Da oposição à esfera do poder. O Bloco de Esquerda ainda é o mesmo?

A Convenção do Bloco acontece quando se aproxima um ano de eleições e quando passam três anos sobre a assinatura do acordo com o PS. Nunca antes, o partido tinha estado tão perto do poder. E isso mudou-o: deu-lhe mais maturidade, exigências e ponderação

A 10 de Novembro de 2015, Catarina Martins e António Costa assinavam o acordo
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A 10 de Novembro de 2015, Catarina Martins e António Costa assinavam o acordo Jorge Ferreira

Quando chegou ao Parlamento, em 1999, o Bloco de Esquerda armou logo um falatório. Os deputados então eleitos, Francisco Louçã e Luís Fazenda, recusaram os lugares que lhes tinham sido destinados e exigiram que fossem na primeira fila, na extrema-esquerda do plenário. Sem a reivindicação atendida, porque o PCP não queria ceder as cadeiras, os bloquistas ficaram de pé. À data, o PÚBLICO escrevia que a atitude foi motivo de conversas nos corredores da Assembleia da República e que os novos deputados já “eram criticados” pela “arrogância”.

Quase 20 anos depois, com altos e baixos pelo caminho, já não há apenas dois deputados bloquistas, mas 19, e as tensões com o PCP já não se devem a lugares, mas a negociações com o executivo para desenhar orçamentos do Estado. Os dois partidos deixaram de estar confinados à oposição: em 2015, BE e PCP assinaram acordos bilaterais com um executivo minoritário do PS, para reposição de rendimentos, e garantiram uma maioria de esquerda no Parlamento. Passaram a fazer parte de uma solução inédita de Governo.

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Francisco Louçã, Miguel Portas e Fernando Rosas: o início do Bloco DR

Os bloquistas também já não estão de pé no hemiciclo, mas a marca de rebeldia ficou-lhes colada. Será que perdura ou foi-se apagando com a proximidade ao poder? De que forma a participação na chamada “geringonça” transformou o partido?

Francisco Louçã, que esteve na fundação do BE, não tem dúvidas: “Alterou métodos de trabalho, criou uma agenda mais intensa, ampliou a audiência, criou novos canais de diálogo político”, diz ao PÚBLICO, antes da XI Convenção Nacional do partido, marcada para este fim-de-semana, na qual a direcção apresentará uma moção em que se lê que, “em 2019, o Bloco quer ser força de governo, com uma nova relação de forças”. Uma convenção que acontece quando passam precisamente três anos sobre a assinatura do acordo com o PS e quando se aproxima um ano de várias eleições, incluindo legislativas.

“A moção segue a estratégia anterior, mas em condições de melhor relação de forças. Como o PS não conseguirá maioria absoluta e o Bloco pode reforçar-se nas eleições, ficará em condições de batalhar por medidas de fundo para a redução da desigualdade e a reforma estrutural do Serviço Nacional de Saúde, por exemplo”, diz Louçã, confiante na coordenadora Catarina Martins, “das pessoas mais bem preparadas na vida pública em Portugal, pois tem a característica mais essencial, é de confiança”.

Outro dos fundadores, Fernando Rosas, também não se mostra surpreendido com a pretensão inscrita na moção e defende que o BE deve admitir fazer parte de um governo de esquerda: “Se, por via dos resultados eleitorais, uma nova correlação de forças estabelecer novas possibilidades de alargamento, a possibilidade de ir para o governo deve admitir-se.” Caso a expectativa não se cumpra, haverá sempre caminho pela frente: “Se houver condições para que aquilo que é a nossa visão fundamental sobre as coisas ser compatível com a ida para o Governo, muito bem, se não a luta continua”, resume Fernando Rosas.

Um adolescente e o BE

Embora não tenha feito um percurso linear, o BE acabou por conseguir afirmar-se no cenário político português e, hoje em dia, diz o deputado bloquista José Soeiro, já não é só o que o poder fez ao BE, mas também o que o BE fez ao poder: “O BE também provocou uma grande mudança. Hoje é difícil e contra-intuitivo pensar o que seria a política portuguesa sem o BE.”

O percurso do deputado José Soeiro, 34 anos, mistura-se com o do partido. Era um adolescente de 15 anos quando foi com o pai – autor do símbolo do BE – a uma sessão de apresentação do partido, no Porto. Lembra-se do entusiasmo que sentiu: “Uma das coisas que me entusiasmou foi, em vez de aderir a um partido, fazer um partido novo. Lembro-me dessa sensação de que vai nascer uma coisa nova.”

