Trolls usam debate sobre as vacinas para semear discórdia nos EUA

As mensagens, a favor e contra a vacinação, vinham frequentemente associadas a questões controversas nos EUA, como religião, raça e segurança. O objectivo era aumentar a hostilidade entre ambos os grupos, dentro e fora dos EUA.

Foto
Em média, publicações de trolls sobre vacinas eram 22 vezes mais comuns do que publicações de pessoas reais Marco Duarte

Grande parte da desinformação em inglês que circula sobre saúde e vacinas no Twitter é promovida por bots – programas de computador que simulam o comportamento humano – e trolls – indivíduos que adaptam as suas opiniões para gerar a discórdia. A conclusão é de um estudo publicado esta semana na revista científica da Associação Americana de Saúde Pública (APHA) que alerta para a “militarização da informação de saúde”.

Investigadores da Universidade de George Washington, nos EUA, descobriram o problema durante um estudo sobre formas de melhorar a comunicação com profissionais de saúde na Internet com base em 1700 milhares de publicações escritas entre 2014 e 2017. Em vez disso, encontraram várias contas a utilizar a hashtag #VaccinateUS para espalhar desinformação sobre vacinas. Muitas publicações vinham da Internet Research Agency – trata-se do mesmo grupo de trolls russos responsável por operações de manipulação online durante as eleições presidenciais de 2016 nos EUA. 

As mensagens vinham frequentemente associadas a questões controversas nos EUA, como religião, raça e segurança: “Não vacinem as crianças! Os Illuminati estão por detrás disso”, “Sabem que há uma base de dados governamental secreta de crianças #estragadas-das-vacinas?”, e “#Vacinar infringe liberdades religiosas protegidas pela Constituição” são alguns dos exemplos mais frequentes que os investigadores encontraram. Em média, publicações de trolls sobre vacinas eram 22 vezes mais comuns do que publicações de pessoas reais.

A equipa da George Washington explica, porém, que os argumentos usados pelos agentes de desinformação defendiam tanto posições a favor como contra a vacinação. O objectivo era aumentar a hostilidade entre ambos os grupos, dentro e fora dos EUA. “As comunicações de saúde pública tornaram-se uma arma. Questões de saúde pública, como a vacinação, já fazem parte das tentativas de potências estrangeiras gerarem conflitos ao espalhar informação falsa”, escrevem os investigadores no estudo.

Esta semana, o Facebook e o Twitter removeram centenas de contas falsas com origem na Rússia e no Irão a espalhar desinformação sobre assuntos que iam da presidência de Donald Trump ao conflito israelo-palestiniano, passando pelo “Brexit” e pela monarquia britânica. De acordo com os investigadores da Universidade de George Washington, as vacinas são mais um tema que permite aumentar as tensões entre grupos com opiniões distintas. 

“Dados das nossas pesquisas mostram um consenso geral quanto à eficácia das vacinas na população geral, mas com bots e trolls activamente envolvidos no discurso público sobre saúde, enviesando a discussão pública sobre a vacinação”, lê-se nas conclusões dos autores. “Além de se evitar que estas contas façam publicações nas redes sociais, os profissionais de saúde pública têm de se concentrar em combater as mensagens promovidas sem alimentar uma guerra directa com os trolls. É uma área que beneficia de investigação futura.”

O estudo da Associação Americana de Saúde Pública chega numa altura em que a Europa regista um número-recorde de casos de sarampo. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, entre Janeiro e Junho deste ano foram registados 41 mil casos de sarampo. É um número superior ao de qualquer outro ano desta década.