As ousadias dos Jorgensen entre o Alentejo e o mar

Depois de, nos anos de 1990, afirmarem o potencial dos tintos na Vidigueira, os Jorgensen têm já cinco anos de resultados para provar que os seus brancos junto ao mar são um caso sério. Cortes de Cima, o retrato de uma empresa que fez do inconformismo um modo de vida.

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Jerónimo Heitor Coelho
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É frequente dizer-se que por detrás de um grande vinho há-de haver uma grande história e, neste particular, Hans e Carrie Jorgensen têm uma bela história para embrulhar os vinhos de Cortes de Cima. É uma história que, ao contrário do que normalmente acontece com as criações do marketing, se reflecte na permanente procura de coisas novas, no cuidado com os vinhos, na procura da eficiência e da sustentabilidade e, claro está, no perfil dos tintos e brancos que fazem já lá vão quase 25 anos.

A história dos Jorgensen e da Cortes de Cima é, por isso, uma história inacabada, que começa no calor do Alentejo e num golpe de ousadia se estendeu até ao mar, que passa por tintos em zona de brancos e brancos em zona de vinho nenhum, que implica o experimentalismo permanente nas podas, nas mondas, na condução da vinha, o risco de plantar castas novas em territórios desconhecidos, centenas de microvinificações e uma quase obsessão em pensar a longo prazo. Sim, Cortes de Cima tem uma história que marcou e está a marcar indelevelmente a história do Alentejo — e por arrastamento do vinho português contemporâneo.

Ao caminhar pelas filas de videiras, Hans Jorgensen, um homem com os seus 70 anos, magro e com uma vaga timidez muito nórdica (é de nacionalidade dinamarquesa) sente-se como peixe dentro de água. Engenheiro de formação, trabalhou durante mais de 20 anos em plantações na Malásia, onde extraía óleo de palma. Para ele, a natureza da terra, os caprichos do clima, a mecânica das plantas ou os ingredientes que dão origem a um grande vinho não são propriamente certezas. Ao seu lado, Carrie, uma americana da Califórnia, parece mais exuberante e se sabe muito de castas e de vinhos, é na área comercial que investe o grosso da sua actividade profissional. Depois, há o enólogo Hamilton Reis, na Cortes de Cima desde 2006, que se diz fazer “parte da família” — e a verdade é que o relacionamento entre o casal Jorgensen e Hamilton está muito longe de se parecer com as convenções que se encontram numa relação entre o patrão e o empregado.

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Quando decidiram mudar de vida e deixar a Malásia para constituir família, aí pelos meados dos anos de 1980, os Jorgensen viajaram de barco desde Inglaterra e chegaram à Vidigueira por recomendação do embaixador da Dinamarca. Havia uma propriedade à venda que, por sinal, era de um dinamarquês. Foi uma espécie de encanto imediato. “O meu marido disse logo: ‘isto é o paraíso’”, recorda Carrie, também ela satisfeita com as semelhanças de Cortes de Cima com algumas paisagens da Califórnia natal. A casa da propriedade com 375 hectares não tinha electricidade nem casa de banho, a agricultura, quase exclusivamente centrada nos cereais, estava descuidada, mas era ali que os Jorgensen iriam começar um projecto que hoje comercializa mais de dois milhões de garrafas por ano. O problema, em 1988, quando a propriedade foi comprada, era mesmo por onde começar. Para quem queria fazer vinho, o zero era simplesmente o ponto de partida.

“O nosso tabu é não termos tabus”

Ajudou o facto de Hans ser engenheiro. A sua primeira prioridade foi construir uma reserva de água, erguendo uma barragem nas imediações de uma ribeira. Hoje, a água do Alqueva já chega a Cortes de Cima, mas nos primórdios da aventura essa reserva foi fundamental para garantir a sobrevivência das plantas. E que plantas? “Na adega cooperativa diziam-me para plantar castas brancas, que são a tradição aqui”, recorda Hans, mas o clima quente da Vidigueira afastou-o desse caminho. Nem as descrições sobre a corrente de ar fresco que, principalmente à noite, corre ao longo do maciço que acaba na serra do Mendro e torna o clima mais ameno, bastaram para o convencer. Essa frescura, pensou Hans, serviria sim para contribuir para o frescor e elegância dos vinhos tintos. E, tomada a decisão, Hans contou com a ajuda de pareceres de especialistas da Universidade de Davis, nos Estados Unidos, para plantar castas autóctones. Em 1991 fizeram-se as primeiras plantações, o início de um processo que ainda hoje, 230 hectares depois, permanece por concluir.

“O nosso único tabu é não termos tabus”, explica Hamilton Reis, e a história do Incógnito é a prova dessa atitude persistente. Em 1992 Hans Jorgensen decide plantar Syrah e em 1998 está em condições de lançar o seu primeiro vinho desta casta. O problema é que a regulamentação do Alentejo não a permitia. Persistente, Hans decidiu avançar, mantendo a casta sob anonimato no rótulo — servia apenas como acrónimo para descrever o vinho e o método de produção. O Incógnito tornar-se-ia um sucesso em Portugal e em vários países e o Alentejo descobriu a sua vocação para a Syrah.

