Editorial

Bolsonaro, F.H.C. e Álvaro Cunhal

Há qualquer coisa de implausível na neutralidade de F.H.C. Os últimos anos do PT foram profundamente infelizes, mas optar pela abstenção é incompreensível num democrata como Fernando Henrique Cardoso.

Falta uma semana para a segunda volta no Brasil, a vitória de Jair Bolsonaro é iminente. Fernando Henrique Cardoso (F.H.C.), ex-Presidente da República, um resistente e exilado no tempo da ditadura militar, insiste em manter-se neutral entre Fernando Haddad e Bolsonaro. Num tweet escrito ontem saudou o manifesto “Por uma frente progressista do tamanho do Brasil”, divulgado este sábado na Folha de S. Paulo e assinada por nomes como Chico Buarque e Adriana Calcanhotto, entre inúmeros artistas e intelectuais.

E o que disse Fernando Henrique Cardoso aos mais de 22 mil que defendem que “não existem extremismos idênticos, não cabe a neutralidade ou abstenção diante de uma situação que pede de nós acção imediata”. Virou-lhe as costas e respondeu simplesmente isto: “Há em circulação um manifesto de democratas progressistas. Bem-vindo. Com a provável eleição de Bolsonaro, precisaremos mais ainda de defensores da democracia para impedir que ele (ou quem vier a vencer) tente sair do rumo constitucional.”

Há qualquer coisa de implausível na neutralidade de F.H.C. Os últimos anos do PT foram profundamente infelizes, mas optar pela abstenção é incompreensível num democrata como Fernando Henrique Cardoso.

Em 1986, quando o Brasil estava a acordar para a democracia, houve em Portugal uma segunda volta de eleições presidenciais que foi disputada entre o fundador do Partido Socialista Mário Soares e o fundador do CDS Freitas do Amaral. Freitas não era “o fascista”, apelido que a esquerda lhe colocou na época, mas representava efectivamente a direita — mais tarde mudaria de ângulo. E nesse ano Álvaro Cunhal e o PCP não hesitaram em apoiar o seu arqui-inimigo de estimação, Mário Soares, e impedir a vitória de Freitas do Amaral nas presidenciais. Os comunistas, que tanto acusaram Soares de os combater (com razão) e de ser “de direita” (sem razão) conseguiram fazer uma escolha que na época foi dificílima.

No Brasil, F.H.C. recusa-se a escolher e, mesmo dizendo que não coloca Fernando Haddad e Jair Bolsonaro no mesmo saco, acaba, na prática, a fazê-lo. Dizer aos democratas que lutam contra a equidistância que conta com eles para o combate depois da vitória de Bolsonaro é pouco para um homem com a biografia de F.H.C.

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