Medicina fora do top 5 das médias mais altas pela primeira vez

Quebra no número de colocados foi menor do que o expectável, face à redução que tinha havido no número de candidatos. Quase 90% dos alunos encontram curso na 1.ª fase.

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Miguel Feraso Cabral

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É uma quebra ligeira, mas interrompe a tendência dos quatro anos anteriores: o número de estudantes colocados no ensino superior público para o próximo ano lectivo diminuiu. Na 1.ª fase do concurso nacional de acesso, cujos resultados foram divulgados na madrugada deste domingo, 43.992 estudantes encontraram um curso, menos 922 do que no ano anterior.

Esta redução de cerca de 2% no número de estudantes colocados é bastante inferior ao que era esperado. O número de candidatos a esta fase do concurso de acesso tinha sofrido uma quebra bem mais acentuada, de 5,6% – foram validadas 49.363 candidaturas, menos 3.072 do que no ano anterior.

A diferença explica-se, desde logo, pelo facto de o concurso deste ano ter tido a maior taxa de sucesso desde 2013/14. Foram colocados 89,1% dos alunos que concorreram, um crescimento de 3,4 pontos percentuais face ao ano anterior.

Os 43.992 novos alunos do ensino superior público são em maior número do que o registado em qualquer um dos anos entre 2011 e 2016. Atendendo aos indicadores existentes, “o resultado é positivo”, valoriza o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, Pedro Dominguinhos.

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Destaca o crescimento do emprego jovem, que tem colocado o sistema de ensino superior “a concorrer com o mercado de trabalho” como um dos factores a ter contribuído para a quebra da procura. “Perceber que, nesse contexto, há quase 44 mil famílias que valorizam a importância de uma formação superior é muito importante”, defende.

A redução do número de colocados foi transversal aos dois subsistemas – quer universidades, quer politécnicos perderam 2% do número de novos alunos em relação ao ano passado. As universidades continuam a ter 65% dos estudantes que entram no ensino superior público.

Medicina mais longe do topo

Não foi só a taxa de sucesso das candidaturas que foi maior neste ano. A taxa de satisfação dos estudantes também cresceu. Isto porque 88,2% dos estudantes colocados nesta 1.ª fase do concurso de acesso entraram numa das suas três primeiras opções – o que representa um aumento de 4,8 pontos percentuais em relação ao ano passado. Mais de metade (54,7%) conseguiu mesmo o acesso à sua primeira opção, o que representa um crescimento de 5,7 pontos percentuais neste indicador face ao ano passado.

“Há uma evolução na qualidade da procura”, nota o reitor da Universidade do Porto, António Sousa Pereira. Este ano acentua-se uma tendência dos últimos anos: Medicina perde cada vez mais terreno como cursos mais competitivo no acesso ao superior. Em seu lugar, estão a surgir cada vez mais os cursos de engenharias, sobretudo em sectores de ponta. “Os alunos portugueses estão a passaram a ter um comportamento semelhante ao que acontece no resto do mundo”, valoriza.

Pela primeira vez, não há nenhum curso de Medicina entre os cinco com notas de ingresso mais elevadas. O curso de Medicina com média mais alta é o do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto (18,22), que é o sexto com a nota mais elevada a nível nacional. Acima deste estão várias engenharias, com destaque para engenharia Física e Tecnológica, na Universidade de Lisboa, que é este ano o curso com nota de ingresso mais elevada (18,9 valores), ultrapassando Engenharia Aerospacial da mesma universidade.

Nesta avaliação dos cursos com notas mais elevadas não é levado em conta o de Engenharia Civil da Universidade da Madeira, que teve apenas um aluno colocado. Este é um curso leccionado em inglês e que se destina sobretudo a um público internacional, mas que é disponibilizado no concurso nacional de acesso, onde habitualmente tem pouca procura. A média de acesso de 18,94 valores é a do seu único colocado.

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Este não é caso único: 91 cursos superiores tiveram entre um e cinco colocados na 1.ª fase do concurso nacional de acesso. Há também 33 cursos (menos 25 do que no ano passado) sem qualquer aluno colocados. São sobretudo engenharias (21).

Entre as áreas de estudos com mais alunos colocados, apenas uma, a de Ciências Empresariais, cresce em relação ao ano passado. Os 6914 novos alunos significam, porém, um aumento muito ligeiro (0,2%). As restantes áreas mais procuradas sofrem todas quebras, sendo a mais relevante a que se verifica na área da Saúde, com 6217 menos cerca de 500 do que no ano passado. A área mais procurada continua a ser Engenharia e Técnicas Afins (7461 novos alunos), decrescendo em relação ao ano passado (7664).

A Física, uma das áreas relativamente às quais o Governo deu ordem às instituições de ensino superior para que fossem uma prioridade, voltou a ter um crescimento acentuado. Depois de no ano passado o número de colocados nos cursos desta área ter crescido 10%, este ano verificou-se um aumento de 4,5% no número de colocados, tendo sido ocupadas todas as vagas disponíveis. Pelo contrário, nas tecnologias de informação e comunicação, verificou-se uma diminuição de 2% no número de colocados, em linha com a redução global no número de novos alunos.

73 mil entram este ano

Após a 1.ª fase do concurso nacional de acesso, sobraram 7.290 vagas (das 50.852 que estavam disponíveis). Este é o segundo número mais baixo de vagas sobrantes desde 2010, apenas superado pelo ano anterior (6225). Estas vagas estão disponíveis para a 2.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, que começa na próxima segunda-feira e se prolonga até 21 de Setembro.

À semelhança do que fez no ano passado, o Ministério da Ciência e Ensino Superior tornou pública uma estimativa do total de estudantes que entrarão no ensino superior neste ano lectivo. Nas três fases do concurso nacional de acesso, a tutela espera que sejam colocados um total de 45 mil alunos

O concurso nacional de acesso é a via de entrada para cerca de dois terços dos estudantes que ingressam todos os anos no ensino superior público. A estes alunos juntam-se ainda os que vêm das restantes vias de ingresso, como os concursos especiais, realizados directamente junto das instituições de ensino superior e que permitem o ingresso, por exemplo, dos alunos com mais de 23 anos ou de titulares de diploma de especialização tecnológica ou diploma de técnico superior profissional, entre outros; os concursos locais de acesso, para ingresso em cursos de música, teatro, cinema, dança; e os cursos técnicos superiores profissionais, uma formação superior profissionalizante de dois anos, cuja oferta está reservada apenas às instituições politécnicas.

Contabilizando todas estas vias de acesso, o Governo antecipa que, neste ano lectivo, entrem nas instituições públicas de ensino superior 73.341 mil novos estudantes.