Trabalhistas admitem novo referendo mas travam onda anti-"Brexit"

A prioridade de Jeremy Corbyn é a marcação de eleições antecipadas se o plano de May for derrubado pelo Parlamento. Consulta popular é opção de último recurso e não reverte processo de saída.

Activistas anti-'Brexit' manifestam-se à entrada do congresso trabalhista, em Liverpool
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Activistas anti-'Brexit' manifestam-se à entrada do congresso trabalhista, em Liverpool Reuters/HANNAH MCKAY

O Partido Trabalhista decidiu não excluir a possibilidade de promover uma nova consulta popular sobre o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, caso a proposta do Governo seja chumbada pelo Parlamento.

Foram precisas mais de cinco horas e, de acordo com fontes ouvidas pela BBC, pelo menos seis esboços para que a liderança do Labour conseguisse chegar a acordo sobre a redacção do documento com as conclusões do congresso partidário do fim-de-semana, realizado em Liverpool. O texto, que será votado esta terça-feira, tinha a missão de reunir as várias sensibilidades dos trabalhistas em torno do "Brexit", que divide o partido, tal como o país.

A fórmula de compromisso declara que, caso não sejam convocadas eleições antecipadas, "o Labour deve apoiar todas as opções que se mantenham em cima da mesa, incluindo fazer campanha a favor de uma consulta pública". A inclusão de uma referência a uma consulta pública vai ao encontro dos sectores que querem a marcação de um novo referendo sobre a permanência britânica na UE e que têm ganho peso no Labour.

"Uma enorme onda de militantes trabalhistas anti-'Brexit' atingiu o congresso do Labour", saudou Michael Chessum, um dos porta-vozes do grupo Another Europe is Possible, próximo da esquerda e que defende uma marcha-atrás no processo de saída.

Ao jornal Guardian, uma fonte do Labour dizia, sob anonimato, estar perante um "claro movimento do partido". "Estamos agora a falar com clareza em chumbar o acordo se não cumprir os nossos requisitos, pedir eleições gerais e, se isso não for possível, queremos um voto popular sobre o acordo", acrescentou.

No entanto, o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, e o seu círculo mais próximo insistem que o cenário preferido pelo partido é a marcação de novas eleições, e não um novo referendo. O ministro-sombra das Finanças, e segunda figura do partido, John McDonnell, tem repetido nos últimos dias que "a melhor solução" será haver eleições antecipadas e que uma nova consulta popular não terá a mesma natureza que a de 2016 – ou seja, é improvável que a pergunta do hipotético segundo referendo seja sobre a continuação ou não na UE.

McDonnell disse à BBC que essa consulta iria incidir sobre os termos da saída do Reino Unido da UE e não sobre a decisão de sair ou não sair. Uma das prioridades do Labour, disse o dirigente, é mostrar "uma postura clara de respeito ao último referendo".

O apoio explícito a uma consulta que poderia reverter o resultado do referendo de 2016 – em que 52% dos eleitores votaram a favor da saída – desperta receios no Labour de que possa ser usado pelos conservadores como arma de arremesso e que também venha a fortalecer a extrema-direita eurocéptica.

O ministro-sombra da Justiça, Richard Burgon, disse que a promoção de um novo referendo é "uma situação perigosa para toda a classe política". "Penso que o papel do Partido Trabalhista agora é o de reduzir as divisões e aproximar as pessoas", afirmou.

O Governo britânico tem estado a negociar com Bruxelas os termos da saída britânica da UE, mas o plano da primeira-ministra, Theresa May, tem sofrido abalos de todas as direcções. Na semana passada, os líderes europeus rejeitaram a proposta britânica, que inclui um acordo de livre comércio de bens agrícolas e industriais após o "Brexit". O argumento de Bruxelas é de que esse acordo põe em causa os pilares do mercado único europeu.

May garante que não abdica do seu plano, que, por outro lado, também merece fortes críticas por parte da ala mais eurocéptica do próprio Partido Conservador, que diz que a relação futura pós-"Brexit" não parece muito diferente da que existia antes da saída. A seis meses da data em que o divórcio fica consumado, o cenário de uma saída britânica sem acordo parece cada vez mais real.

O Governo tem-se desdobrado em desmentidos nos últimos dias sobre potenciais movimentações em Downing Street para a marcação de eleições antecipadas que teriam o objectivo de reforçar a posição de May e do seu plano internamente.