No país de Pelé, Bolsonaro está a ganhar no futebol e na política

Vários jogadores e ex-estrelas do futebol brasileiro têm adoptado posições públicas sobre as eleições. Nas bancadas, é da campanha que se fala, mas a esperança é que as conversas voltem a girar em torno dos golos.

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O candidato Jair Bolsonaro chuta um boneco que representa o ex-Presidente Lula da Silva Joedson Alves/epa

Encontramos César nas imediações do estádio do Morumbi, casa do São Paulo FC, um dos principais clubes brasileiros. Mas o boné do clube tricolor serve apenas para despistar a verdade sobre o seu gosto futebolístico. “Sou corintiano”, sussurra, deixando escapar um sorriso cúmplice. César acabava de confessar um crime capital no futebol brasileiro, ao anunciar ser adepto do Corinthians, outro clube da cidade e um dos grandes rivais do São Paulo. Mas é por uma boa causa. César fez mais de 2500 km desde Maceió, no estado do Alagoas, para acompanhar a mulher, essa sim adepta do São Paulo, para vir ao jogo disputado no sábado contra o Atlético Paranaense. Os sussurros terminam assim que se começa a falar das eleições: “Bolsonaro! Bolsonaro!”, repete César.

Mas depressa o entusiasmo é substituído pela desvalorização. “Tanto faz quem ganhar, o país já está na merda mesmo”, afirma César. O alagoano admite que a política tem dominado as conversas nos últimos tempos, mas diz ser “melhor falar de futebol”. Com a política “há mais bate boca”.

O ambiente polarizado em torno das eleições presidenciais brasileiras tornou a política omnipresente nas conversas. E nem o futebol, um desporto que assume um estatuto quase religioso no Brasil, conseguiu deixar de ser contagiado. Vários jogadores, normalmente pouco abertos a manifestarem as suas opções políticas, têm divulgado apoio, sobretudo ao candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Um dos casos mais mediáticos foi o do jogador do Palmeiras, Felipe Melo, que no final de um jogo aproveitou uma entrevista para declarar apoio ao capitão reformado: “Esse golo vai para o nosso futuro Presidente, Bolsonaro.” O Palmeiras é a equipa pela qual Bolsonaro torce em São Paulo. No Rio de Janeiro, as suas preferências vão pelo Botafogo.

Já o trabalhista Fernando Haddad é adepto do São Paulo.

"Por amor ao Brasil"

A equipa que jogou com o São Paulo no sábado, o Atlético Paranaense, entrou em campo, na jornada antes da primeira volta das eleições com camisolas com a frase “Vamos todos juntos por amor ao Brasil”, depois de o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Mario Celso Petraglia, ter declarado apoio a Bolsonaro. A equipa foi multada.

Antigas estrelas da selecção brasileira como Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo também se puseram ao lado do capitão reformado. O Barcelona veio a público afirmar que não se revê no posicionamento de Ronaldinho, que é um dos embaixadores do clube espanhol, e o diário catalão Sport revelou que as actividades do ex-jogador ao abrigo desse estatuto devem ser reduzidas.

Mas, à semelhança do que acontece em todo o Brasil, há quem se ponha do outro lado da barricada. O jogador do Atlético Paranaense, Paulo André, foi o único a recusar usar a camisola de apoio a Bolsonaro. Algumas claques também têm manifestado repúdio ao candidato do Partido Social Liberal (PSL), como aconteceu com a Gaviões da Fiel, do Corinthians, e a Torcida Jovem do Santos, o clube onde jogou Pelé.

A campanha está em todo o lado. Ao final do hino nacional, tocado no início do jogo de sábado, ouviu-se das bancadas um grito de “Bolsonaro, Brasil!”. Os poucos adeptos que se deslocaram ao Morumbi para assistir a um pobre 0-0 são unânimes em dizer que a política tem vencido o futebol durante as conversas.

