Editorial

O tronco nu de Marcelo é aliado de Costa

Marcelo Rebelo de Sousa, o mais alto magistrado da nação e o tronco nu mais popular da Península Ibérica, disse ontem que já está em curso a campanha para o ano eleitoral de 2019 – europeias em Maio, legislativas em Outubro. É um facto “político” que o professor Marcelo se deleitaria a comentar. Com a excepção de Rui Rio (que desempenha neste filme o papel curioso de aldeia gaulesa que resiste ainda – talvez não sempre – à invasão do vírus eleitoral) os dados estão a ser lançados.

A circunstância da campanha eleitoral já ter começado implica, como o Presidente também afirmou ontem, que o Orçamento de Estado para 2019 possa ser dado como praticamente aprovado. Marcelo deu uma enorme ajuda ao primeiro-ministro quando, nos últimos meses, repetiu à saciedade que não queria uma crise politica – colocando uma grande pressão política sobre Bloco de Esquerda e PCP para aprovarem o último orçamento de Mário Centeno antes das eleições. E basta ver a diminuição de tom das críticas, tanto do Bloco como dos comunistas, em relação ao Governo para concluir que não foi só o Verão a fazer baixar o volume do confronto político. Nem todos os líderes fizeram como Rui Rio e se deram ao luxo de ter um mês inteiro de férias. O que se viu neste Agosto foi os partidos à esquerda do PS a baixar a agressividade pré-férias e a adaptar o discurso à futura decisão de viabilizar o Orçamento em Outubro. A geringonça estará unida até que a morte da legislatura a separe. Não há muito a fazer: com os números hiperbólicos que Costa voltou a ter nas sondagens, quem saltar fora é laranjinha.

Com o PSD a viver uma crise profunda – principalmente de inacção – e o Presidente a contribuir, com a política dos afectos, para uma normalização das relações entre cidadãos e Estado, António Costa sai a ganhar. Os mergulhos do Presidente nas praias fluviais, amplificados pelas televisões, são aliados activos do Governo, ao transmitirem uma imagem de enorme normalidade institucional. Pode Marcelo dizer que o essencial está por fazer no interior do país (e está) mas a mensagem mais poderosa que chega aos portugueses é descontracção do Presidente em tronco nu e a sua absoluta tranquilidade.