Uma Lisboa politicamente correcta para os índios yaavitam

Se viessem de férias a Lisboa, os descendentes dos índios yaavitam, os nativos da Baixa de LA, teriam pouco que ver numa cidade politicamente correcta.

É uma pena ver uma americana como Hilda Solis — primeira mulher hispânica do Senado da Califórnia, primeira mulher a receber o prémio John Kennedy Perfil de Coragem, primeira secretária do Trabalho hispânica — picada pelo mosquito do politicamente correcto.

Custava menos se fosse uma pulha egoísta. Mas lê-se o currículo e percebe-se que Hilda Solis sempre lutou pelos mais pobres, tal como os seus pais, emigrantes da Nicarágua e do México, já tinham feito.

Foi ela a autora da moção apresentada ao comité de supervisores do condado de Los Angeles que substituiu o Dia de Cristóvão Colombo por Dia dos Povos Indígenas, que, esta semana, resultou no derrube da estátua de Colombo que estava há 45 anos no Grand Park, na Baixa da cidade.

O comunicado de Solis vai directo para os anais do politicamente correcto: “A estátua de Cristóvão Colombo reescreve um capítulo manchado da História que romantiza a expansão dos impérios europeus e a exploração de recursos naturais e seres humanos. Minimizar — ou pior, ignorar — a dor dos habitantes originais de Los Angeles é prestar um mau serviço à verdade. A remoção da estátua de Colombo do Grand Park é um acto de reparação da justiça que honra e reconhece o espírito resiliente dos habitantes originais do nosso condado. Com a remoção, começamos um novo capítulo da nossa História, em que aprendemos com os erros do passado.” Outro “vereador”, Mitch O’Farrell, reforçou a ideia: a intenção foi “eliminar a narrativa falsa de que Colombo descobriu a América” e foi “um descobridor benigno” e, assim, fazer desaparecer “alguém que cometeu atrocidades e ajudou a iniciar o maior genocídio alguma vez registado na História”.

Não vale a pena discutir os ideais de “recomeçar a História” ou se aprendemos com os erros do passado. Muitos menos se Colombo “descobriu a América”. Numa bela entrevista feita pelo José Riço Direitinho aqui no PÚBLICO, Onésimo Teotónio Almeida diz que “descobrir não significa criar, inventar. Quando a Polícia descobre o criminoso, não o inventa. Os portugueses descobriram o caminho marítimo para a Índia, ninguém diz que descobriram a Índia. São ‘Descobrimentos’ do ponto de vista europeu. Haja um pouco de senso”.

Dizer que os Descobrimentos foram o “fascínio com o novo”, como diz o professor Onésimo, não é dizer tudo. Mas é absurdo ignorar que a descoberta do caminho marítimo para a Índia também foi procurar a resposta à pergunta “como é que se vai por esse mar abaixo?”. Com Colombo não terá sido muito diferente.

Como este debate é um caminho de minas, proponho apenas um passeio por Lisboa com os óculos de Hilda Solis e Mitch O’Farrell. Teríamos de modernizar o Padrão dos Descobrimentos. As esculturas de Leopoldo de Almeida são especiais, mas glorificam 33 portugueses (e um ou outro estrangeiro) de currículo duvidoso, desde D. Henrique, que vai à proa todo vaidoso, a Luís de Camões, João de Barros, Fernão Mendes Pinto e Nuno Gonçalves, que mais não fizeram do que enaltecer o regime. Para não falar de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Fernão de Magalhães. Falando em Fernões, a estátua de Fernão Lopes no jardim da Biblioteca Nacional também teria de ser substituída por alguém sem vínculos ao velho modo de pensar das velhas monarquias — foi “escrivão da puridade” do infante D. Fernando e é hoje sabido que, de puro, D. Fernando tinha pouco. Esqueçam o que dele disse António Lobo Antunes.

— Quem é que escreve bem em português? — perguntou-lhe a Isabel Lucas.
— Fernão Lopes. Cada vez que leio, acho aquilo novo. “Olhai, olhai bem, mas vede...”

Pelo caminho — isso vai dar trabalho — é preciso limpar as marcas da Igreja Católica. Seria útil oferecer a Hilda Solis a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, de Alexandre Herculano, onde ele conta a “festa digna de canibais” que houve em Lisboa, em 1497, num baptismo colectivo de milhares de judeus, e descreve os gritos das mães ao pé das fogueiras no Terreiro do Paço, onde hoje os meus filhos andam de trotinete com os amigos. Apagada a estátua de D. José, tire-se a seguir a do Marquês de Pombal. As razões são óbvias. Só mais uma sugestão: quando destruírem o Mosteiro dos Jerónimos, subam à Avenida da Torre de Belém e tirem a nova estátua de Nuno Álvares Pereira, que ainda por cima não é bonita.

Se viessem de férias a Lisboa, os descendentes dos índios yaavitam, os nativos da Baixa de LA, teriam pouco que ver. Mas tinham uma cidade politicamente correcta.