O arquivo musical da darwinista Kara-Lis Coverdale

A Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, arranca a temporada de concertos com uma noite que inclui esta canadiana, intérprete fundamental de um lugar comum à electrónica e à música escrita contemporânea.

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Kara-Lis Coverdale fica sempre surpreendida quando alguém descreve a sua música como “bela”. Não é uma adjectivação estranha para quem conheça as peças da canadiana que actua esta quarta-feira na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, mas a verdade é que a beleza não faz parte das características que se propõe explorar enquanto compositora. Considerada em numerosas ocasiões um dos nomes mais relevantes e criativos de uma exploração da música electrónica que vive paredes-meias com a música escrita contemporânea, Coverdale cresceu a tocar órgão em igrejas canadianas, sob a influência da música sacra e coral que tem longa tradição na Estónia (de onde os seus avós maternos partiram, fugindo de um cenário de guerra, a caminho de uma nova vida na América do Norte).

“Cresci com uma ideia de diáspora em segunda mão da cultura estoniana”, diz Kara-Lis Coverdale ao PÚBLICO. “Num certo sentido, foi como viver no período em que eles deixaram o país.” O “fortíssimo sentido de comunidade e de preservação” de uma herança musical que é também forma de “resistência e de dignidade”, mercê das várias experiências de invasão e de ocupação atravessadas pela Estónia, é também uma marca que admite carregar na sua música. Mas sem qualquer linearidade a unir os dois pontos, ressalva. “Sou extremamente infiel à narrativa daquilo que aconteceu”, argumenta, dizendo-se uma “darwinista”, no sentido em que não lhe interessam interpretações ditadas pelo rigor histórico.

A música de Kara-Lis, onde cabem tantas linguagens musicais distintas e impuras, faz jus ao multiculturalismo do melting pot canadiano, e inventa, por isso, um lugar pouco dado a definições e fronteiras. Na crítica ao seu mais recente álbum, Grafts (2017), o site Pitchfork colocava a sua obra “algures entre a computer music e Erik Satie”. Daí que lhe pareça, por vezes, tão estranho que os seus concertos ou os seus discos possam ser interpretados de uma forma mais restrita. Até porque as suas composições são “lugares” para dentro dos quais derrama experiências pessoais, tornando-as tão íntimas que qualquer apreciação exterior estará quase inevitavelmente fadada a fazer ricochete nas suas intenções. “Muitas vezes, um tema vem de uma memória e chego a pensar em mim quase como um arquivo”, diz. “Essas memórias são fortemente visuais, mas também têm um lado muito emocional. Claro que não quero controlar a forma como as pessoas ouvem”, diz, “mas não gosto que ponham palavras na minha boca”.

Tudo em aberto

Antes de partir em digressão com Tim Hecker, que apresentará em palco nos próximos tempos o álbum Konoyo (uma colaboração com músicos tradicionais japoneses), Kara-Lis Coverdale passa pela Zé dos Bois numa noite de arranque de temporada em que actuam também 700 Bliss (Morr Mother e DJ Haram) e Van Ayres. É um lento regresso aos concertos depois de ter passado boa parte dos últimos anos na estrada, e de ter ficado exausta. “Há limitações físicas para a quantidade de viagens e de stress com que se consegue lidar neste contexto, por isso tenho estado a fazer uma pausa”, justifica. A “pausa”, na verdade, significa que os últimos quatro ou cinco meses foram passados a estudar física e harmonia, assim como a trabalhar em ideias para um próximo longa-duração.

Certo é que o concerto em Lisboa não incidirá no material que se escuta em Grafts. A sua ideia, confessa, passa mesmo por “manter o plano muito em aberto”, admitindo a possibilidade de recorrer inclusivamente ao piano da casa. É o tipo de flexibilidade que Coverdale privilegia em espaço pequenos, propícios a uma música menos planeada e mais propensa a ser contaminada pelo ambiente à volta e pelo momento. Até porque a sua aversão a juízos definitivos leva-a também a combater o mais possível a ideia de que o mundo de um criador musical começa e acaba na sua interpretação daquilo que registou em disco.

Para Kara-Lis Coverdale, cada nova gravação implica, aliás, uma disciplina e uma conduta artística pouco comuns. “Não acho ético produzir obras redundantes e prefiro guardá-las para mim mesma, enquanto exercícios, quando isso acontece”, explica. “Não acho que seja bom para o planeta saturar a paisagem musical, nem acho que seja muito produtivo. Prefiro usar o meu tempo a explorar e esperar que algo realmente novo possa surgir.” E é por isso que, sem negar que a sua música nova se vai construindo sobre tudo aquilo que fez antes, admite que há sempre um certo grau de conflito envolvido. Para que possa acrescentar uma peça que mude o jogo de forma considerável.