do empenho do aluno nas explicações, em casa e na escola. Eu, como qualquer professor ou explicador dedicado, alimento a sede de conhecimento.

Está, contudo, na altura de assumirmos que nem todas as crianças têm de atingir os objectivos académicos que os pais consideram nobres e válidos. Há mais na vida. Não podemos ser todos advogados ou médicos, e os nossos filhos não nasceram para serem complementos de quem somos e dos sonhos que não pudemos atingir. Queremos o melhor para os nossos filhos, mas está na altura de pensarmos para além das notas e aceitarmos os sonhos dos nossos filhos — com a noção quem não serão todos o próximo craque da bola. Há que enaltecer os cursos técnicos, que com a sua aposta na prática preparam os jovens para as profissões que virão a desempenhar. Profissões como serralheiro, técnico de turismo ou de recolha de lixo são tão nobres e necessárias quanto quaisquer outras e existe mais procura para essas profissões do que saídas para muitos cursos superiores, incluindo aquele em que ingressei.

A faculdade hoje em dia não é tão necessária como fomos levados a crer. Há um número elevado de licenciados, mestres, doutorados desempregados. Por vezes, quanto maior é o grau atingido, menor é a empregabilidade, e temos de admitir que um canudo não faz de ninguém superior a quem quer que seja.

Os nossos jovens, adultos “para ser”, passam mais tempo na escola e em actividades de tempos livres, que enriquecem qualquer jovem com aquisição de novas capacidades. É verdade que os pais não conseguem dar o apoio que centros de estudo e explicações oferecem e que nesses sítios há profissionais motivados a incentivar as crianças a lutar e evoluir no seu percurso escolar. Creio, no entanto, que estamos a falhar em algo como sociedade: aquele tipo de educação que devia vir de casa.

O valor de uma pessoa não reside nas suas notas, nem no curso que tirou, mas sim na sua índole, na sua empatia, na cidadania e em todas as capacidades de que um humano necessita. Porque não adoptamos a educação para a idade adulta nas escolas? Ensinarmos a ser-se ético, poupar dinheiro e a gastá-lo conscientemente sem faltar a responsabilidades. A tratar de assuntos relacionados com os mais variados serviços públicos, construir um currículo, preencher o IRS, arrendar uma casa, comprar um carro. Até mesmo em coisas que parecem óbvias mas são esquecidas: cozinhar, fazer a manutenção básica de uma casa, em alguns casos até higiene. Nem todas as crianças têm uma estrutura saudável em casa que os ensina este tipo de capacidades.

O meu filho tem más notas, e agora?

Encaminhe-o para explicações, mas também para ser responsável pelos seus actos, entender o valor da aprendizagem, não para este ano lectivo, mas para o futuro no ensino e na vida. Apelo a que, não nos esquecendo da formação académica e do valor das notas, apostemos mais em educar. Em criarmos adultos informados, preparados, honestos e correctos. Talvez assim, o nosso futuro, o das crianças que o são, seja mais brilhante.