Noudar não é o fim nem o princípio do mundo: é qualquer coisa de intermédio

Num canto de Portugal, a um salto de rio de Espanha, o Parque de Natureza de Noudar desenha-se como uma espécie de museu vivo do pré-Alqueva. Entre montados e azinhais, cultiva-se a tradição e alimenta-se o bravio à espera do lince-ibérico. Enquanto este não chega, assista-se à brama dos veados, observe-se o céu nocturno, suba-se ao castelo ou não se faça nada — de preferência, junto à piscina.

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O cepticismo só dura até o dia se consumir em caldeirão alaranjado, por detrás do castelo de Noudar: os bramidos dos veados começam a encher a paisagem à medida que se instalam os contornos fantasmagóricos destas noites de lua brilhante e teimosa perante a escuridão. Não só os veados já estão em plena brama (cio) nesta segunda metade de Setembro, como os ouvimos bem perto do Monte da Coitadinha, em pleno Parque de Natureza de Noudar (PNN), a poucos quilómetros de Barrancos. São companhia omnipresente, estes sons guturais, nestas noites cálidas, estejamos nós sentados na esplanada ou percorrendo os caminhos do parque, a tentar cristalizar os animais num dos feixes de luzes dos faróis. Duas fêmeas atravessam-se-nos bem perto do rio Ardila, o macho vem logo a seguir. Uma aparição breve, seguida do grande nada, ainda que dêmos a volta ao parque. Apenas o som, sempre o som, claro — e o rasto de javalis, já bem afastados, em caminho de azinheiras como abóbadas quase translúcidas.

Nada que nos desanime, ou com que já não contássemos: a natureza não tem hora marcada. E prova-nos isso no dia seguinte, ao final da tarde, quando, sem procurarmos, somos surpreendidos por nova perseguição. Um macho e uma fêmea a correrem ao lado da estrada que atravessa o PNN — várias centenas de metros, até nos despistarem com uma incursão perpendicular para os montados. Pelo meio, avistamos coelhos esquivos e o que nos dizem ser uma fuinha; perdemos a conta às aves, mas não esquecemos os abutres negros a planar, impávidos e senhoriais, sobre o Castelo de Noudar. Entretanto, no monte, a unidade de alojamento do PNN, as osgas e os morcegos tornam-se os nossos melhores amigos no terraço nocturno embalado pela banda sonora cortesia da brama dos veados, visceral, das cigarras, ininterruptas, dos badalos das vacas, quase etéreos.

Se Noudar não fica no fim do mundo, fica no fim de Portugal, pelo menos: Espanha ao lado é tão literal como atravessar o rio Ardila, limite norte do PNN, limite norte deste pedaço caprichoso de Portugal do lado esquerdo Guadiana desenhado em forma de península. De um lado, o rio-fronteira Ardila, que corre escurecido pela tempestade recente; do outro, a ribeira da Múrtega, limpidez hesitante — no extremo ocidental da propriedade unem-se e é o Ardila que prossegue. Esta é região de fronteira, sim, e lá está, quase no extremo da “península”, o castelo devido, uma solidão recta de que a paisagem passiva parece troçar. Longe vão os tempos de lutas, em que Noudar se movia na dança de fronteiras; longe vão os tempos em que Noudar tinha gente. Raul é agora o habitante mais constante do castelo, o guarda de cara tisnada e sorriso acanhado e cansado que entretém a solidão com a pesca de achigãs, bogas e tudo o que vier à rede (“no Múrtega, porque o Ardila está poluído”) — os cigarros esporádicos e muitos pensamentos que convergem para uma cisma: “Todos os que trabalharam aqui já morreram.”

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Refúgio republicano, herança do Alqueva

Já voltaremos ao castelo, incontornável no PNN. Mas o PNN não existiria não fora tudo o que rodeia a fortaleza, as colinas e vales que o final de Verão pinta de amarelo e verde pardo: é aí que se sucedem os domesticados montados de azinho, pastagens e campos de cultivo, os espontâneos azinhais e estevais (a intervenção humana de mão dada com a sua impossibilidade topográfica), a fauna e a flora (dócil e selvagem) que deram o passaporte de entrada na Rede Natura 2000. Um parque de natureza, portanto, instalado numa antiga herdade — da Coitadinha, mas sem lamentos: significa pequena coutada de caça — que renasceu porque algo morreu.