A sala estava cheia de “pessoas da esquerda social que não estava organizada” e José Soeiro foi logo ali abordado por um jovem do então PSR para ir a um acampamento de jovens revolucionários, em França. Nesse Verão, Soeiro lá foi, levando depois o espírito revolucionário até à escola: participou em manifestações contra a revisão curricular, contra aulas de 90 minutos, pela educação sexual, organizou conversas. Uma foi sobre educação sexual e o facto de ter participado uma lésbica provocou um grande bruaá.

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Também protestou contra o facto de haver escadas só para professores, obrigando os alunos a dar uma grande volta para chegarem a algumas salas. “Queríamos que as duas escadas pudessem ser usadas por toda a gente”, diz. Sem sucesso.

Poucos anos depois, foi representar os estudantes do ensino secundário a um programa televisivo, no qual se debatia o que deveria ser a escola, e quem lá estava como ministro da Educação era Santos Silva, agora a tutelar os Negócios Estrangeiros. Nas voltas que mundo deu, o então estudante também passou a ser deputado e a participar em reuniões com o Governo, na área do trabalho e da segurança social.

“O BE hoje tem muito mais enraizamento social, é procurado por mais gente, o que nos obrigou a ter um conhecimento muito mais profundo sobre vários assuntos. Como estamos numa posição em que negociamos leis e orçamentos, temos de fazer propostas tecnicamente inatacáveis e politicamente certeiras”, explica José Soeiro. E acrescenta: “O BE hoje está muito mais preparado. É mais escrutinado, as pessoas são mais exigentes e temos mais capacidade de mudar.”

Do impossível ao real

O líder da bancada parlamentar, Pedro Filipe Soares – que já disputou a liderança do partido com Catarina Martins – vai mais longe na análise sobre o actual relacionamento com o poder e considera mesmo que o BE tem “mais consciência do significado de uma governação do país”: “Termos um programa eleitoral capaz de governar o país é uma proposta agora mais séria aos olhos das pessoas, porque percebem que temos mais protagonistas políticos capazes de o fazer, e que propostas, que foram consideradas impossíveis e irrealizáveis, passaram no crivo da realidade e estão aditivadas com o conhecimento que adquirimos ao longo dos três anos.”

A estes desafios impostos pela proximidade com o poder, Louçã acrescenta os cuidados: o partido tem agora de “medir de outra forma todas as consequências e todas as palavras. Um partido de oposição não é igual a um partido que tem um acordo com um governo”. Daí que o escrutínio seja também mais feroz, e “ainda bem”, diz Louçã: “Um erro é um erro. O que o Bloco não podia fazer depois da demissão de Robles era deixar de combater a especulação imobiliária e pela habitação. Que tenha reforçado a sua insistência nesses pontos é prova de maturidade e de capacidade ofensiva.”

Em causa, está a recente polémica que abalou o BE: a saída de Ricardo Robles da Câmara Municipal de Lisboa, depois de se ter sabido que o bloquista, crítico da especulação imobiliária e dos efeitos do alojamento local na habitação, tinha ele próprio investimentos imobiliários com os contornos que criticava. O antigo vereador não vai à convenção.

Apesar do safanão que o caso Robles provocou no partido, Louçã considera que as dores de crescimento do BE são outras: “ter de elevar os padrões de consistência técnica das suas propostas para o nível de um governo, mostrar competência e capacidade de diálogo, perceber o risco de ter muitas pessoas envolvidas em funções institucionais rotineiras, ter de ter mais organização social”. Fernando Rosas concorda: “[A solução de Governo] deu mais trabalho, mais sentido de responsabilidade, mais maturidade na abordagem das questões.”

Entre 1999 e 2018, o xadrez político em Portugal mudou. Mas, se em 1999, o BE era alvo de críticas nos corredores do Parlamento, em 2018 continua a mexer com os nervos de alguns. Pelo menos, essa é a visão de Fernando Rosas: “O BE irrita muita gente, sobretudo na direita. Quer na direita, direita, quer na direita do próprio PS, na medida em que corresponde a uma tendência em crescimento.”

O BE atingiu a maioridade e tem agora um poder que nunca teve antes. Manteve a identidade genética? Fernando Rosas, que esteve na fundação desse ADN, garante que sim: “Não há um desvio de identidade do BE, há é novos intérpretes.”