Reportagem

Costa homenageou Saramago e a Azinhaga festejou Costa

O primeiro-ministro celebrou os 20 anos do anúncio do Nobel a José Saramago, que esta segunda-feira se cumprem, com uma visita à terra onde o escritor nasceu e à sede da fundação em Lisboa. Mas, na Azinhaga do Ribatejo, Costa também foi festejado.

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Pilar del Río e António Costa Miguel Manso,Miguel Manso
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António Costa, Violante Saramago e Ana Saramago Matos Miguel Manso
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O primeiro-ministro na Azinhaga do Ribatejo Miguel Manso
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Já na capital, na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, deixou um ramo de flores junto à oliveira onde estão depositadas as cinzas de José Saramago e visitou a exposição dedicada ao escritor. LUSA/NUNO FOX
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Em Lanzarote no sábado LUSA/MIGUEL A. LOPES

Primeiro, no sábado, em Lanzarote, a ilha espanhola onde José Saramago viveu os últimos 17 anos da sua vida. Este domingo, na Azinhaga do Ribatejo, onde o escritor nasceu, e em Lisboa, onde se fez homem. Ficou assim cumprido o roteiro de dois dias pelos locais da vida de Saramago com o objectivo de celebrar os 20 anos do anúncio do Prémio Nobel da Literatura, que esta segunda-feira, 8 de Outubro, se cumprem. Uma organização do Governo de mão dada com a fundação do escritor, que teve o momento mais festivo na pequena aldeia onde este nasceu e em que António Costa também foi festejado pelos populares como há muito não se via. “Viva o comandante”, “Viva o presidente”, gritou-se nas ruas. Costa, beijado e abraçado por dezenas de cidadãos, saiu da Azinhaga com um sorriso de orelha a orelha e com o ego a brilhar com o afecto que recebeu.

“Nasci na Azinhaga. Sentimentalmente, somos habitados por uma memória”, escreveu José Saramago e a frase pode ser lida numa das paredes no interior da fundação no Ribatejo. O escritor e Prémio Nobel da Literatura de 1998, o único em língua portuguesa, nunca esqueceu a terra onde nasceu. Nunca. Nem no dia em que recebeu em Estocolmo o galardão mais importante da sua carreira. E a Azinhaga também nunca o esqueceu. Na pequena aldeia ribatejana respira-se Saramago. Frases do autor escritas em painéis de azulejos brancos estão espalhadas por todo o lado. A sinalética a indicar o local da sua fundação local abunda. A umas centenas de metros antes de se entrar no lugar já há uma tabuleta a lembrar que a Azinhaga é “a terra onde nasceu Saramago”. A aldeia, que nos anos 30 do século passado ganhou o título da “aldeia mais portuguesa do Ribatejo”, podia chamar-se hoje apenas Saramago.

“Cada vez que uma editora, em qualquer lugar do mundo, apresenta um livro de José Saramago, pode dizer o que quiser sobre ele. Que era magro, que era alto. O que quiser. Mas há duas coisas que são obrigatórias escrever: nasceu na Azinhaga, viveu em Lanzarote”, resumiu Pilar del Río, a presidente da Fundação Saramago e viúva do escritor.

A propósito dos 20 anos do anúncio do Prémio Nobel da Literatura ao escritor português, o primeiro-ministro e a Fundação José Saramago decidiram festejar a data percorrendo os locais da vida do autor de Memorial do Convento. No sábado, em Lanzarote, saudou-se o universalismo do autor, o “prémio que é de todos” e a “todos une”. Este domingo, o dia ficou reservado para Azinhaga e Lisboa. Mas, na terra onde o escritor nasceu, os muitos populares presentes, não saudaram só José Saramago, saudaram também António Costa de forma muito acalorada.

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Miguel Manso

Costa, acompanhado pela mulher, Fernanda Tadeu, chegou ao meio-dia à pequena vila. No parque das merendas esperavam-no duas dezenas de populares e autarcas locais, comandados pelo presidente da Câmara da Golegã, o socialista José Maltez. Estavam também Pilar del Río, a filha do escritor, Violante Saramago, e a neta do escritor, Ana Saramago Matos.