Se hoje há o PNN é porque a albufeira do Alqueva engoliu milhares de hectares de montado. A aquisição da herdade pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA) foi a contrapartida pelo desmembramento dos ecossistemas de montado, matagais mediterrânicos e galerias ripícolas resultantes da construção e exploração do Alqueva, explica o director de património da EDIA, Diogo Nascimento. Se a Aldeia da Luz se viu replicada e com direito a museu, a natureza submersa tem também uma espécie de museu, vivo, na Herdade da Coitadinha, mil hectares de biodiversidade (devidamente inventariada, catalogada e publicada em cinco guias: aves nidificantes, mamíferos, flora herbácea, árvores e cogumelos) que se alimenta da espontaneidade da natureza e da disciplina da intervenção humana. Entre as práticas agrícolas tradicionais e a conservação da natureza, segue seguro (e formoso) o PNN. Um pequeno mundo onde o presente aproveita o passado e desvela o futuro; um presente onde o turismo é a porta de entrada.

A entrada literal no parque de Noudar faz-se de forma lenta, pela estrada de terra batida onde a ponte, estreita, sobre a ribeira da Múrtega, nos deixa. Estradão fora entre os montados de azinho (intromissões de oliveiras e sobrados), troços de vegetação densa e os primeiros animais — sem caprichos da natureza: de um lado o “hotel”, como José Carlos, engenheiro agrícola há dois anos no PNN, chama ao cercado onde estão os novilhos de raça garvonesa; do outro lado, em 20 hectares, deambulam os adultos. Provavelmente alguns cavalos já fizeram a sua aparição, em altura de montanheira, também porcos pretos em busca de bolotas. Com muita sorte, veados, corças, javalis e até raposas dão-se a ver. Porém, se a ideia é um “safari”, o melhor é dar mais espaço à fortuna: deixar o estradão e vaguear no mato ou permanecer nos pontos de observação, pacientes, silenciosos e inodoros. À maneira dos caçadores, que de vez em quando se reúnem aqui para jornadas de “esperas ao javali” e, mais raramente, montarias.

Já avistamos o monte, oásis branco com risca amarela, mas antes uma paragem na história da Guerra Civil de Espanha (e da solidariedade barranquenha). Em Setembro de 1936, 700 republicanos atravessaram o Ardila fugindo da morte às mãos dos franquistas, determinados em acabar com a II República. Junto ao Poço da Ferragadura, aqui na Herdade da Coitadinha, encontraram abrigo, no que ficou conhecido como “campo de refugiados”, onde permaneceram, com o apoio da população, até serem repatriados para o reduto republicano de Tarragona.

Depois dos montes, piquenique na pançona

O Monte da Coitadinha é o coração do PNN, para quem trabalha e quem visita. E quem pernoita, como nós: não temos tempo de ir à piscina, mas a sopa de cação no restaurante Pançona não nos escapa, assim como o pôr e o nascer do sol visto dos terraços — a observação do céu nocturno é que foi sugada pelo clarão da lua, mas, ainda assim, descortinamos Marte e Saturno e vislumbramos Cassiopeia, graças à paciência de Nuno Santos, uma espécie de caseiro do monte (e chef do restaurante) que teve formação da Reserva Dark Sky do Alqueva, que o PNN integra. Pelo meio, fazemos amizades canídeas: a Fiúza, a pastora belga que “pertence” à herdade, a Andorinha e o Dior, que são da Débora (que veio fazer um estágio em ecoturismo em 2006 e não mais saiu) e a acompanham para o trabalho. Da recepção saem visitas guiadas (é necessário reservar) e alugam-se bicicletas e carros eléctricos, os Noucar. Quem preferir andar sozinho, pode optar por um guia digital (que dá informação variada em função da localização) ou não passar sequer por esta casa de partida: o castelo fica no fim da estrada, fora desta há uma série de percursos sinalizados.

O nosso passeio é abrangente, indisciplinado e multidisciplinar. Se nas visitas guiadas pode haver especialistas em história, botânica, ornitologia, etnografia ou geologia, a verdade é que aqui tudo está interligado e é com essa noção que deixaremos Noudar. Embrenhamo-nos de igual maneira pelas zonas de montado, mais limpas, para pasto e produção de cereais, e pelas zonas de azinhais e estevais, onde a vegetação é mais imponente e a biodiversidade maior. Não vemos calêndulas, nem crisântemos, tão-pouco a raríssima “trepadeira de Noudar”. Contudo, asseguram-nos, estão por aqui.

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Apontam-nos sementeiras, para a fauna silvestre, por estes dias sem cultivo. Quando o há, instalam-se fios eléctricos em redor para se ter a certeza de que apenas os animais selvagens aí comem: as aves descem, os veados saltam e os coelhos escavam.

Passamos choças e malhadas, casa de pastores e dos seus animais, respectivamente, algumas recuperadas, e nas margens da ribeira da Múrtega, onda há lontras, visitamos um moinho de água que José Perdigão, o técnico de arqueologia do parque, pôs a trabalhar. Ainda há farinha nas mós (que vieram da região de Alqueva), apesar de aqui já só se moer trigo para visitante ver, apesar de por estes dias não funcionarem porque lhes falta a força: a ribeira corre aos solavancos, engasgando-se nos pegos (alguns de fonte natural) sem saltar os açudes. Uma seca aparente: este é um ribeiro torrencial e rapidamente tudo o que vimos, moinho incluído, pode ficar submerso.

