O primo de Cavaco Silva que foi o “Tarzan” da praia de Albufeira

À noite, pescava lulas; durante o dia, vigiava a praia e fazia exercícios práticos na aprendizagem de línguas estrangeiras. O choro de uma inglesa, depois de salva, ainda hoje lhe faz cócegas no coração

Foto
Rui Gaudêncio

O primeiro nadador-salvador de Albufeira, Leonel Santos, pescador, fez furor nas praias algarvias, no final da década de 60. “Chamavam-me ‘o Alemão’”. A alcunha, explica, devia-se ao aspecto físico: espadaúdo, de cabelo louro e olhos azuis. Nos dias em que o mar ficava encrespado, e se alguém ficava em apuros – apanhado por onda traiçoeira ou corrente forte –,  o “Tarzan” entrava em acção. “Houve uma inglesa que, depois de salva, chorou tanto, tanto... Pensei: ‘Será que ela quer que case com ela?’”.

O mar da costa algarvia parece calmo, mas, quando o vento levante ataca, “cuidado: facilmente os banhistas são atirados contra os rochedos, ou puxados pelo mar adentro”, adverte. Os anos passaram, mas as memórias de outros tempos não se perderam na espuma dos dias. Dos salvamentos em que interveio, destaca nove que o marcaram – incluindo o do irmão com 14 anos, quando se viu em apuros. “Nunca ganhei uma medalha por isso”, lamenta.

Na Marinha, onde cumpriu serviço militar como fuzileiro especial, conquistou quatro medalhas e dois troféus. Praticava remo, natação e jogava à bola. Com tanto exercício físico, a juntar à dura faina no mar, não precisava de frequentar ginásios para moldar a musculatura. “Desde miúdo que dava saltos mortais na praia”, diz. Na praia da Balaia, quando saía da barraca de madeira e atravessava o areal, de T-shirt apertada e calções justos, “elas olhavam, e não disfarçavam”. Estamos no tempo em que o “macho latino” fazia parte da paisagem turística algarvia, e o mercado britânico dava os primeiros passos na descoberta de Albufeira, a aldeia piscatória.

Leonel Cavaco Silva, de 78 anos, é primo em segundo grau do homem que mais anos esteve à frente dos destinos do Portugal democrático, Aníbal Cavaco Silva. “A minha mãe era prima-irmã da mãe dele”, diz. Seguiram percursos de vida e opções políticas diferentes, mas partilharam pelo menos uma coisa: um par de botas de futebol. Na época em que o antigo Presidente da República estudava as regras de cálculo das finanças públicas, o amigo pescador treinava a aprendizagem prática de línguas estrangeiras na praia de Albufeira. “Comecei por comunicar por gestos, depois aprendi o inglês e o francês”. Durante o dia, no Verão, vigiava a praia; à noite, pescava lulas. “Fui o primeiro nadador-salvador da praia do Forte de São João (Albufeira)”. Do curso, tirado em 1967 em Vila Real de St.º António, recorda, chumbaram sete dos 18 candidatos.

Mas também se dedicou à política. “Presidi à primeira comissão de moradores dos Olhos d’Água, estive na origem da criação da freguesia em 1997 e fui autarca durante 27 anos [eleito, como independente, nas listas da CDU]”, destaca. Por isso, na galeria das fotos dos antigos autarcas, expostas no edifício autárquico, ocupa o primeiro lugar.

O perigo das grutas

Os passeios pelas grutas das praias algarvias sempre foram uma tentação para os turistas, mas o perigo espreita a cada instante. Leonel Santos recorda o episódio de um cidadão alemão que se meteu dentro de uma gruta, no mar, com objectivo de conseguir fotos originais. Quando se deu conta, relata, a maré já tinha subido, e de lá não conseguia sair. “Do lado exterior, havia um pequeno buraco, com ligação para o interior da gruta – retirei areia, para dar passagem, e puxei-o”. Uma vez liberto, recorda, “agarrou-se a mim a chorar”. Mas o caso mais insólito, lembra, deu-se com uma inglesa, na Balaia. O marido levou-a a passear de barco, e ela não sabia nadar. “Uma aceleradela forte projectou-a para fora, caiu no mar, e ele continuou a navegar, sem se dar conta de que tinha perdido a mulher”. Quando deu pela falta, evoca, já a mulher estava quase afogada. Atento e vigilante, o nadador lançou-se na operação de resgate. “[Uma vez passado o susto, ela começou a chorar tanto, tanto... Agarrou-se  a mim e pensei: ‘Será que ela quer casar comigo?’”, brinca.

Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros nomes que faziam da música uma arma política passavam férias nos Olhos d´Água. “Gostava muito dessa rapaziada, e fiz bons amigos”, evoca. Naquela época, os pescadores alugavam casa para férias aos turistas. “Michel Giacometti ficou hospedado em casa do meu tio, quando veio a esta zona fazer recolhas da música tradicional”.

De Aníbal Cavaco Silva considera tratar-se, também, de “um amigo” desde os tempos de infância. Mas sempre navegaram águas diferentes na política. O estudante de então, filho do antigo comerciante de frutos secos de Boliqueime, passava férias na aldeia piscatória, quando o gira-discos debitava músicas de embalar corações apaixonados. Desses tempos, recorda um Aníbal Cavaco Silva, “com pouco jeito para a bola, mas bom no atletismo”. Quanto a namoricos, não comenta.