“Aprés nous le Déluge!”

Em nome do PIB Costa está disposto a vender, a prostituir e a alienar os habitantes, a destruir todo o tecido social e a identidade local e nacional.

“Se o vento tivesse soprado de Oeste tinha ardido a serra toda”. Foi esta a conclusão com que fomos ‘consolados’ após a catástrofe de Sintra. Foi um milagre! Afirmou o Presidente, e com esta conclusão pertencente à melhor tradição Lusa, da ‘gestão’ da fatalidade e do imponderável, neutralizámos assim o facto de que os governantes, perante o desafio, pareciam umas ‘baratas tontas’ e andaram atarantados, atrás dos acontecimentos.

O problema, tal como um pertinente artigo posterior do PÚBLICO provou, é que Bruxelas tinha avisado antecipadamente dos perigos e da urgência de um planeamento estratégico, e de uma nova atitude explícita de antecipação ao facto de a Península Ibérica ser uma das zonas mais expostas ao aquecimento global/ alterações climáticas.

Mas tanto na gestão da floresta como na gestão futura do transporte ferroviário, a incompetência e a ausência total de uma visão ou estratégia para o futuro é grave e confrangedora. Espera. Não. É mais do que isso. Perante as consequências, é criminosa.

Sim, porque no caso do transporte ferroviário, Portugal falhou os fundos disponíveis de Bruxelas para investimento, simplesmente porque se não candidatou.

Mas o que tem isto dos comboios a ver com o aquecimento global, perguntará o leitor ...

Tem tudo a ver, pois Portugal não está ligado ao corredor Ibérico da alta velocidade que constitui uma das únicas alternativas ao altamente poluidor transporte rodoviário e aéreo.

Ora, isto da democratização da mobilidade é complicado. Especialmente na era do turismo de massas. É complicado na sua relação com o impacto ambiental e pegada de carbono. Em 2015, data da assinatura do Acordo de Paris o número de voos comerciais foi de 34 milhões. Em 2018 esse número já vai em 39 milhões. E, claro a tendência é para duplicar estes números até 2030.

O número de chegadas turísticas na Europa em 2015, data da assinatura do Acordo de Paris, foi de 605,1 milhões. Em 2017 já foi 670,6. 2018 já apresenta um crescimento de 7% em relação ao ano passado.

Ora, nós sabemos através da esgrima de artigos de opinião que se sucedem no debate dos benifícios e malifícios do turismo, que este tema está fortemente presente na opinião pública e merece forte atenção de vários ‘lobbies’.

“O problema na habitação não é culpa do turismo”. Correram a afirmar sucessivamente Costa, Medina e Marcelo. Isto imediatamente confirmado pela ALEP e pelo poderoso lobby do Alojamento Local.

Tanto mais que a colaboração entre a ALEP, a AIRBNB e afins está assegurada, pois eles ‘ajudam’ no registo e controle do fenómeno. Desde o início, Medina elegeu-os como cúmplices e colaboradores com a mesma tranquilidade e naturalidade como se elege a raposa como principal guardiã da capoeira.

Quando foram anunciadas, finalmente, tímidas medidas de controle nas principais freguesias do centro, sem se consultarem as mesmas freguesias, assistiu-se a uma corrida desenfreada aos novos registos que são já da ordem dos milhares.

Tudo isto ilustra a total dependência de Costa, mago geringonço no seu jogo das três panelas e duas tampas, das receitas turísticas. Para isso e em nome do PIB ele está disposto a vender, a prostituir e a alienar os habitantes, a destruir todo o tecido social e a identidade local e nacional.

Só para dar um pequeno contra-exemplo. Em Amesterdão, a coligação de partidos que governam o municipal decidiu em reunião e por unanimidade retirar de imediato (10 de Outubro) os famosos signos de letras gigantescas IAMSTERDAM que se encontravam em sítios estratégicos e muito apreciados pelos turistas.

A medida foi justificada como um acto simbólico de abertura de um novo período onde a cidade vai deixar de promover o Turismo e a disneyficação da cidade. Para isso fechou o Bureau de marketing de Turismo.

Amsterdam quer reencontrar a sua “alma” e o municipal quer explicitamente deixar de investir no “Big Money” e dirigir toda a sua atenção aos verdadeiros habitantes de Amesterdão, e estes não são os turistas, foi dito abertamente.

E agora a última pergunta. Com o novo relatório do IPCC que anuncia que a urgente e incontornável fronteira/ limite são os 1,5 graus para o planeta e o tempo limite são de 12 anos para radicalmente inverter o processo do Apocalipse, que pensam Costa, Medina e Marcelo sobre este assunto e o papel da mobilidade incontrolada e o turismo de massas, neste desafio definitivo.

É que segundo as estimativas a Península Ibérica vai transformar-se num imenso deserto inabitável. Assim foi salvo o PIB e o outro problema dos habitantes também foi resolvido.

Simplesmente, deixaram de existir!