Gerardo, de 30 anos, assume que “esquenta” mais a cabeça por causa de futebol, mas tem falado mais de futebol com a família e amigos. “O time, o futebol, isso é lazer, o país não, é a nossa casa”, explica. Votou em Geraldo Alckmin na primeira volta e agora “provavelmente” irá depositar o voto em Bolsonaro.

Alicia, uma morena de cabelo curto, veio de Brasília passar uns dias em São Paulo e aproveitou para ir ao Morumbi pela primeira vez. Diz que gosta mais de discutir futebol por ser “menos sério” do que a política, mas nota que “este ano é diferente por causa dos candidatos”. Depois de votar em Ciro Gomes, escolheu agora o candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, por ser “o menos pior”. A amiga, Letícia, tem uma teoria para explicar o apoio de tantos futebolistas a Bolsonaro: “O futebol é um meio machista, e o Bolsonaro prega isso.”

Um meio conservador

Os futebolistas são por norma avessos a posicionamentos políticos e, por isso, há aspectos positivos nesta onda de apoios públicos, diz ao PÚBLICO Marcel Tonini, sociólogo do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da Universidade de São Paulo (LUDENS-USP).

“Os jogadores sempre se colocaram à parte da sociedade, como se as questões sociais e económicas não fossem problemas que os atingissem directamente. Nesse sentido, qualquer engajamento político pode ser visto como positivo”, afirma.

A última ocasião em que tantos jogadores adoptaram uma posição política foi na década de 1980, num movimento que ficou conhecido como a “Democracia Corinthiana”. Liderada pelo ídolo do Corinthians, Sócrates, a ideia foi a de instituir um modelo de gestão democrática no clube, onde todos os funcionários, desde os jogadores aos directores, passando por massagistas e roupeiros, tinham direito de voto em várias decisões internas.

Em período de ditadura militar, os jogadores chegaram a entrar em campo com frases de apoio ao movimento democrático brasileiro, pedindo eleições directas para Presidente, por exemplo. O Corinthians é a equipa de Lula da Silva - que foi preso em Abril, nos últimos momentos do campeonato paulista.

Tonini nota uma certa ironia ao olhar para estes dois momentos de politização do futebol. “Imagino que seja doloroso para os corinthianos da época e é muito irónico também haver essa reversão em 30 anos”, diz. Acrescenta uma diferença importante: “Os jogadores corintianos em nenhum momento pediam o voto para qualquer partido ou político específico.”

O autor do livro A Bola e o Chumbo (2014), Aníbal Chaim, diz que ambos os momentos representam sentimentos de descontentamento popular. “Se o discurso que fazia sucesso nos anos 1980 era aquele que se opunha ao regime militar e ao autoritarismo, hoje o discurso que faz sucesso é o que se opõe à corrupção e ao lulopetismo [os Governos de Lula da Silva]”, afirma.

A candidatura de Bolsonaro, em particular, tem aspectos com uma forte ressonância no universo dos futebolistas. Tonini nota a existência de um “conservadorismo” no futebol brasileiro. “A cartolagem [os dirigentes] não permite que os jogadores tomem decisões, as decisões são sempre de cima para baixo. É uma estrutura racista, classista, que existe dentro do futebol, sendo uma reprodução muito agravada do que existe na sociedade brasileira”, explica o sociólogo, que é também um dos colaboradores do Ludopédio, um portal online que agrega trabalhos académicos sobre futebol. 

Golos de bancada

Ao intervalo no Morumbi, o nulo vai-se arrastando, o futebol dentro das quatro linhas não anima a magra massa adepta. Mas, nas bancadas, Bolsonaro continua a vencer com goleada.

Encontramos Herbert a tirar uma selfie com o relvado atrás de si. Veio do estado vizinho de Minas Gerais de propósito para ver o seu São Paulo, mas entusiasma-se mais a falar das propostas de liberalização do porte de armas de Bolsonaro. “Ele quer liberar a posse de armas, mas apenas para quem é prudente. Basta ler o programa”, afirma. O mineiro de 36 anos acredita que “assim que acabarem as eleições, o futebol vai voltar a dominar”. “Depois, a política volta daqui a quatro anos.”