Crítica

A flor malsã

A segunda longa de Sandro Aguilar é menos uma narrativa, mais um pesadelo emocional paredes-meias com o fantástico, uma história de gente sem saída contada de modo puramente sensorial. Assombroso, inesgotável filme.

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Há algo de malsão a trabalhar em Mariphasa, algo de maligno
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Gente perdida, sem saber para onde vai, sem saber o que quer ou o que os espera. O que podem eles fazer contra o destino? Há um acidente. Um funeral. Um homem que já não é bem-vindo. O seu caminho cruza uma mulher e o seu filho, ambos com medo; um outro homem (marido, ex-marido?), caçador, alguém que cria medo. Andam à volta uns dos outros, como animais enjaulados num zoológico. (E às tantas a mulher é veterinária.) Há algo de malsão a trabalhar em Mariphasa, algo de maligno, de mais assustador do que qualquer filme de terror. Mas há também um conforto estranho: o de sabermos que esta gente é como nós. Talvez sejamos nós — gente perdida, transtornada, que já não sabe mais para onde se virar, gente perdida, assustada, à beira de explodir, à beira de libertar algo. O quê? Não sabemos, Sandro Aguilar não no-lo diz. Prefere deixar-nos ali a boiar neste plasma líquido, neste fluido amniótico de vidas com medo, de pesadelos nocturnos, sempre de noite, sempre às escuras, sob o signo do sangue.

Mariphasa é apenas a segunda longa de Aguilar numa carreira feita quase inteiramente, e por deliberação, no formato curto. À imagem da primeira, A Zona, de 2008, e da grande maioria das suas curtas, é um jogo de “unir os pontos” para descobrir a imagem, sob o signo de uma planta que não existe (a “mariphasa” do título, “um antídoto para uma transformação que, a ocorrer, terá consequências terríveis”, nas palavras do seu autor) e que abre o filme às portas do cinema fantástico. O que interessa, contudo, é que tudo o que parece opaco no papel encaixa e faz sentido no ecrã, mesmo que seja um sentido que não se explica (e que o filme não tenta sequer explicar) mas que se sente aqui dentro. Mariphasa não é um filme, é um estado de alma, negro, envolvente contudo inexplicável, abstracto e contudo sempre a intrigar-nos para o tentarmos resolver — assombroso no modo como a sua narrativa não se constrói mas na prática floresce exclusivamente a partir de fragmentos com ligações aparentemente ténues, extraordinário no modo como tudo é sugerido mais do que explicado, deixado ao espectador fazer as ligações que bem entender. Vimos Mariphasa três vezes, em todas elas a sua flor malsã abriu de formas diferentes, em todas elas vimos outro filme vendo o mesmo filme. Mariphasa não se esgota, nunca. São raros os filmes assim.

(E nunca mais vamos ouvir We’ve Got Tonight da mesma maneira.)