Um documentário para falar da crise da habitação: a história de um “crime em curso”

Em que momento e por que razão as nossas casas se tornaram "produtos financeiros"? Num documentário-investigação, Fredrik Gertten mergulha num problema global que vai para lá da gentrificação. E muito para lá do capitalismo. Push estreia-se no próximo ano.

A conversa repetiu-se vezes sem conta. Em diferentes geografias, com distintos interlocutores. Ricos, classe média, pobres. Todos falavam a Fredrik Gertten da tristeza sentida por serem expulsos do local onde queriam viver. De cidades onde o mais importante já não eram as pessoas. De casas a preços incomportáveis. O realizador sueco, entusiasta de temas relacionados com cidades e qualidade de vida, começou a questionar-se: afinal, o que tinha tornado as nossas habitações tão caras? A gentrificação parecia-lhe parte ínfima da explicação: o problema, decreta em conversa telefónica com o P3, é “mais profundo do que isso”. As casas como produtos financeiros, locais de depósito de dinheiro, campos de um jogo financeiro sem espaço para a humanização. Em Push — o seu documentário-investigação com estreia prometida para o próximo ano e uma campanha de crowdfunding aberta até 28 de Novembro —, promete levantar o pano deste “crime em curso”. E deixar um estímulo à acção: “Este é um problema de todos.”

A dada altura, a sensação foi de um déjà-vu do seu último documentário, Bicicletas vs Carros. Se o trânsito — fenómeno que nos “rouba tempo” e deixa “toda a gente infeliz” — passou a ser encarado como “natural”, também a habitação (ou a falta dela) ganhou o mesmo estatuto. Mas este “é um problema criado por nós”, recorda Fredrik Gertten para logo colocar a voz em tom de apelo: “Temos de parar de falar disto como se fosse uma coisa natural.”

A falta de habitação em estado condigno e preço aceitável atingiu um “nível de loucura”. E essa conjuntura “está a deixar toda a gente doente”. Não é exagero, garante Gertten. “Obviamente há gente a ganhar com este modelo”, consente, mas se pensarmos bem, em algum momento a engrenagem atingirá também os privilegiados. “Mesmo que tenhas sorte, os teus amigos podem não ter. A loja da esquina, onde vais, pode não ter. O teu bar preferido pode não ter.” E se isto não chegar a alguns, o realizador recorda princípios básicos de convivência em sociedade:  “Mesmo que estejas feliz, outros não estarão.”

Com Leilani Farha, relatora da Organização das Nações Unidas sobre a habitação, como guia e fio condutor, Push recusa narrativas construídas e tantas vezes reiteradas. Se ano após ano pagamos mais pelas nossas casas (e as nossas casas são cada vez mais pequenas), a culpa não é apenas da inflação, da gentrificação, da urbanização. E o documentário promete prová-lo.

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O realizador sueco Fredrik Gertten DR

A teia tem “muito tempo”. Mas a crise financeira de 2008, e a cratera aberta pela falência do Lehman Brothers, é um “momento histórico”. Milhões de pessoas, um pouco por todo, perderam as suas casas. E o fosso cresceu: “É um sentimento estranho: nós temos cada vez menos dinheiro e as pessoas com posses têm mais dinheiro do que nunca”, opina. Fredrik Gertten acredita que foi nesse momento que o paradigma mudou: “Precisavam de locais para pôr o dinheiro e, na ausência deles, investiram em casas”.

Poderia não passar do “modelo clássico do capitalismo: comprar algo barato e vender caro”. O que mudou, diagnostica, foi fazer das casas um abrigo desse “excesso de capital global”. Dessa forma, algo inédito aconteceu: “Significa que alguém em Lisboa, no Porto, em Estocolmo ou Vancouver pode ter o dono da sua casa em São Francisco ou na Coreia. Não sabemos. Os donos das casas são neste momento produtos financeiros. É um modelo muito complicado.” Por outras palavras: o imobiliário passou a ser tratado como um produto financeiro que é transacionado [securities] e pode ir parar às mãos de fundos com milhares de investidores, em busca de um lucro fácil.

Em Harlem, Nova Iorque, a equipa de Fredrik encontrou um homem que gasta 90% do salário no seu apartamento: um T2, comprado por um fundo privado de investimento, custará, em breve, 3600 dólares. Em Barcelona, conheceu a família Ahmed que, tal como Ana Barbosa no Porto, resiste num prédio onde todos os vizinhos já abdicaram de viver. Em Londres, ouviu chamar “caixas bancárias no céu” aos muitos apartamentos vendidos como produtos financeiros e agora vazios. 

A “desregulação”, com raízes “nos anos 80”, fez agora florescer “senhorios sem rosto”, nada preocupados com quem habita as suas casas. “Eles só compraram um produto financeiro”, aponta Fredrik: “A distância entre as pessoas que vivem na casa e os donos nunca foi tão grande na história da humanidade.”

A resposta ao “esquecimento” da habitação como direito humano parece estar agora a arquitectar-se. O realizador sueco não visitou Portugal durante o seu documentário, mas Leilani Farha sim. “Falou-me, por exemplo, da situação dos vistos Gold. O investimento que apenas compra casa não é produtivo para um país. Não cria empregos. Essa política só está a criar problemas no mundo.” Em 2016, depois de visitas a Lisboa, Porto e arredores das duas cidades, a relatora da ONU e advogada de direitos humanos descreveu situações “deploráveis”. Recomendações? Construir habitação social, combinando-a com o mercado privado nos casos onde seja necessário. Implementar regulamentação para travar os despejos e efeitos da turistificação.

“A resposta é política”, assevera Fredrik Gertten, como político é o seu trabalho como realizador. Por isso, quis entrevistar quem pudesse ir ao fundo da questão: além de Leilani Farha, falou com o prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz, com a socióloga Saskia Sassen, estudiosa dos impactos da globalização nos anos 40, com o jornalista italiano Roberto Saviano, que trouxe à narrativa a problemática do “dinheiro criminoso” aplicado na habitação. Em fase avançada de edição, Gertten continua a reunir relatos de moradores apanhados nesta teia. Quer contribuir para o “conhecimento” sobre o tema, que lhe parece ainda escasso. E já anseia os potenciais efeitos do seu documentário-investigação: “Continua a falar-se de gentrificação, mas talvez seja mais do que isso. A gentrificação é quase um desenvolvimento natural. Isto não é natural.” Era bom que falássemos sobre o assunto.