Opinião

Rio e Passos, cinco semelhanças

Os dois últimos líderes do PSD apresentaram-se sempre como pessoas sérias a quem não se aplica a ideia do "banho de ética".

O PSD mudou de líder há pouco mais de seis meses numa eleição muito disputada e que praticamente partiu os sociais-democratas ao meio: 45% votaram em Pedro Santana Lopes e 55% em Rui Rio. Na altura, Santana assumia-se como herdeiro do passismo, o que era mais verdade em relação às pessoas do que às ideias e, sobretudo, ao estilo.

Ainda assim, nesta rentrée que teima em não arrancar, proponho um exercício que não será muito consensual: que encontremos as semelhanças entre Rui Rio e Pedro Passos Coelho com o objectivo de perceber se o PSD se afastou assim tanto do caminho que vinha fazendo. Quanto às diferenças que ainda não foram assinaladas, chegará o tempo certo para as registar se, ou quando, Rio chegar a integrar um governo. Por exemplo.

Homens de boas contas. Rui Rio, que quer reforçar a sua imagem de líder de boas contas, não inventou a expressão. Em Junho de 2015, Pedro Passos Coelho explicava a sua obsessão com o défice com a necessidade “de ter boas contas” para “aliviar a pressão sobre os portugueses”. Dois líderes, três anos de diferença, a mesma preocupação: as contas. “Se alguém se quer propor governar o país tem de saber também governar a sua casa”, disse recentemente Rui Rio. Nada com que Passos discordasse.

2 Acordos com o PS. Rio inaugurou a sua liderança sob acusações de que queria ser um vice-primeiro-ministro de António Costa e de que defendia uma solução de Bloco Central. Em Abril, assinava, aliás, dois acordos com o Governo, um sobre fundos estruturais e outro sobre descentralização. “Se isto é bom para Portugal automaticamente é bom para o PSD. Quando se pensa o contrário, está a pensar-se mal”, explicava. Aqui chegados, é bom recordar que o Orçamento do Estado para 2011 foi negociado entre PSD e PS, com um acordo assinado às 23h20 em casa de Eduardo Catroga (o emissário de Passos) e devidamente fotografado. Nessa altura, o PS era chefiado por José Sócrates e Costa ainda estava longe de chegar ao Governo de uma forma que Passos considerou ilegítima. Ainda assim, a “geringonça” pôde contar com o PSD para aprovar o orçamento rectificativo que permitiu injectar 2255 milhões de euros no Banif, em 2015.

Portugal primeiro. “A frase de Sá Carneiro, de que primeiro vem Portugal e só depois os partidos e cada um de nós, é uma visão que foi decisiva para moldar o comportamento do PSD ao longo de todos estes anos”, defendeu Passos Coelho em Viseu, em finais de 2016. O país em primeiro lugar foi uma ideia em que insistiu desde que ainda era candidato a líder do PSD e que chegou a dar título à sua moção, em 2010: “Portugal Primeiro”. Já este ano, foi Rio quem escolheu a expressão “Primeiro Portugal” para slogan do último dia do congresso do partido, realizado em Lisboa. “O meu estilo é contribuir para resolver os problemas nacionais”, anunciou mais tarde.

Sem pensar nas eleições. Além de defenderem que o “interesse nacional” está acima de tudo, Passos e Rio também têm em comum o facto de não estarem preocupados com as eleições. Ficou célebre a frase de Passos Coelho que, em plena missão de recuperação do país da bancarrota e perante os deputados do seu partido, disse: “Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal.” Já Rio, mais contido, referiu apenas que o partido “pretende ter soluções e começar a construir um programa eleitoral, mas não à pressa”. É outra forma de dizer que o PSD não está a agir com as eleições no seu horizonte.

Ética na política. Uma das primeiras medidas que Passos Coelho anunciou quando ainda estava na oposição, antes de ser primeiro-ministro, foi a criação de um conselho para fiscalizar as nomeações de gestores públicos (Cresap). Passos defendia a ética na política e Rio entende que “a política precisa de um banho de ética”. Nada parece ter mudado no discurso da liderança e também não mudou o comportamento: ambos se apresentaram sempre como pessoas sérias que não precisam de banho nenhum.

Escolhi cinco semelhanças. Podiam ser mais. Os dois últimos líderes do PSD são ambos mais institucionais do que envolventes, mais racionais do que afectivos, vêm de fora de Lisboa e recusam fazer uma oposição estridente. Passos também teve de se defender de falsas partidas, dizendo que o PSD não "precisa de fazer prova de vida". Ainda não sabemos que mudança queria, afinal, o PSD.