Bloco admite integrar um futuro Governo: “Aqui estamos para todas as responsabilidades”

Catarina Martins faz discurso de abertura do ano político reivindicando para o BE papel principal na recuperação de rendimentos. E agitando aquela que deverá ser uma bandeira eleitoral: o investimento.

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LUSA/RUI MIGUEL PEDROSA

Parecia um discurso de fim de campanha eleitoral, apesar de estarmos a mais de um ano de eleições legislativas. A coordenadora do Bloco de Esquerda subiu este domingo ao púlpito para encerrar o Fórum Socialismo, a festa de abertura do ano político que desta vez antecede três eleições, e deixar claro que, da próxima vez, estará disponível para ir mais longe no apoio a um futuro governo, admitindo até integrá-lo.

“Aqui estamos para todas as responsabilidades. Somos o Bloco de Esquerda”, disse Catarina Martins com ênfase na voz, quando acabava o discurso

A intervenção serviu para três objectivos: afirmar o Bloco de Esquerda como partido responsável, deixando claro que não deixa de ser um partido de oposição ao PS, mas construtiva; apontar à direita como a origem de todos os males do passado e do presente; e erguer bem alto a bandeira do investimento público, antes que a direita se aproprie dela.

A responsabilidade foi uma espécie de mantra que Catarina Martins entoou repetidas vezes, até em contraste com o PS. Lembrou que o Governo chegou a achar irresponsável aumentar as pensões mais baixas de forma extraordinária ou o aumento dos escalões do IRS e que tal só pela pressão do Bloco se conseguiu: “Alguém hoje é capaz de dizer que foi irresponsável? Não, nem o Governo, ainda bem que o fizemos”. Portanto, concluiu: “É à exigência do BE que se devem muitas das medidas que fazem parte da nossa vida colectiva. Estivemos à altura da responsabilidade que depositaram em nós.”

Farpas ao PS, ironia com Nuno Melo

A demarcação com o PS fez-se em relação ao défice zero e às cativações feitas para o alcançar, quando afirmou que “disfarçar o défice das contas destruindo a capacidade do Estado de responder às populações, isso sim é irresponsável”. “O endeusamento do défice zero é a validação da retórica da direita austeritária que não é nem nunca foi bom para o país”, frisou.

Agora, depois da recuperação de rendimentos que fez com que a economia crescesse – “e uma economia a crescer faz melhores contas públicas, todos os dados mostram que temos razão” – diz que chegou o momento do investimento. É esse “o teste da esquerda”, responder à falta de investimento nos serviços públicos. Porque “é na timidez do PS [a esse nível] que as direitas apostam”, afirmou.

Por isso, preconiza que o Governo precisa de ir mais longe: “Falta investimento na saúde, na educação, na ferrovia”. Aqui, não resistiu a uma farpa ao CDS: “O caso é grave. Nuno Melo entrou num comboio. E saiu de lá a dizer que queria privatizá-lo”, disse, sorrindo e recebendo aplausos.

As lutas do Bloco

Catarina Martins deixou ainda um elenco de medidas pelas quais promete lutar. Baixar o IVA da electricidade e gás já no próximo Orçamento, acautelar as longas carreiras contributivas, aumento de 10 euros nas pensões mais baixas já em Janeiro, novos apoios ao desemprego de longa duração, investir no Serviço Nacional de Saúde e ao mesmo tempo acabar com as taxas moderadoras e permitir que o SNS consiga contratar quem precisa, contar o tempo de serviço integralmente a todos os funcionários, baixar as custas judiciais, reflorestar o país e garantir 1% do PIB para a Cultura. “Está na hora de investir no futuro”, bradou.

Catarina Martins deixou para o fim a declaração do Bloco como partido do arco da governação, com a fórmula “prontos para todas as responsabilidades”. E disse-o com a consciência que esse aumento de responsabilidades é acompanhado por mais dificuldades e escrutínio, de que o caso Robles foi exemplar. “Sabemos que será um ano duro, conhecemos os ataques, não nos intimidam”, disse Catarina Martins.

Louçã à espera de "política suja"

Esses fantasmas já antes tinha sido levados àquele palco por Francisco Louçã. "Eu até antecipo que na próxima campanha eleitoral em Portugal nós vamos ver, pela primeira vez, de uma forma muito aberta o que é a política suja", alertou o antigo coordenador bloquista. Na opinião do fundador do BE, "neste Verão já houve alguns episódios disso, algumas capas de jornais, algumas formas de notícias e algumas coisas inconsequentes".

"Mas sobretudo se virem as redes sociais e como se reproduzem algumas ideias e algumas tipologias, percebe-se que há um fascínio particularmente da direita pelo sucesso do Trump", comparou. "Ele prova que tudo é possível quando se utilizam os instrumentos mais violentos na luta suja. E, portanto, eu creio que isso vai ser reproduzido porque o sucesso se reproduz e o sucesso se imita", antecipou.