A matemática não é só contar carneiros e outras histórias de divulgação científica

Carlos Fiolhais fundou o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra que assinala esta sexta-feira dez anos a fazer chegar a ciência a vários públicos, de crianças do ensino básico a universidades seniores.

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Carlos Fiolhais e Inês Guimarães André Rodrigues
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Carlos Fiolhais e Inês Guimarães André Rodrigues
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Inês Guimarães e o seu livro André Rodrigues
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Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Inês Guimarães no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Inês Guimarães no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Exposição sobre a vida do Nobel da Física norte-americano, Richard Feynman André Rodrigues
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Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues
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Inês Guimarães no Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra André Rodrigues

Carlos Fiolhais começou a percorrer escolas para divulgar ciência em 1983. Inês Guimarães iniciou-se nesse papel em 2015, embora noutro registo. Mudam-se os tempos, mudam-se os meios técnicos. A jovem de 20 anos que está no terceiro ano de Matemática na Universidade do Porto chega a uma audiência de milhares a partir do YouTube. O seu canal, MathGurl, em que aborda desafios e curiosidades matemáticas, conta com 65 mil subscritores. O que, não entrando no campeonato dos milhões de seguidores dos youtubers mais populares, já é um número significativo quando o assunto é o “papão da matemática”.

Carlos Fiolhais, físico e professor universitário que fundou e dirige o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra e que na quarta-feira recebeu a jovem para uma palestra, completa: “O papão é aquilo que está no escuro, que desconhecemos. O que ela faz é ligar a luz para mostrar que não há papão.”

PÚBLICO -
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Carlos Fiolhais e Inês Guimarães: o físico há muitos anos a fazer divulgação, a estudante de matemática a começar agora André Rodrigues

A “habilidade” de Inês Guimarães, afirma o físico “é dizer com aquela linguagem as coisas que diz, ou seja, comunicar expressões que eu era incapaz de usar, que surgiram depois de eu ter andado na escola como o ‘super’ e o ‘bué’”. E isso ajuda a atingir um público mais vasto e a desmistificar a ideia de que a matemática “é só contar carneiros”. Pelo contrário. “É a arte de pensar bem, sem erros”, refere Fiolhais, que de seguida interpela a jovem:
– Por que é que foi para Matemática?
– Tive um professor meio maluco no sétimo ano, fui sempre muito motivada por professores. Depois comecei a participar nas Olimpíadas da Matemática e gostei muito da vertente dos desafios.
– De puxar pela cabeça? Teve uma prata nas Olimpíadas da Matemática...
– Sim. Mas nunca fui às Olimpíadas Internacionais, nem nada.
– E esteve num concurso, que já não me lembrava, chamado FameLab, para apresentar ciência em três minutos. Eu tenho sido jurado desse concurso. Não lhe demos um prémio?
– Não.
– Erro nosso. Não contem a ninguém que eu não lhe dei um prémio. É como aqueles olheiros... Não vi. Eu não sou bom no audiovisual. Segundo falhanço: Rogério Martins, que apresenta o “Isto É Matemática”, perdeu um desses concursos. Não perdoo a mim próprio – remata bem-disposto.

Inês Guimarães não guarda ressentimento. Em conversa com o PÚBLICO, conta que começou em 2015 por uma página de divulgação matemática da sua escola secundária. “Mas só eu é que escrevia lá. Punha curiosidades de matemática e histórias de matemáticos. Sempre gostei muito de comunicar e achava que a matemática tinha coisas super interessantes que, se as apresentasse às pessoas de uma forma diferente e mais divertida, elas também gostariam.” Daí passou para o YouTube, onde o processo de crescimento foi inicialmente lento. 

O primeiro salto deu-se com a partilha de um vídeo do seu canal por um professor brasileiro que faz os seus próprios vídeos sobre matemática e os publica naquela plataforma. Ainda hoje, cerca de 70% dos 65 mil subscritores da MathGurl são brasileiros. Na distribuição etária, a faixa dos 25 aos 34 anos é a mais representativa, sendo que depois vem a dos 18 aos 24. “Quando faço aqueles vídeos, não estou à espera de ser vista por pessoas mais velhas”, afirma, explicando que vai variando em formatos e graus de dificuldade dos desafios, ao mesmo tempo que tenta abordar assuntos que não exijam grandes bases prévias. E prossegue: “É difícil puxar pessoas mais novas para a matemática. Mas, pronto, uma pessoa tenta.” Nessa tentativa, lançou recentemente o livro Desafios Matemáticos que te Vão Enlouquecer (Manuscrito Editora, 2018) e vai seguir-se um programa de televisão na RTP.

Um público variado

A audiência da palestra com o tema “A matemática é um superpoder” que a estudante foi dar a Coimbra na quarta-feira dá uma ideia da variedade do público do Rómulo – Centro Ciência Viva, um espaço que começou a actividade há dez anos, no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. De crianças do ensino básico a universidades seniores, o público-alvo do centro não é restrito a uma faixa etária, explica Carlos Fiolhais, enquanto enumera os nomes que já por ali passaram para falar de ciência, da astrobióloga Zita Martins ao teólogo e poeta Tolentino Mendonça.

O centro abriu portas a 24 de Novembro de 2008, o Dia Nacional da Cultura Científica e Tecnológica (que se comemora este próximo sábado), com o apoio do então ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago. Teve origem num princípio de biblioteca científica e hoje é uma plataforma de difusão de ciência. A biblioteca, distribuída por duas salas e um arquivo, conta com cerca de 30 mil itens de acesso livre, onde se incluem as doações da família de Rómulo de Carvalho, o professor, pedagogo e poeta que empresta o nome ao centro.

Os assuntos são variados, desde que relacionados com a ciência. “Basta o autor ter uma profissão de base científica e nós achamos interessante”, exemplifica Fiolhais. “Está aqui o Jorge de Sena, que era engenheiro civil e pouca gente sabe. Está também o Lobo Antunes, que toda a gente sabe que é médico.” Se o acervo físico vai crescendo com as doações constantes, o arquivo digital também aumenta, com o projecto Rómulo Digital a permitir a digitalização recente de cerca de quatro mil documentos. 

Depois de mostrar a biblioteca, enquanto vai contando a história do centro, o professor universitário vai percorrendo o corredor do Departamento de Física, onde está agora instalada uma exposição sobre a vida do Nobel da Física norte-americano, Richard Feynman. Uma das portas dá para o laboratório. Mais recentemente, o centro Rómulo iniciou um protocolo com a Câmara Municipal de Cantanhede para que as crianças do quarto ano de ensino no concelho passem cinco dias “numa imersão completa na universidade”.

Nessa sala, as crianças fazem actividades experimentais, mas também vão ao centro de neurociências, ao Museu Nacional Machado de Castro e comem na cantina universitária. “Aos nove anos, tem de ser uma experiência marcante”, afirma. “Não vou ensinar a teoria quântica do Feynman, mas pelo menos estão em ambiente universitário”, graceja. 

Desde 1991, ano em que Carlos Fiolhais lançou o livro Física Divertida (Gradiva), que vendeu mais de 20 mil exemplares e foi traduzido em várias línguas, que continuou a publicar vários outros livros e se tem empenhado na divulgação científica. Fez de tudo, “excepto vídeos no YouTube”, ironiza (na verdade, até isso já fez).

Não gosta de falar de uma nova geração de divulgadores de ciência. “A Inês sabe comunicar para o tempo de hoje e nisso é extraordinária. É o meio conjugado com a juventude.” E completa: “Há sempre novas gerações e a ciência precisa disso porque é uma construção permanente e uma transmissão permanente à sociedade.”