O incêndio do Museu Nacional do Rio foi “a queima de 200 anos de História”

Brasil chocado com a destruição pelo fogo de uma colecção com mais de 20 milhões de peças. “Um país que não consegue tomar conta de um museu está à beira da barbárie”, diz um professor.

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Vista aérea do Museu Nacional do Rio depois do incêndio Reuters/RICARDO MORAES
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Museu Nacional do Rio Reuters/RICARDO MORAES
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Museu Nacional do Rio Reuters/RICARDO MORAES
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Funcionários a transportarem Reuters/PILAR OLIVARES
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Os bombeiros tentam apagar o fogo Reuters/RICARDO MORAES
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Os bombeiros tentam apagar o fogo LUSA/MARCELO SAYAO
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Os bombeiros tentam apagar o fogo LUSA/MARCELO SAYAO
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Os bombeiros tentam apagar o fogo Reuters/RICARDO MORAES

Uma “perda traumática”, “absoluta e irremediável”, “irreparável”, “uma tragédia”, “uma vergonha internacional” – foi assim que os investigadores, historiadores, antropólogos brasileiros e portugueses ouvidos pelo PÚBLICO descreveram o impacto do incêndio que, desde o final de domingo (19h30 no Rio, 23h30 em Lisboa) e até metade do dia de segunda-feira, destruiu quase totalmente o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, edifício histórico com 200 anos, reduzindo a cinzas colecções únicas e insubstituíveis.

“Estou devastado, é um pedaço da minha vida que vai embora”, diz Gustavo Pacheco, antropólogo, diplomata e escritor brasileiro, que passou seis anos a investigar para o seu doutoramento naquela que é a instituição científica mais antiga do Brasil e que tinha um acervo de 20 milhões de peças. Entre esse acervo encontrava-se o Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca de 12 500 anos, múmias egípcias, o meteorito Bendegó encontrado no século XVIII (que sobreviveu, resistindo ao fogo) e colecções reunidas durante gerações por investigadores de diversas áreas.

O Governo português emitiu ao final do dia um comunicado manifestando a sua “profunda tristeza pela perda de um acervo histórico e científico insubstituível” e declarando-se “inteiramente disponível para, no que for útil e possível, colaborar na procura da reconstituição deste importante património identitário, não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina e do mundo”.

Até ao final desta segunda-feira era ainda difícil fazer o balanço das perdas, mas a dimensão do incêndio não deixava dúvidas de que elas foram gigantescas. Gustavo Pacheco dá um pequeno exemplo pessoal: entre os materiais que usou na sua pesquisa encontravam-se as gravações feitas pelo antropólogo Edgard Roquette-Pinto, que, em 1912, durante a Missão Rondon, passou várias semanas com os índios nambiquaras, que não tinham tido contactos anteriores com a civilização.

“Uma das perdas mais graves foi a da colecção de etnologia, que reunia artefactos de populações indígenas exterminadas e que são irrecuperáveis. A colecção africana também era muito importante, única do mundo, e foi dizimada. Teremos mais certeza nos próximos dias. Hoje sequer foi possível entrar no museu, porque o chão ainda está muito quente e há fumaça", disse ao PÚBLICO Adriana Facina, antropóloga e uma das investigadoras do museu.

O acervo do Museu Nacional, agora quase totalmente perdido, “reflectia toda a diversidade da fauna e da flora da América do Sul, assim como a diversidade etnográfica passada e presente”, para lá dos milhares de peças de outras regiões, resume André Menezes Strauss, professor da Universidade de São Paulo, ligado ao museu de arqueologia e etnologia desta instituição.

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“Todos os aspectos da humanidade estavam ali representados”, diz Strauss. E, o mais grave, é que “não dá para ir lá [aos locais e às épocas históricas das peças] e pegar mais”. É difícil avaliar o impacto que o desaparecimento deste acervo terá na investigação no futuro. “Para já, o impacto mais imediato vai ser sentido pelas pessoas que estão a fazer a sua investigação com esse acervo", nota o académico. "Imagine o que é estar a trabalhar em algo há anos e aquilo queimar”, acrescenta.

