No pomar de romãzeiras, elas são as rainhas de copas

Celeste e Sofia Ribeiro cultivam romãs na Herdade da Pacheca, às portas de Estremoz. Mais do que uma história de família, esta é uma história de pés na terra.

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Andreia Patriarca
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Por estes dias, a Herdade da Pacheca deverá estar pintada de vermelho. Como se se houvera transformado no jardim da Rainha de Copas e os jardineiros tivessem conseguido terminar de pintar de vermelho as rosas brancas que equivocadamente haviam plantado. Ou como se fosse um oceano de árvores de Natal com grandes e lustrosas bolas vermelhas. Mas não há rosas ou bolas, e é Sofia Ribeiro quem imagina assim os 16 hectares de romãzeiras que cultiva, com a mãe, Celeste Ribeiro, às portas de Estremoz. Seriam elas as rainhas de copas neste cenário, mas as romãs não se “pintam” por ordem (ou medo) delas; “pintam-se” pela ordem da natureza e elas cuidam para que essa ordem não se desordene. Romã vermelha, romã a colher neste canto do Alentejo, rodeado de olivais e vinhas por todos os lados.

Não foi pela romã que mãe e filha mudaram de vida, mas foi ela que lhes arrebatou o coração — e de alguma forma as devolveu à terra. Algo que, na verdade, já corria na família. Os pais de Celeste eram agricultores, em Nariz, aldeia perto de Aveiro, e ambas cresceram aí, sempre com um, ou dois, pés na terra. “O meu pai emigrou em 1951, eu fiquei com a minha mãe, que era quem tratava das vinhas, das batatas, do milho, dos animais. Eu ia e ajudava porque era obrigada”, recorda Celeste, os dois pés na terra. Da “obrigação” ficou a “ligação” e o “instinto incrível”, chama-lhe Sofia: “Podem vir técnicos, mas o que ela diz... Não se engana”. Sofia tem uma ligação mais emocional com a terra — tinha um pé nela, diríamos. “Passei muito tempo com os meus avós na infância e a recordação mais bonita que tenho ligada à terra, e ao amor, é de andar com o meu avô Ribeiro no laranjal, ele a colher directamente das árvores, abrir e dar-me a comer laranjas.” Mas nem foram as laranjas a grande herança (agrícola, bem entendido) do “avô Ribeiro”. Depois de 30 anos de muito trabalho no estrangeiro, voltou “ainda com capacidade de mudar a vida dele para muito melhor”, nota a filha. Foi, nos anos de 1980, um dos pioneiros do cultivo de kiwis em Portugal.

Tinha uma extensão “muito menor” do que os 16 hectares que filha e neta cultivam desde 2015 na herdade de 20 hectares. Primeiro, em 2014, chegou Celeste, professora aposentada desde 2012. Mais tarde, Sofia, actriz com carreira em modo pausa. Foi depois da reforma que Celeste se deparou com a “oportunidade de comprar a herdade”. “Sempre gostámos do Alentejo, tínhamos paixão. Achei interessante”, conta. O óbvio teria sido seguir o cultivo de vinha ou olival como os “vizinhos”, contudo a “extensão era pequena e entrar nesses mercados era mais difícil”. Começaram a analisar as possibilidades, fizeram estudos de mercado. Num dado momento, cruzam-se com a alfazema, mas novamente a questão da dimensão do terreno se revelou um obstáculo: “Era muito curta para vender, precisaríamos de muito mais espaço para ter rendimento.” De hipótese em hipótese até à romã. “Apaixonámo-nos pela romã”, assumem. Era uma fruta completamente desconhecida para elas. “Sabíamos que estava implantada há pouco tempo em Portugal e que existiam grandes plantações no Algarve”, resumem. Aqui, o terreno e as condições climatéricas alinhavam-se para o seu cultivo — podia haver carência de água, mas não tanta como com outros frutos (“Ainda não tivemos falta de água”, contam, “já havia um furo cartesiano e fizemos um segundo”), é resistente a altas temperaturas e ao vento (não à toa: a origem da romã está no Médio Oriente). Como bónus, é uma árvore bonita e, já vimos, pinta e adorna a paisagem.

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A colheita de romã já começou na Herdade da Pacheca (começa na segunda metade de Setembro e segue por Outubro), mas quando falamos com Sofia e Celeste, Agosto quase a ceder passagem a Setembro, era a monda que as ocupava. Durante uma semana, entre as 7h e as 16h, seis pessoas (entre elas, os dois funcionários a tempo inteiro da herdade: Rui, “o braço direito”, e Catarina, Bia, “o coração”) passaram a pente fino 11.700 árvores para retirar excessos. Desde as “gémeas” e “trigémeas” que nascem de uma flor apenas, aos ramos sobrecarregados, passando, por exemplo, pelos “ramos ladrões”, que nascem a partir da raiz da árvore. É necessário, explicam, encontrar um equilíbrio na distribuição de peso, nutrientes e água — uma selecção pouco natural que depende da sensibilidade de cada pessoa que monda. A minúcia, essa, é incontornável: “É moroso e é duro” — com uma vantagem: “Não precisamos de ginásio, é só agachamentos”, brincam.

Mondar, podar, arrancar ervas daninhas, verificar a rega (pode haver fugas de águas), controlar parasitas, observar o fruto: trabalhos diários que terminam a colher as romãs, “com muito cuidado para não estragar a coroa” (“é muito mais bonita com a coroa”, observam) — sempre com um objecto omnipresente: “Não se vai dar uma volta ao pomar sem tesoura de podar”, nota Celeste. Um ritual que começou em 2015, quando foram plantadas as romãzeiras. Mãe e filha acompanharam todo o processo, da marcação do terreno à instalação de sistema de rega, e no ano passado fizeram a primeira campanha. Que resultou melhor do que esperavam. “As árvores produziram bastante”, reconhecem, “mais ou menos 20 toneladas”. Claro que entre estas há muita fruta que não é vendida — está rachada, fora dos parâmetros impostos pela União Europeia — mas tão-pouco é desperdiçada. “Damos, fazemos sumo... Livramo-nos de forma boa”, resume Sofia.

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Um dia, gostariam de conseguir vender os arilos já descascados, em caixas, e a polpa ou sumo, já prontos para consumir. Enquanto esse dia não chega, Sofia guarda a emoção de ter provado o gelado artesanal que uma geladaria lisboeta fez com as romãs delas: “Tinha uma cor incrível, sabia mesmo a romã, à nossa romã. Quase chorei”, confessa. E a romã da Herdade da Pacheca é a Red Angel Smith, que pode chegar aos 600 gramas por fruto: tem um sabor agradável, “com acidez e doçura equilibradas”, semente pequenina, “que não incomoda tanto”, “boas características e é esteticamente lindíssima”. Quando estão maduras, rubi por dentro, vermelho intenso por fora. E, sempre, a coroa — esta é uma história de rainhas.