Portugal primeiro, Portugal segundo

O país precisa de algo mais do que (repetidos) slogans para voltar a acreditar em voláteis quimeras

Em Abril de 2010, Pedro Passos Coelho apresentou no 33.º Congresso do PSD uma moção com a qual pretendia abrir as portas do poder ao seu partido. E abriu: ganharia as legislativas de 5 de Junho de 2011, formando um governo de maioria absoluta com o CDS-PP. Nome da "milagrosa" moção? Portugal Primeiro.

Ontem, na reunião da Comissão Nacional do PS, em Coimbra, foi aprovado um texto que tacitamente conciliou as posições de António José Seguro, o líder actual, com as de António Costa, que por aí anda a ser promovido como o líder futuro. Nome do "milagroso" texto? Portugal Primeiro.

Sem atender já ao problema (menor) da originalidade, não deixa de ser curioso o paralelismo das duas situações. Em 2010, abalada já a confiança na gestão de Sócrates, o que provocaria a sua derrocada, o PSD fazia pontaria ao poder. Chegaria em breve a sua vez. Agora, o PS cuida chegada a vez de o feitiço se virar contra o feiticeiro: a confiança em Passos Coelho empalideceu e os socialistas crêem chegada a hora de lhe imitar os antigos passos, mas em sentido inverso, devolvendo ao PS, num prazo breve e calculado, o poder que em 2011 perdeu.

Faz sentido, isto? Faria, se o PS tivesse, ao menos, acautelado a sua unidade interna e um rumo claro para o seu futuro. E que não hesitasse (como na sombra hesita, embora, à superfície, finja que não) entre dois putativos líderes de futuro, já que Seguro tem andado muitas vezes a portar-se como se fosse um líder de transição. O problema, para o PS, é claramente este: sem coesão interna, sem um líder firme e sem ideias claras quanto ao que pretende realmente para o país, pode assinar as moções que quiser, que há-de manter-se na oposição ainda muito tempo.

Quanto ao Portugal Primeiro, que no (evitável) plágio do título se revelou afinal um Portugal "segundo", trata-se de uma miragem política como qualquer outra. Ora o país precisa de algo mais do que slogans para voltar a acreditar em voláteis quimeras.

Maior transparência na gestão do Estado

Anotícia é claramente de saudar: os pareceres emitidos pela comissão de recrutamento para gestores de empresas, hospitais e institutos públicos vão passar a ser divulgados obrigatoriamente. Até aqui, por vontade dos propostos, a avaliação a que eram sujeitos podia ficar em segredo; para que fosse divulgada era necessária autorização sua, expressa por carta. Ora, até sexta-feira passada, entre os 185 nomes avaliados pela comissão só 12 pareceres tinham sido divulgados. Por isso concluiu-se, e bem, que daqui em diante só serão analisados os currículos dos que pré-autorizarem a divulgação dos pareceres. O gesto, lê-se no ofício emitido pela comissão, "representa um progresso significativo em prol da boa governação e um contributo importante para o aumento da confiança dos cidadãos nas instituições públicas." Diminuirá, por causa disso, o número de candidatos? Se diminuir, paciência. O escrutínio público, nestes cargos do Estado, é essencial.