Esta perda é, sublinha Strauss, “uma vergonha internacional, um atestado de incompetência institucional” e “um constrangimento civilizacional para o Brasil”, porque “um país que não consegue tomar conta de um museu, que não é assim tão difícil, é um país que está à beira da barbárie”. O que aconteceu, conclui, foi “a queima de 200 anos de História”.

Sérgio Martins, historiador e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, concorda: “É um vexame incomensurável para o Brasil a nível internacional. É uma nação incapaz de se pensar a si própria histórica e culturalmente.”

Lembrando que “algumas pessoas têm chamado ao Museu Nacional o nosso Louvre”, Sérgio Martins explica que não só a instituição tem “uma ligação com a vinda da família real para o Rio” como “é um lugar muito especial pela sua relação com a sociedade e pela estima que tem junto do público”. O Museu da Quinta da Boa Vista, numa zona já de subúrbio da cidade, foi para muitos cariocas o primeiro (e, em muitos casos, o único) museu que visitaram.

Essa “memória afectiva” é comum aos habitantes da cidade. Sérgio Rodrigues, escritor, jornalista, autor de O Drible e Grande Prémio Portugal Telecom de Literatura 2014, recorda: “Fui ao Museu Nacional algumas vezes, a primeira quando era pequeno e muitos anos mais tarde com os meus filhos. Era um clássico programa duplo: as famílias iam à Quinta da Boa Vista para visitar o museu e ir ao Zoológico [situado ao lado].”

Mas a decadência era evidente. “Um e outro andavam largados, sofridos, deprimentes, há muitos anos. A própria quinta foi-se tornando um lugar menos seguro e o passeio já não era o que tinha sido na minha infância. O Museu Nacional não se modernizou, manteve-se sob vários aspectos como um museu do século XIX. Salas foram fechando por falta de verbas. Havia fios expostos. A catástrofe era mais do que anunciada.”

A relação da portuguesa Cristiana Bastos, investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, com o Museu Nacional do Rio passa por outra vertente. “Fui estagiária no museu, que é uma instituição complexa, multivalente, com vários departamentos, onde funcionava também o programa de pós-graduação em Antropologia Social, o mais prestigiado do Brasil, pelo qual passaram grandes antropólogos, alguns dos quais ali deixaram os seus espólios”. O que se perdeu não foi, na sua opinião, apenas património do Brasil, foi “património mundial” – uma perda que se deve “ao desinvestimento que tem havido na Cultura”, que afecta várias instituições e que “é quase um assassínio em tempo real”.

Filipa Vicente, também investigadora do ICS na área dos estudos coloniais, trabalhou no ano 2000 com o arquivo do Museu Nacional e sublinha a importância que no final do século XVIII as colecções de História Natural tinham. “É um período em que são extraordinariamente valorizadas porque são únicas no mundo, o que existe no Brasil não existe em Portugal e as colecções de fauna e flora brasileiras não eram conhecidas na Europa.”

Nas chamas do incêndio de ontem “o que morre é todo um espólio material e uma memória que tem a ver com a História de um país, com o seu passado, presente e futuro”. A tragédia do Museu Nacional do Rio, um espaço “com muitas camadas de história”, deve, defende Filipa Vicente, provocar uma reflexão – no Brasil mas também em Portugal – sobre “o desprezo em relação às universidades, à cultura e educação”, que deixa os museus dependentes de instituições universitárias sem recursos.

Esta era, resume o escritor Sérgio Rodrigues, “uma instituição tão encharcada em história que talvez a sentíssemos como indestrutível, julgando que estaria lá para sempre, como o Pão de Açúcar. Também nisso, como ultimamente em tanta coisa, fomos um país estúpido. […] Agora temos o resto dos tempos para absorver o sentido da palavra ‘irremediável’”.