Crónica

Aos 14 – confirma-se – as alterações climáticas batem todos os recordes de temperatura

E há quem diga – tentando humilhar-me, claro – que as paixões, aos 14, são pouco mais que “casos”; ou coisas assim. Confere. Mas são “casos-sérios”. E eu que o diga!

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Dave Webb/Unsplash

Aos 14 – confirma-se – as alterações climáticas batem todos os recordes de temperatura e, por causa disso, acho que me apaixonei 29 vezes só neste último Verão. Não são mais nem são menos do que aquilo que eu esperava. Mas aconteceu. Não fosse acreditar em bruxas e em coisas assim e ia jurar que aquilo que se passa no meu coração é fogo posto.

Reconheço que 29 vezes, até agora, talvez não acentue um lado premium do género: “és o amor para toda a minha vida”, que supunha ter em mim mal me apaixonasse. Mas há pessoas que, logo que as vimos, parecem nossas conhecidas. É química, suponho. E isso atrai. (É estranho, eu sei, mas uma pessoa habitua-se a viver com isso.) Só que, depois das primeiras vinte por quem me apaixonei, passei a recear que haja, também, pessoas que, ainda antes de as conhecer, terão tudo, tudo para dar certo comigo. E passei a ter medo do meu coração. Há dias em que eu penso que tudo isto resulta duma enormíssima falta de critério. Talvez seja... E há dias em que me sinto quase inflamável. E não percebo. Mas, seja como for, fiz tudo como manda o figurino. Primeiro, uma pessoa começa sempre com “Olá?”, claro. Depois, quando se enche de brios, aventura-se por perguntas mais íntimas, como: “És de onde?”, por exemplo. A seguir, quando já se criou um clima propício para um “coração escancarado” vai-se mais longe, até: “Estás cá com os teus pais?”, ou qualquer coisa do género. E, depois, se tudo correr de forma exemplar, dá-se o salto para o inevitável: “Queres ser minha namorada?” Tudo com calma e “à séria”. Respirando fundo e sem precipitações, portanto. E falando por telepatia, sobretudo. Como nos filmes! Talvez quando eu chegar à trigésima paixão tenha mais sorte... Mas, até agora, népia; zero! Nada corre bem. É karma! Não sei se é das dioptrias, do aparelho dos dentes ou duma ou de outra borbulha. Às vezes, acho que o problema não sou eu; são os astros. Parecem todos alinhadinhos, como quem leva a bola bem controlada até à “cabeça da área” e, depois, quando se trata de “chutar para golo” e de eu falar como quem corta a respiração, há sempre um astro que fica aflitinho para ir à casa de banho, sai do alinhamento, e tudo volta à “estaca zero”. Quem acredita nos astros devia ter 14 anos e a mania passava-lhe num instante.

E há quem diga – tentando humilhar-me, claro – que as paixões, aos 14, são pouco mais que “casos”; ou coisas assim. Confere. Mas são “casos-sérios”. E eu que o diga! Tirando as vezes em que imagino todas as “namoradas” que eu já tive, não faço mais nada nas férias. Ando esgotado e com os nervos em franja. E sempre a abrir a boca, de sono e de cansaço. Ah!, e com um olhar de “sexta-feira”, diz a minha mãe. Mas suponho que será de sexta-feira à tarde porque o “olhar de sexta à noite” da malta minha amiga é, segundo eles, 3D. Top! Definitivamente.

Há, também, quem defenda que aos 14 ninguém se apaixona. Imagina, quando muito, as paixões serão paixonetas e nada mais. Ora, isso duma pessoa se “apaixonetar” pode ser verdade; mas também não é uma coisa tão insignificante como se diz. Há uma diferença entre uma paixoneta e uma paixão, sim. Uma paixão é um estado intenso de adrenalina; e uma paixoneta uma dieta detox de hormonas. Com um impacto no coração próximo daquele que distingue a Coca-Cola original da Coca-Cola Zero: zero de açúcar mas com todo o sabor. Qualquer coisa como isto. Achei eu!

Ainda assim, não estou para alterações climáticas. Isso – sim! – é claro.