Prémio de 1,5 milhões para estudar o diálogo entre neurónios e células imunitárias

Henrique Veiga-Fernandes é o primeiro português (e também o primeiro cientista a trabalhar em Portugal) a receber o prémio Allen Distinguished Investigator. O cientista explora o diálogo entre neurónios e células imunitárias

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Henrique Veiga Fernandes é investigador principal do Laboratório de Imunofisiologia do Centro Champalimaud, em Lisboa Fundação Champalimaud

O trabalho de Henrique Veiga-Fernandes sobre a forma como o sistema nervoso e o sistema imunitário interagem no nosso corpo para nos proteger das infecções mereceu uma generosa distinção no valor de 1,5 milhões de euros da entidade criada pelo co-fundador da Microsoft e filantropo Paul Allen (que morreu no passado dia 15 de Outubro). O investigador principal do Laboratório de Imunofisiologia do Centro Champalimaud, em Lisboa, realizou estudos que lhe permitiram identificar, com a sua equipa, as denominadas “unidades de células neuroimunes” em diversas partes do corpo, incluindo o intestino, os pulmões, a gordura e a pele.

O trabalho de Henrique Veiga Fernandes tem explorado intrigantes diálogos no nosso organismo, especialmente entre os neurónios e as células imunitárias, e os seus avanços nesta área têm sido reconhecidos e premiados. Entre outras distinções, o cientista que também é investigador principal do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa já ganhou três bolsas atribuídas pelo Conselho Europeu de Investigação. Desta vez, é o primeiro cientista a trabalhar em Portugal que recebe 1,5 milhões de euros para financiar um projecto de três anos de investigação. O plano é saber mais sobre as regiões onde neurónios e células imunitárias “se juntam e comunicam de forma a influenciar a maneira como o organismo responde a ameaças exteriores tais como vírus e bactérias”, refere um comunicado sobre o prémio Allen Distinguished Investigator.  

Assim, especificamente, este prémio “irá financiar o desenvolvimento pela sua equipa de duas novas técnicas que permitirão medir como se processa essa interacção e comunicação celular”. Ou seja, Henrique Veiga Fernandes tem pela frente um complexo e delicado trabalho de espionagem biológica e vai criar as ferramentas para “ouvir” e, sobretudo, “perceber” o que e onde andam os neurónios a comunicar com células imunitárias.

“Por um lado, os cientistas vão criar marcadores fluorescentes especiais para ver quais são os neurónios que interagem com certos tipos de células imunitárias. Por outro, vão desenvolver uma “etiqueta” específica para seguir certas células imunitárias ao longo da sua vida e ver o que acontece depois de terem interagido com neurónios”, explica o comunicado. E, se tudo correr bem, o projecto vai fornecer novas pistas sobre a forma como os neurónios influenciam directamente o sistema imunitário.

Em Setembro de 2017, Henrique Veiga Fernandes publicou um artigo na revista científica Nature que revelava que o sistema imunitário também tem uma adrenalina e onde já se falava neste intrigante diálogo entre neurónios e células imunitárias. O trabalho em ratinhos mostrava que esta conversa conduzia a certas respostas imunitárias: “Os neurónios produzem uma substância, que funciona como adrenalina, para que as células imunitárias consigam lutar contra infecções e reparar tecidos danificados”.

Sobre o prémio, o comunicado da Fundação Champalimaud esclarece que a “Paul G. Allen Frontiers Group, uma divisão do Allen Institute (instituição independente de investigação médica com sede em Seattle, EUA), autodefine-se como uma entidade que se dedica a explorar a ‘paisagem da ciência’ com vista a identificar e financiar pioneiros cujas ideias ‘vão fazer avançar o conhecimento e tornar o mundo melhor’”. Os galardoados terão sempre sido escolhidos por Paul Allen, que morreu este mês vítima de cancro, e um grupo de conselheiros científicos.

Desde 2010 (incluindo esta última edição) foram atribuídos 69 prémios. Nesta edição, além de Veiga Fernandes, foram também seleccionados nove cientistas a trabalhar em oito projectos nos EUA e Canadá. Os projectos – nas áreas do linfoma, das neurociências, do sistema imunitário, do envelhecimento, do desenvolvimento e da biologia fundamental – vão receber um total de 13,5 milhões de dólares.  

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