Na Horta da Senhora, assistimos à rega, por alagamento, de canteiros de alho francês, cebolas, pimentos, beringelas (a lista continua e inclui aromáticas plantadas por hóspedes) e, mais tarde, acompanhamos a colocação de ninhos, sempre virados a sul, tamanhos diferentes para aves de vários portes. Dos carriços e pintassilgos até aos mochos e pica-paus, sem esquecer, por exemplo, os chapins e picanços-reais, todos têm em comum o facto de serem insectívoros e, portanto, comerem os insectos que vivem nas cascas das árvores associados às doenças de sobreiros e azinheiras. Descobrimos, aliás, muitas azinheiras a morrer, grandes manchas de árvores quase brancas, e conhecemos os dois estagiários andaluzes, Alejandro e Ismael, que querem estudar o fenómeno para o relatório final deste que é o segundo estágio deles no PNN. Percebemos que a preocupação com estas mortes é compensada pelos sinais de regeneração do montado, com árvores grandes (algumas com 200 anos) e pequenas, quase arbustos, lado a lado, por vezes em zona vedada ou com protecções nos troncos delgados. “Intervimos na poda, escolhemos as melhores e damos forma”, assegura Diogo Nascimento, engenheiro florestal de formação.

Na Fonte da Figueira, antigo espaço de lazer dos proprietários da herdade ao estilo do setecentista agora votado ao abandono, fazemos um piquenique: valem os cestos, de onde saem enchidos, mini-rojões, punheta de bacalhau, pão, geleias, bolos, fruta, patés, vinhos e água, e vale a vista, para a “pançona” do Ardila, a zona do rio onde este faz uma curva de 180 graus que parece ter sido desenhada pelo capricho de um demiurgo folgazão e onde os barranquenhos ainda hoje fazem uma romaria a cavalo. E já estamos à sombra do castelo.

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Do desterro ao abandono

Diz-se que a qualidade da água na Fonte da Figueira foi um dos motivos para a construção da fortificação aqui — a par das suas óbvias qualidades defensivas naturais, no cimo de um monte, quase na ponta da tal península, com vista solta para os cumes que se desdobram como um oceano em dia de ventos desencontrados. Barrancos, alvíssima, aninha-se num desses montes já a fechar o horizonte e é o único vestígio de gente visto daqui. É também uma espécie de némesis de Noudar, crescendo à medida que esta se apagava até ao seu abandono definitivo no século XIX, provavelmente devido aos frequentes surtos de malária.

O assentamento humano neste morro já vem do período Calcolítico; a “fortaleza de bons muros” que chegou até nós é da responsabilidade de D. Dinis, que encarregou a Ordem de Avis da sua construção, sobre um antigo baluarte islâmico (que terá sucedido a um visigótico, que terá sucedido a um romano...). “Uma parte desta muralha ainda existe, mas não está à vista”, diz a responsável do Museu de Arqueologia e Etnografia de Barrancos, Lídia Segão. É, aliás, no museu que peças recolhidas em várias campanhas arqueológicas desvendam um pouco do quotidiano de Noudar ao longo de muitos séculos. Porque o castelo é actualmente apenas uma casca: a alcáçova, com a torre de menagem e as cisternas, e a igreja de Nossa Senhora de Entre Ambas as Águas (que foi também do Desterro e da Encarnação), esventrada, tutelam a antiga vila, ruínas (a mais composta a da casa do governador) alinhadas nas duas ruas principais, paralelas. Uma casa foi reconstruída, usando as técnicas tradicionais, para servir de recepção e é à sombra da sua latada que encontramos Raul.

Trabalhou nas escavações, passou pelo museu e regressou ao castelo que, desde a sua conquista, em 1167, e até ao Tratado de Utrecht, em 1715, passou de mãos em mãos, ora Portugal, ora Espanha (uma “indecisão” histórica que valeu aos barranquenhos o epíteto de “os traidores de Sevilha”). Em 1774, Noudar divide com Barrancos a sede de concelho, mas em 1836 o de Noudar é extinto — algumas décadas depois, já abandonado, é vendido em hasta pública.

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Agora é uma vila-fantasma, mas fez parte da política de povoamento (e de defesa) do país: foi o primeiro Couto de Homiziados português, ou seja, local onde os condenados (por crimes “leves”) podiam viver “em liberdade” — condicional: não podiam sair daqui e tinham de defender a fronteira da cobiça vizinha. Lugar de desterros, portanto, uma mini-Austrália, onde agora o único desterrado parece ser Raul. Que continua à espera de Primaveras que pintam a paisagem e trazem mais visitantes. Não é o fim nem o princípio do mundo. É o PNN; é qualquer coisa de intermédio.