Editorial

Costa dança no Minho

Aos 25 de agosto de 2018, Rui Rio continua de férias. E sendo assim como pode um primeiro-ministro não dançar?

A imagem mais curiosa da rentrée do PS nem foi ontem em Caminha: aconteceu no sábado à noite, no festival de Vilar de Mouros, e, ao som dos GNR, o primeiro-ministro dançava. Costa pode ser um bailarino estratégico mas as condições objectivas permitem-lhe a descontracção física. Os comboios podem estar a ser todos os dias suprimidos, existem situações caóticas no Serviço Nacional de Saúde mas António Costa conta com uma extraordinária benesse que nenhum primeiro-ministro anterior pode contar desta forma: a total e confrangedora ausência do maior partido de oposição. Aos 25 de agosto de 2018, Rui Rio continua de férias. E sendo assim como pode um primeiro-ministro não dançar? 

Costa não agradece a Rui Rio a sua colaboração com o Governo: um dos pontos altos do discurso do primeiro-ministro da rentrée foi precisamente quando atacou a proposta para a saúde de Rui Rio, acusando-o de abrir espaço para a privatização do Serviço Nacional de Saúde. Se o texto do PSD for aprovado como está, dificilmente seria melhor para o PS.

Costa tem números bons para apresentar - a taxa de desemprego em queda livre apesar do aumento do salário mínimo - e o cumprimento das metas de Bruxelas apesar da devolução de rendimentos. Desfez o tabu de que não vai pedir a maioria absoluta. Faz bem: o pedido de maioria absoluta pode ser contraproducente para os defensores da geringonça e a última maioria absoluta que o PS teve, a de José Sócrates, foi traumática para uma grande parte dos portugueses, 

É interessante um ajustamento no discurso do primeiro-ministro relativamente ao Congresso do PS, onde desvalorizou clara e efectivamente os partidos que apoiam o Governo no Parlamento. Costa percebeu a tempo que muito do eleitorado socialista simpatiza com a solução e que hostilizar PCP e Bloco de Esquerda pode não render votos. É evidente que Costa quer a maioria absoluta, objectivo muito difícil. Mas a decisão de não a pedir é acertada. "Dar força ao PS" é um bom slogan de substituição e também fala ao centro, objectivo que Costa mantém mas perdeu a necessidade de o verbalizar. Aliás, é disso que fala quando conta que é abordado por cidadãos que afirmam nunca ter votado PS, mas que desta vez estão tentados. 

A rentrée política do PS apontou o discurso para as três eleições. Parlamento Europeu, regionais da Madeira e legislativas de Outubro de 2019. E a menos que aconteça um cataclismo, Costa pode continuar à vontade para dançar. Pelo menos enquanto o seu maior opositor continuar a fazer o que faz desde que tomou posse: dormir.