Nasceu o Polígrafo, um jornal para detectar mentiras

Projecto digital foi apresentado esta tarde na Web Summit e já está online. Promete focar-se na verificação dos factos de políticos, comentadores e influenciadores.

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Imagem da homepage do "Polígrafo" no dia do lançamento

Polígrafo é nome de máquina, de detector de mentiras e, a partir desta terça-feira, é também nome de um novo jornal digital português.

O mentor do jornal é Fernando Esteves, jornalista, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado e autor do livro sobre um recente livro que escreveu em torno da Operação Marquês, o mediático caso de justiça que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates. 

Esteves deixou a revista Sábado em Maio de 2017 para fundar o Polígrafo, um site de verificação de factos e de informações que circulam no espaço público, seja jornais, televisões, blogosfera ou redes sociais.

"Tudo o que seja informação relevante, produzida por protagonistas com peso na sociedade civil" será escrutinado pela equipa deste novo jornal, diz o mentor do projecto. "Imaginemos um debate na Assembleia da República e o primeiro ministro diz que nunca prometeu baixar os impostos. Isso é informação verificável. E quem diz primeiro-ministro, diz líderes partidários", exemplifica.

O resultado desta abordagem à actualidade centrada no fact checking será "uma maior pressão sobre as pessoas que intervêm no espaço público, sejam elas quem forem, mas em especial as pessoas que são eleitas para desempenhar cargos público", acredita Fernando Esteves. E isso terá outra consequência relevante: "elevar a qualidade do debate público".

"A primeira vez que alguém for apanhado no Parlamento com uma declaração falsa, essa pessoa e todas as outras irão pensar duas vezes antes de fazerem outra declaração porque sabem que há um jornal que só existe para verificar aquilo que eles dizem", argumenta o director do Polígrafo, que é um dos três sócios fundadores deste projecto.

Os outros dois são a produtora de audiovisuais B. Creative media, de João Paulo Vieira e Ricardo Fonseca, e o Emerald Group - uma empresa de consultoria financeira sediada no Dubai, que tem interesses nas mais diversas áreas, incluindo os media. Esteves é o accionista maioritário (50%), a produtora tem 20% do capital e o restante fica nas mãos do Emerald Group, que é de origem angolana, segundo Esteves, mas cujo negócio está muito fora de Angola.

Fernando Esteves acredita que o impacto desta verificação sistemática do discurso público se estenderá a outras pessoas, "sejam comentadores ou influenciadores". Mas recusa a ideia de que o jornal será um "polícia" do discurso, apontando para a experiências internacionais de jornais dedicados ao fact checking, em países como EUA, Brasil ou Reino Unido. 

O jornal terá uma equipa pequena, à semelhança dos congéneres internacionais, com uma dezena de profissionais, entre jornalistas, gestor de redes sociais e profissionais multimédia.

Além de três a quatro trabalhos diários, em texto e em vídeo, que nascem a partir de uma escolha jornalística dessa equipa, Fernando Esteves promete também responder a todo e qualquer cidadão que queira ver confirmada ou desmentida uma informação verificável e com relevância pública.

Para tal, o jornal disponibilizará um contacto WhatsApp e Telegram (uma app de mensagens semelhante ao WhatsApp mas menos popular em Portugal), através do qual qualquer pessoa poderá desafiar o jornal a fazer uma verificação.

Se o tema for considerado relevante, a resposta será trabalhada e enviada ao remetente da pergunta com 15 minutos de antecedência em relação à publicação online no jornal. Desse modo, salienta Fernando Esteves, trabalhará também uma relação de proximidade com os leitores - algo que os media de grande divulgação têm perdido, diz.

A ideia deste projecto nasceu há precisamente dois anos, quando Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA e o conceito de fake news (notícias falsas) ganhou relevância no espaço público. Esteves diz que a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência do Brasil - onde a disseminação de mentiras e a manipulação de informação ganhou expressão durante a campanha através de mensagens em redes sociais - é mais um caso que pôs em evidência a importância deste trabalho de verificação de factos.

"As pessoas não votaram em Bolsonaro por serem fascistas. Votaram nele porque não acreditam no sistema, deixaram de acreditar nos políticos porque acham que eles são corruptos e não cumprem as promessas. Deixaram também de acreditar na informação que lhes chega", argumenta. 

"O jornalismo está com um problema grave. As redacções estão mais vazias, com menos memória, com menos tempo para verificar o que se publica. Os media tradicionais são influenciados pelas redes sociais, onde encontramos uma coisa e o seu contrário. O Polígrafo nasce para fazer essa triagem, quero que seja uma espécie de Google da verdade."

A equipa redactorial contará com o apoio de uma rede de colaboradores e de especialistas de diferentes áreas para cruzar fontes e verificar a informação. Uma das características da equipa redactorial é que todos assinaram um papel em que se comprometem a não militar num partido. Esteves fez questão nisso, diz que nada tem "contra a militância partidária", mas entende que essa liberdade era essencial dada a natureza do projecto, que estará "muito exposto". "Não somos inimigos dos políticos, nem dos influenciadores nem dos comentadores. Somos amigos dos nossos leitores, mas ninguém trabalhará comigo sendo militante de um partido".

Esperançado com a possibilidade de estar a criar a primeira "comunidade de fact-checkers" em Portugal, Esteves bateu às portas das maiores fundações em Portugal para encontrar financiamento que sustente este jornal. Mas saiu de mãos vazias.

Ao contrário do que sucede no estrangeiro, não houve organização não-governamental que mostrasse disponibilidade para abrir os cordões à bolsa. O melhor que conseguiu foi fechar "acordos de partilha de inteligência" com fundações e ONG que dão ao jornal acesso a bases de dados, informações e especialistas de diferentes áreas.

Daí que, no início de 2018, Esteves percebeu que tinha de partir para um modelo comercial, em que a leitura é livre e gratuita e as receitas vêm da publicidade - para a qual estabeleceu um acordo com a Altice, que assumirá as funções comerciais. No futuro, terá também assinaturas e agora mesmo aceita doações de qualquer pessoa ou entidade, através da plataforma Patreon, em que o nome do doador e a quantia doada serão públicas.