“Jovens, do sexo masculino, cultos e urbanos”: assim são os não-crentes ou crentes sem religião em Portugal

Caracterização dos 14,2% dos portugueses que se dizem não-crentes ou crentes sem religião foi feita esta sexta-feira, no Porto, no colóquio “Identidades e Alteridades Religiosas em Portugal”.

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A crise não parece ter pesado na relação das pessoas com a religião Paulo Pimenta

Se exceptuarmos os católicos, a paisagem religiosa em Portugal surge fortemente marcada pelo grupo dos não-crentes e dos crentes sem religião: juntos perfazem 14,2% da população portuguesa, segundo o último levantamento conhecido e que data de 2011. E quem são estes não-crentes ou crentes sem religião? “São, em geral, mais jovens do que os católicos, do sexo masculino, cultos, urbanos e economicamente favorecidos”, caracterizou ontem Steffen Dix, do Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

“Quase 23% dos não-crentes ou dos crentes sem religião têm uma licenciatura e 31,1% são especialistas nas profissões intelectuais ou científicas e isso parece sustentar o argumento de que a Ciência pode substituir a religião”, acrescentou aquele investigador, durante a sua intervenção no colóquio Identidades e Alteridades Religiosas em Portugal, que decorreu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Sem querer arriscar demasiado quanto à reconfiguração da paisagem religiosa em Portugal, o investigador admitiu que, e porque “93% dos católicos já têm mais de 65 anos, poder-se-á admitir que este grupo vai diminuir e que vão surgir mais pessoas sem crença ou com crença mas sem religião”.

Por enquanto, continua válida a sondagem feita em 2011 sobre identidades religiosas em Portugal, patrocinada pela Conferência Episcopal Portuguesa e coordenada pelo sociólogo e antropólogo Alfredo Teixeira, que concluía que 79,5% dos portugueses se declaravam católicos, logo seguidos dos 14,2% que se declaravam não-crentes ou crentes sem religião. No resto do conjunto, destacavam-se os 5,6% que declararam pertencer a minorias religiosas.

Sem dados mais actuais, Steffen Dix admitia que, por causa da crise económica, a secularização, que pode ser entendida como o processo pelo qual a religião deixa de ser o elemento agregador da sociedade e as pessoas se afastam da Igreja, tivesse recuado algumas casas percentuais. “Há vários estudos que concluem que os países com altos níveis de segurança material tendem para a secularização”, justificou.

O contrário também seria expectável, isto é, mergulhadas em maiores apertos financeiros, as pessoas poderiam ter-se sentido tentadas a (re)aproximarem-se da religião. Porém, o último relatório divulgado há dias pelo Pew Research Center, um instituto independente de análise de dados, inquéritos e sondagens com sede em Washington, nos Estados Unidos, não apontou nesse sentido. Portugal surge, aliás, entre os 10 países, num conjunto de 34, onde mais pessoas apontam a religião como componente importante da identidade nacional: 83% dizem acreditar em Deus e os não-crentes ou crentes sem religião fixam-se nos 15%.

“Isto mostra que depois da crise os número se mantiveram praticamente iguais”, enfatizou o investigador para acrescentar um dado curioso: cerca de metade dos crentes e dos crentes sem religião (45,6% e 51,4%, respectivamente) baptizaram os filhos, ou seja, “mantiveram a tradição católica”.