A centenária Peixinho tornou-se très chic

Já era afamada por causa da sua longevidade e qualidade dos seus ovos-moles e outros doces. Agora, fez um restyle e está a espalhar charme com o seu ar parisiense.

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Nelson Garrido
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Aos 162 anos de vida, a Confeitaria Peixinho rejuvenesceu. Aquela que se apresenta como sendo a mais antiga casa de ovos-moles de Aveiro – será a que tem mais anos a confeccionar e vender este doce – vive, agora, numa aura de glamour, transpondo os seus clientes e visitantes para o ambiente das mais requintadas confeitarias parisienses. Muito ao estilo da Ladurée, só que em vez de macarons servem-se ovos-moles. E ninhos, delícias, cornucópias, moliceiros e glorinhas (tudo feito com ovos-moles), entre outras doces tentações. Mantendo a localização de sempre, no número 9 da Rua de Coimbra (junto aos paços do concelho), a Peixinho ganhou uma nova vida, que se evidencia a todos quantos passam à sua porta.

“Temos recebido vários elogios, alguns até mais emocionados”, destaca Pedro Dias, do grupo empresarial que está, agora, à frente do espaço e que é responsável por todo este restyling. Sem cortar com o laço que tornou a casa tão especial: “O senhor Alberto Gomes e a dona Ana, sua esposa, colocaram tanta paixão nesta confeitaria que era impossível não os ter aqui ao nosso lado, a colaborar connosco”, destaca o representante do grupo que é detentor de marcas como o Museu do Pão, de Seia, ou a conserveira Comur.

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A família de Alberto Gomes foi responsável pelos últimos 45 anos de história da confeitaria criada em 1856 por Maria da Apresentação Peixinho – daí o nome da casa – e continua a ser presença assídua naquele espaço. “A D. Ana acabou de me dar uma aula de como apreciar um ‘ovo-mole’, o que o distingue”, repara Pedro Dias, ainda antes de Alberto Gomes se gabar que foi graças à dedicação e engenho da sua esposa que nasceram receitas como as dos ninhos, das delícias e das cornucópias. “No fundo, o que nós fizemos foi aproveitar todo este saber, esta paixão, pegar neste produto e reposicioná-lo”, nota Pedro Dias.

Uma montra sem igual

O charme que é anunciado a partir do exterior confirma-se dentro de portas. A decoração aposta em tons suaves – com predominância do verde-água e do rosa – e em alguns elementos mais requintados, como é o caso do enorme candeeiro de tecto. Atrás do balcão, há um armário que se estende até ao piso superior e no qual estão agora impecavelmente arrumadas as caixas de ovos-moles – em cada divisória, uma cor. E esqueça aquela imagem das típicas caixas de ovos-moles (de papel branco). Na “nova” Peixinho o doce conventual aveirense é comercializado em caixas elegantes – de tom rosa, verde-água ou azul-claro –, e aparece embrulhado num “papel” comestível (hóstia, como aquela que é usada para dar a forma de peixes, barricas ou conchas, ao doce de gema). Estampado na caixa vem também um excerto da obra Os Maias, de Eça de Queirós, com a alusão a esse “dôce muito célebre” e “chic”. É verdade que Eça era suspeito – viveu parte da sua infância em Aveiro –, mas a classificação até cai bem ao doce nascido, por volta de 1500, no Convento de Jesus.

Na montra que está colocada em cima do balcão, exibem-se as grandes estrelas da casa e outras tantas mais – além das já referenciadas, na Peixinho também se vendem bombons de ovos-moles, pão-de-ló e suspiros de ovos-moles. E para quem quiser degustar estas delícias ali mesmo, há agora duas áreas com mesas – na anterior confeitaria não havia espaço para serviço de mesas –, uma no primeiro piso e outra no segundo piso.

Duas novas áreas que funcionam, de alguma forma, como uma espécie de museu. Ao longo das paredes estão expostos textos e documentos que abordam a história da casa e do próprio doce conventual. Também ali está retratado o Monumento aos Ovos-Moles de Aveiro (escultura da autoria de Albano Martins), entre outras curiosidades alusivas ao doce aveirense – incluindo a própria receita dos ovos-moles de Aveiro. 

Alberto Gomes está feliz com a transformação que fizeram no seu antigo negócio. “Como podia não estar? Ainda para mais, conseguiram fazer algo que eu sempre quis e não consegui: criar uma área de salão de chá”, avalia. Muito “ao estilo das confeitarias de Paris, é verdade, com um toque Arte Nova, que está tão presente em Aveiro”, realça, por seu turno, Pedro Dias. Se Eça de Queirós tiver razão, então, na Peixinho os ovos-moles são servidos e confeccionados de uma forma très  chic.