Antes, porém, em 1996, a Cortes de Cima já tinha colocado no mercado os seus primeiros Garrafeira (mais tarde Reserva) com direito a aplauso e aclamação. O Reserva de 1998 ainda hoje é um vinho prodigioso, cheio de garra, profundidade e sofisticação. Pode durar ainda mais alguns anos, como que a testemunhar a propensão dos vinhos de Cortes de Cima para a longevidade. Até o Chaminé ganha refinamento e complexidade após cinco ou dez anos de garrafa, como uma prova organizada em Cortes de Cima confirmou.

Mas se o Syrah é um trunfo, se na vinha há lugar para Cabernet Sauvignon, sobra também espaço para as castas tradicionais da região, com destaque para a Trincadeira, a Aragonez ou a Alicante Bouschet ou até para a clássica Touriga Nacional. Em termos de brancas, na Cortes de Cima da Vidigueira há apenas espaço para a Viognier, fundamental para dar volume aos lotes da casa.

Estudar os solos e as exposições ideais para cada uma é o segredo que Hans e Hamilton não escondem. Terras fortes para a Aragonez, por exemplo, não. A viticultura é, aliás, a prática onde se encontram muitas respostas para o perfil dos vinhos da Cortes de Cima. A condução das videiras baseia-se em bardos mais altos, para que, durante o Verão, a fruta fique mais distante da terra e evite assim os efeitos da irradiação do calor acumulado durante o dia. As desfolhas são intensas nas faces dos bardos voltadas a nascente e muito reduzidas nas orlas expostas a poente, uma forma de proteger os cachos do calor e da intensa insolação da tarde.

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A experimentação de ideias novas continua na adega. Uma série de cubas ao ar livre servem para que todos os anos se façam testes novos. Experimenta-se tudo: o comportamento das castas sujeitas a práticas de viticultura mais ousadas, as produtividades ou as componentes fenólicas com mais ou menos rega, a adaptação a diferentes lugares, lotações e por aí fora. “Nove em cada dez experiências não levam a lado nenhum”, reconhece Hamilton, mas, mais importante do que o destino, para Hans o que conta é a atitude de persistente procura de novos caminhos. A adega, coberta de painéis solares que ajudam à auto-suficiência energética da empresa, é, pelo contrário, frugal e crua. Impera no seu interior uma certa austeridade nórdica que contrasta com o luxo das vinhas.

O eldorado dos brancos

Se os 20 anos que Hans passou na selva malaia lhe desenvolveram o instinto de sobrevivência, é provável que lhe tenham apurado a intuição para descobrir novas oportunidades. Talvez, mas a aposta dos tintos na Vidigueira ou a plantação de castas brancas em Vila Nova de Milfontes obedece à devoção que o dinamarquês deposita na experimentação e na consequente produção de conhecimento cientificamente validado. Quando Hans chegou aos enormes planaltos junto ao rio Mira esperavam-no o mesmo cepticismo de sempre: a humidade do mar iria criar crises de oídio, a amenidade do clima perturbaria a maturação… Hans não se intimidou e começou a plantar Sauvignon Blanc e Alvarinho — e também Pinot. Após três anos de aprendizagem, chegaram onde queriam, diz Hans. E, com as vinhas ainda jovens, o destino é mais do que promissor. Uma prova do Alvarinho de 2014 mostra notas de resina deliciosas, sugestões salinas, volume e persistência que denunciam uma excelente aptidão para o envelhecimento. A prova do 2015 mostra o mesmo perfil identitário. Os brancos atlânticos de Cortes de Cima são uma aposta ganha. O medo do oídio dissipou-se com podas e mondas que acentuam o arejamento dos bardos, a temperatura amena, associada a muitas horas de exposição solar, criou condições únicas para maturações que oferecem profundidade, equilíbrio e frescor.

Imparáveis, Hans, Carrie e Hamilton continuam a procurar novos ângulos nesse admirável mundo novo dos brancos alentejanos à beira-mar. Plantaram Loureiro ou Chardonnay, mas procuram igualmente aproveitar a amenidade do clima para experimentarem castas tintas como a Jaen, a Aragonez ou a Cabernet Franc. O princípio é o mesmo de sempre: não olhar a produção e o negócio do vinho desde uma poltrona confortável. Aos 70 anos, Hans viaja ainda na sua pequena avioneta particular entre a Vidigueira e Milfontes sempre com ideias na cabeça a fervilhar. Um dia, espera, os seus filhos hão-de substituí-lo nessa tarefa de fazer crescer Cortes de Cima.

Mas, seja qual for o futuro, Hans Jorgenssen é, no passado e no presente do vinho português, uma referência incontornável. Porque os seus vinhos são notáveis e revelam um potencial de envelhecimento magnífico. Mas também porque o seu inconformismo abriu novas rotas ao Alentejo e ao país. Se hoje a Syrah é rotineira nas vinhas da planície, essa realidade deve-se muito a Hans; se um dia, como está já a acontecer, os planaltos de Milfontes estiverem cheios de vinhedos, será obrigatório lembrar esse homem alto, seco e vagamente tímido que, para nossa sorte, decidiu vir viver para o Alentejo.