Editorial

A ópera bufa de Tancos

Tancos não pode cair na aparente rotina dos crimes banais. O que se passou é, na sua mesquinhez, demasiado grave para se tolerar nas forças armadas.

O roubo de Tancos não foi obra de um gangue do crime organizado com ligações à Máfia nem de uma qualquer rede de terrorismo internacional. Numa espécie de anticlímax com toques de ópera bufa, o roubo terá sido cometido por um alegado delinquente com registo nas polícias por crimes de tráfico de droga e de armas. Quer esta redução da intensidade do drama significar que a sua gravidade é menor? Nada disso. A revelação do perfil do autor, obtida pelo cruzamento de fontes de jornalistas do PÚBLICO, bem como a trama que esteve na base da operação judicial de ontem sublinham as fragilidades das forças armadas e a vulnerabilidade da Polícia Judiciária Militar. Em Tancos, roubou-se um paiol com a mesma facilidade com que se assalta uma caixa de esmolas.

Saber-se que o roubo do material militar não implicou métodos criminais sofisticados nem uma logística pesada em termos de homens e meios não é, por isso, tranquilizador para ninguém. Porque, de duas uma: ou a fragilidade da segurança de Tancos era de facto gritante ou o alegado autor do roubo só foi bem-sucedido na sua ousadia porque contou com a cumplicidade de militares. É nesta discussão que começa e acaba a responsabilidade política do Governo. Tudo o que aconteceu depois mostra que a resposta insistente de Azeredo Lopes e de António Costa às invectivas da oposição foi a que poderia ser: o caso está nas mãos da justiça e há que aguardar as suas diligências e conclusões.

Face ao que sabemos hoje, essa resposta que chegou a parecer sobranceira e irresponsável tinha por base o conhecimento, ou ao menos uma forte suspeita, de que em causa estava o acto de um delinquente comum que não resistiu à dimensão da sua façanha, claudicou e conseguiu o apoio cúmplice da Judiciária Militar e de agentes da GNR para se livrar das armas. Identificado o alegado autor do roubo, estabelecida a narrativa dos seus meandros e apuradas as vaidades e guerrinhas de poder entre as polícias, o crime de Tancos torna-se mais claro e não pode cair na aparente rotina dos crimes banais. O que se passou é, na sua mesquinhez, demasiado grave para se tolerar nas forças armadas. Depois de reforçar a segurança dos paióis, era bom que o ministro da Defesa mostrasse obra nova para evitar uma repetição.