Logo ali recebeu os aplausos, beijos e abraços. Dirigiu-se então para o novo passadiço e caminhos que ladeiam o rio Almonda. Questionado pelos jornalistas sobre a muita poluição que hoje suja o rio e brindado com um enorme cartaz de pano onde estava escrito “Rio Almonda, solução para a poluição”, Costa não respondeu à pergunta e mal olhou para o pano do protesto.

Não lhe faltavam, porém, palavras para os que lhe acenavam, o beijavam e o abraçavam, especialmente mulheres. Ao longo de uma longa caminhada de mais de meia hora pelas margens do rio e pelas ruas da aldeia, Costa parou em todos os 13 painéis de azulejo branco onde estavam escritas frases do autor. Lia lentamente os escritos, enquanto ouvia, em muitas das paragens, palavras de carinho. “Viva o nosso presidente”, gritou-lhe uma mulher, por certo confundindo-o com Marcelo Rebelo de Sousa, devido à onda de afectos com que o primeiro-ministro era brindado. “Viva o nosso comandante”, gritou-lhe outra. Outras ainda apresentavam-lhe os filhos ou netos. Os pedidos de beijos apareciam a cada esquina. Costa, com um sorriso de orelha a orelha, a todos respondia.

Habituado, nas últimas semanas, a ser recebido com protestos de várias classes profissionais a cada saída pública, por certo não esperava uma festa daquelas. E sorria, ria, abraçava e beijava sem parar.

António Costa visitou depois demoradamente o núcleo da Fundação José Saramago, na antiga escola de Azinhaga do Ribatejo, dirigindo-se depois aos populares de forma entusiasmada. Tão entusiasmada que até pediu um segundo Nobel para o escritor.

“José Saramago conseguiu assegurar a intermitência da morte. É a vida dele que devemos sempre continuar a encontrar na leitura de cada uma das páginas que ele nos legou e que legou à humanidade. A humanidade reconheceu-o com o Prémio Nobel, mas [Saramago] poderia seguramente voltar a merecer um segundo Prémio Nobel por aquilo tudo que escreveu depois de ter recebido o primeiro”, afirmou o primeiro-ministro.

Depois de lembrar que, no dia anterior, em Lanzarote, tinha sinalizado “o universalismo” da obra que mereceu a atribuição do Prémio Nobel, ali, na Azinhaga, destacava “o regresso às suas origens”, o lugar em que “se formou como menino, como homem” e onde “seguramente germinaram muitas das ideias que o formaram como cidadão, como político e como escritor”.

António Costa classificou mesmo como inevitável a visita a Azinhaga, “onde tudo começou”. “Um dos momentos mais solenes da vida de José Saramago foi quando discursou perante a academia que lhe atribuiu o Prémio Nobel ao começar logo por recordar que a pessoa com quem mais aprendeu tinha sido o seu avô Jerónimo.”

“Ele disse que aqui encontrava o outro eu que algures ficou encalhado, precisava de regressar aqui, à Azinhaga, para acabar de nascer. Temos a ideia de que vamos nascendo todos os dias ao longo da vida e, ao longo da vida, vamos adquirindo novos eus”, acrescentou.

Foi na Azinhaga, salientou ainda Costa, que José Saramago “construiu a visão do mundo”: “Seguramente a experiência que aqui teve: dos seus avós, dos trabalhadores rurais, da realidade social da Azinhaga — que foi determinante na sua formação ideológica, na sua formação como cidadão e na sua afirmação como homem do mundo.”

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O primeiro -ministro e a família de José Saramago, Pilar del Río, Violante e Ana Saramago Matos Miguel Manso

Recebeu mais um forte aplauso, distribuiu mais uma dúzia de cumprimentos e, antes de seguir para Lisboa, ainda foi brindado com um prato de carne de um porco que tinha acabado de ser assado no churrasco.

Já na capital, na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, deixou um ramo de flores junto à oliveira onde estão depositadas as cinzas de José Saramago e visitou a exposição dedicada ao escritor.

Mas na memória de António Costa estaria, possivelmente, ainda a visita à Azinhaga do Ribatejo. Há muito que não tinha uma festa assim e os afectos recebidos terão sido um alento para as semanas duras de discussão do Orçamento do Estado de 2019.

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