Entrevista

No combate às alterações climáticas, “o que vai fazer a diferença é a vontade política dos países”

O último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas diz que ainda é possível limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius. Fernanda Viana de Carvalho, do WWF, afirma que cabe aos governos tomarem as medidas certas.

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Mick Tsikas/Reuters

Fernanda Viana de Carvalho, uma especialista brasileira em direito e ambiente e responsável do World Wide Fund for Nature (WWF) para as políticas relacionadas com clima e energia, esteve em Incheon, na Coreia do Sul, para participar na revisão do último documento do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, conhecido esta segunda-feira. Ao PÚBLICO, destaca a importância do documento que, através da ciência, enquadra os riscos do aumento da temperatura. “Contamos que todos os actores e sectores assumam um compromisso no combate às alterações climáticas. Devemos isso às gerações futuras”, diz.

Em Setembro, o WWF fez uma lista de expectativas em que sublinhava vários aspectos que considerava que tinham de constar no relatório, como a necessidade de cortes rápidos e eficazes nas emissões de gases com efeito de estufa ou a necessidade deste documento sublinhar que o impacto para o planeta é muito maior se a temperatura subir dois graus Celsius em vez de 1,5 graus. Sentem que o relatório vai ao encontro dessas expectativas?
Consideramos que sim. Esperávamos uma negociação, mas o resultado foi bom e é o reflexo da ciência ali contida. Foram revistos mais de seis mil estudos e temos um resumo que é fiel a esses papers [artigos científicos]. Das versões que tivemos oportunidade de rever, muita coisa foi mantida.

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Fernanda Viana de Carvalho, da organização ambientalista WWF DR

Como funciona o processo de revisão?
Membros dos governos e organizações cadastradas podem fazer comentários e os cientistas consideram-nos. Há um processo de aprovação, que é feito pelos governos. A palavra final é dos governos.

O que marca mais neste relatório?
Ficou muito claro que cada meio grau faz uma diferença muito grande. Os danos e os riscos são muito maiores com dois graus. É possível ainda limitar a temperatura a 1,5 graus, mas isso vai exigir um esforço muito grande, que tem de ser urgente.

Estas medidas têm de ser postas em prática já?
Sim, o quanto antes. São medidas que já conhecemos. Temos de sair das energias fósseis e aumentar as energias renováveis, temos de limitar o desmatamento e actuar em todas as frentes possíveis. O que é interessante é que a partir do Acordo de Paris já temos uma base política com as contribuições nacionais. Agora temos o respaldo da ciência de que é possível ter um aquecimento global de 1,5 graus. O que vai fazer a diferença é a vontade política dos países.

Conseguir esta mudança e não ultrapassar 1,5 graus é um esforço global. É caso para dizer que se algum país falhar todos falhamos? Quão realista é achar que isto vai acontecer se, por exemplo, os EUA não adoptarem medidas?
Tem de ser um esforço colectivo. Todos têm de estar a bordo. No caso dos EUA, a posição do governo é conhecida mas existe este movimento subnacional de vários actores interessados.

É possível perceber que mudanças concretas vão ocorrer na zona do mediterrâneo se nos ficarmos pelo aumento da temperatura em 1,5 graus?
O relatório fala que as áreas serão atingidas de maneiras diferentes. Há zonas mais sujeitas a aquecimento do que outras. Vimos em Portugal que esta última onda de calor foi um problema muito sério. O relatório coloca justamente isso. Estabilizando em 1,5 graus não significa que estamos livres desses efeitos. O que significa é que com dois graus isso pode ser muito mais grave. Por isso é que é preciso que comecemos desde já. Como se diz no Brasil: “É para ontem.”

E depois deste relatório o que é que acontece?
Os cientistas fizeram a sua parte que é colocar a ciência ao serviço das decisões políticas. A ciência é clara e não se negoceia com ela. A ciência está a dizer que, se continuarmos como estamos, o aumento da temperatura pode chegar aos três graus. Agora, depende da vontade política. Temos aí a COP24 [conferência das partes da Convenção-Quadro para as Alterações Climáticas], que vai acontecer na Polónia, e esse momento de 2019 e 2020 é muito sensível do ponto de vista político. Em 2020 vai acontecer a primeira avaliação dos compromissos dos países, que têm de submeter novos compromissos nacionais. É uma oportunidade para os países apresentarem novas metas que tenham em conta o que a ciência está a dizer. Esperamos que todos os organismos que trabalham com a questão da redução de emissões levem em conta este relatório, bem como esses movimentos subnacionais. Contamos que todos os actores e sectores assumam um compromisso no combate às alterações climáticas. Devemos isso às gerações futuras.