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Denis Mukwege passou a vida a tratar mulheres e a dar-lhes esperança

O médico ginecologista fundou um hospital na República Democrática do Congo onde já foram operadas mais de 20 mil mulheres vítimas de violação.

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Denis Mukwege estava a operar quando soube que tinha recebido o Nobel da Paz EPA/WOLFGANG SCHMIDT / RIGHT LIVELIHOOD AWARD FOUNDATION HANDOUT

Há anos que o nome de Denis Mukwege era dos mais falados para constar na lista dos galardoados com o Prémio Nobel da Paz. Há mais de 20 anos que este médico ginecologista se dedica a operar mulheres vítimas de violações – e a dar-lhes força para voltarem a gostar de si.

Há uma história que o médico tem contado e repetido quase sempre que é entrevistado. Certo dia trouxeram-lhe uma mulher que tinha sido violada várias vezes “por homens em uniforme”. “Mas ela não tinha sido apenas violada. Eles tinham disparado contra os seus genitais”, contou Mukwege, que ficou horrorizado com o que viu. Na altura pensou ser uma cosia fora do normal, “o acto de um louco”. “Não imaginava que se iria tornar no trabalho que iria passar a fazer o resto da minha vida.”

A história sangrenta da República Democrática do Congo guiou o médico. Filho de um pastor, começou por estudar obstetrícia num dos países com a mais elevada taxa de natalidade do mundo. Mas a guerra civil que tomou conta do país nos anos 1990 começou a trazer-lhe para a mesa de operações vítimas de violações em estado muito grave.

Em 1999 fundou o Hospital de Panzi, em Bukavu, e desde então operou mais de 20 mil mulheres. Em certos dias chegou a operar durante 18 horas seguidas. E era precisamente isso que estava a fazer quando soube que tinha recebido o Prémio Nobel. Foi do hospital que Mukwege agradeceu a decisão do Comité Norueguês do Nobel, que dedicou “às sobreviventes de todo o mundo”.

Por causa do seu trabalho, o Hospital de Panzi tornou-se num dos poucos lugares onde as mulheres congolesas se podem sentir seguras. Tão importante como o trabalho clínico de Mukwege é a dimensão psicológica. “Posso ser a única pessoa a quem elas podem expressar o que sentem”, dizia o médico numa entrevista recente à CNN.

O contacto diário com o sofrimento causado pela guerra tornou Mukwege num dos activistas mais ouvidos em África. Tem-se manifestado publicamente contra a continuidade do Presidente congolês Joseph Kabila no poder – as eleições têm sido adiadas indefinidamente – e pede o fim da cultura de dominação patriarcal, que considera responsável pelas atrocidades no seu país e em África.

Entre os vários galardões que recebeu está o Prémio de Direitos Humanos da ONU, em 2008, o Prémio Sakharov, em 2014, e o Prémio Gulbenkian, no ano seguinte.